A arte de desenvelhecer

Desenvelhecer é algo que precisamos fazer tanto em nível individual como na sociedade como um todo. Trata-se da arte de esquecer velhos hábitos e reaprender a envelhecer como pessoa e como sociedade

A arte de desenvelhecer

Foto: Paramount Pictures/O Curioso Caso de Benjamin Button (2008)

A velhice incomoda muita gente. E pouco importa se a chamamos de velhice, senectude ou vetustez, pois o resultado costuma ser o desprezo e uma certa ojeriza. Nem mesmo os eufemismos criados pela humanidade, como “terceira idade” ou “melhor idade”, costumam reduzir o asco que temos pela ideia de nos tornarmos velhos. Todos querem envelhecer, mas ninguém quer ficar velho. Como se isso fosse realmente possível. É que a velhice incomoda aqueles que a enxergam apenas como uma fase de inevitável decrepitude. E ela também incomoda aqueles que a enxergam como um fardo a ser carregado pela sociedade. Mas é uma arte.

Uma ideia imprecisa é aquela que supõe que a velhice seja algo recente. Se é verdade que hoje vemos um número muito maior de velhos na sociedade é simplesmente porque mais gente está tendo a oportunidade de envelhecer. Graças a alguns avanços da medicina – em especial a redução drástica na mortalidade infantil – e a diversas melhorias sociais – como o saneamento básico e melhores condições de trabalho –, mais pessoas têm alcançado a longevidade. O que pode significar uma bênção ou uma maldição, dependendo do caso.

Sociedade

Isso porque nem todos as sociedades tratam seus velhos da mesma forma. Enquanto boa parte das sociedades ocidentais ainda enxerga a velhice como um fardo, há países que tradicionalmente prezam a sabedoria dos mais velhos, como algumas nações orientais. Existem também aquelas localidades que ficaram conhecidas como Blue Zones e que se caracterizam por apresentar uma proporção de longevos muito maior do que em outros lugares. Nesse grupo se encontram lugares como a italiana Sardenha, a japonesa Okinawa, a costarriquense Nicoya, a grega Icária e a californiana Loma Linda. Tais lugares têm em comum vários aspectos climáticos e geográficos, mas acredita-se que a longevidade esteja relacionada em especial com a riqueza de ligações sociais significativas, as quais mantêm as pessoas ativas e significativas na sociedade até idades bastante avançadas. É possível dizer que em tais lugares se vive muito exatamente porque viver bastante é visto ali como algo bom para todos.

Manter uma visão positiva em relação à velhice é de fundamental importância para que ela seja uma fase da vida o mais agradável possível. A psicóloga estadunidense Ellen Langer defende a tese de que nossas ideias preconcebidas sobre a velhice têm influência direta sobre a maneira – boa ou ruim – como envelheceremos, exatamente como se fosse uma profecia autorrealizadora. É por isso que ela propõe que se abandonem o quanto antes essas ideias que ligam a velhice à decrepitude ou a algum tipo de fardo para a sociedade. Segundo ela, as pessoas que nutrem uma visão positiva da velhice e têm bons exemplos de envelhecimento saudável na família ou em suas relações próximas têm bem mais chances de elas mesmas também envelhecerem melhor. Em outras palavras, mudar essas ideias negativas sobre a velhice ajudaria muito os velhos de hoje e do futuro.

Arte

Desenvelhecer é então algo que precisamos fazer tanto em nível individual como na sociedade como um todo. Trata-se da arte de esquecer velhos hábitos e reaprender a envelhecer como pessoa e como sociedade. Individualmente precisamos olhar para a velhice como uma fase positiva da vida em que teremos não apenas limitações físicas até certo ponto inevitáveis, mas também a sabedoria necessária para enfrentar essas dificuldades e ainda obter prazer em nossa existência pessoal. Como sociedade é importante que criemos maneiras inteligentes de manter nossos velhos ativos e socialmente significativos, o que traria benefícios não apenas para eles, mas para todos aqueles que ainda estão iniciando na arte de viver e precisam desesperadamente de seus sábios conselhos.

O escritor Mia Couto diz que a pessoa que envelhece perde várias coisas ao longo da caminhada, como se “trocasse vida por idade”. Mas ela também ganha coisas boas como a sabedoria que só o tempo traz e a moderação nos hábitos que nos ajuda a seguir em frente por mais algum tempo. E, embora haja aqueles que desdenham dessa sabedoria e moderação e prefiram negar a velhice recorrendo a uma bizarra indústria antienvelhecimento criada pelo capitalismo senil, a verdade é que envelhece melhor quem aceita serenamente as delícias e as vicissitudes da velhice.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

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