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Por respostas efetivas à violência de gênero
É no nível local que se pode articular medidas protetivas em rede, como visitas policiais,…

Arte: Edgar Vasques
No tempo da guerra fria havia as fronteiras ideológicas que atravessavam países e continentes, separando o “mundo livre” do outro e dos simpatizantes do outro. Foi para defender a fronteira ideológica na América Latina que a política de contrainsurgência americana patrocinou os nossos governos militares, treinou os nossos torturadores e zelou pelas nossas respectivas seguranças nacionais. A não ser que visitasse um país comunista ou frequentasse algum aparelho, você nunca cruzava a fronteira ideológica.
Sequer a via. Independentemente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum delimitado e firme. Quando a guerra fria amainou e as fronteiras ideológicas começaram a desaparecer, nos vimos livres dos generais, mas dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. E estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes – e você as cruza todos os dias. Mais de uma vez por dia você passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias… E em cada sinal que para, está na Somália.
É impossível defender esta fronteira. A grande questão do fim do século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora. Os americanos não podem ajudar desta vez. A fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. E, afinal, eles não conseguiriam intervir em todas as somálias.
No Brasil da criminalidade crescente experimenta-se com uma versão da teoria de segurança nacional adaptada às fronteiras econômicas. Enfrenta-se, ao mesmo tempo, uma bandidagem organizada e a falência de uma organização policial. Mas no fim é uma guerra de contenção, de proteção do perímetro. E os excessos cometidos podem ser defendidos com a velha frase, o adágio definidor do século 20: os fins justificam as barbaridades. As chacinas no campo e na cidade, a liberdade de pequenos tiranos de uniforme para serem arbitrariamente violentos, até as condições subumanas das nossas cadeias, tudo é permitido porque não se está apenas mantendo a ordem, está-se defendendo uma pátria ameaçada, a pátria do privilégio e da insensibilidade social. Tudo, no fim, é escaramuça na fronteira.
Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa. Esta não é certamente uma constatação nova e nem qualquer utopista ultrapassado chegou a pensar que o contrário era completamente viável. A novidade é que hoje se admite pensar o mundo a partir dela. Já se pode dormir com ela. Os países desenvolvidos podem erguer barreiras cada vez mais rigorosas contra os pobres sem ferir suas convicções liberais, embora, claro, não aprovem quando neonazistas atacam imigrantes ou a barbaridade se torna excessiva demais.
A ordem econômica mundial está baseada na inevitabilidade de a maior parte do planeta ser habitada por lixo irreciclável. Ser “politicamente correto” hoje é dizer o que ninguém mais realmente pensa – sobre raças, sobre os pobres, sobre consciência e compaixão – para não parecer insensível, mas com o entendimento tácito de que só se está preservando uma convenção, que a retórica dos bons sentimentos finalmente substituiu totalmente os bons sentimentos. É a intuição destes novos tempos sem remorso que move qualquer tipo de extermínio organizado ou não, institucionalizado – como nas cadeias superlotadas – ou clandestino. Nem tem sentido discutir se as vítimas mereceram ou não. Não existe lixo inocente ou culpado. O que está no lixo é lixo. Demasia. Excesso. Excrescência.
Há anos, o Brasil vive num vaivém entre duas formas de poder discricionário, a ditadura institucionalizada e a ditadura da personalidade. Só Dutra, Sarney e Itamar, não por acaso três homens sem qualquer carisma que foram mais transições do que presidentes, fizeram governos “normais” e escaparam da síndrome. O governo Juscelino foi “normal” só na fachada, poucas vezes uma personalidade ditou a política de uma era como a dele, mesmo mantidas as formalidades democráticas.
A síndrome vem desde 1930. Depois do Estado Novo e da transição Dutra, da breve volta do salvacionismo com Getúlio e dos anos com a grife JK, veio Jânio, uma espécie de apoteose do personalismo no poder.
Depois da renúncia, da frustração de Jango, de 20 anos de governo militar e poder despersonalizado e da transição Sarney, Collor, para mostrar que a nação não aprendera com Jânio a desconfiar dos homens providenciais. E depois da transição Itamar, Efe Agá, outro triunfo de uma personalidade sobre o seu próprio desempenho, pois só a simpatia pessoal explica o que resta de aprovação do seu governo. Efe Agá, pelo menos, não assusta.
Pois nesse vaivém entre duas formas de poder excepcional, sem cara ou com cara demais, tivemos sorte. Nossa única opção para que as coisas mudassem no Brasil parecia ser entre ditadores e loucos, e só a benevolência divina nos poupou, até hoje, de alguém que acumulasse as duas condições.
*As crônicas desta coluna são republicações do acervo do autor cedidas ao Extra Classe.
Luis Fernando Verissimo colabora mensalmente com o Extra Classe desde 1996.