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Foto: South Summit/Divulgação
Uma jovem participante do primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2001, pode estar hoje com idades entre 40 e 50 anos. Uma filha dela pode ter participado do South Summit Brazil, realizado agora há pouco na cidade.
Passaram-se 24 anos. A mãe dessa jovem que esteve agora no Summit precisa assimilar mudanças radicais. Se não conseguir, não entenderá direito como a filha deixou de herdar seus cuidados com projetos e esforços coletivos para se interessar hoje por soluções resultantes de eurecas quase sempre individuais.
Pode ser esse o confronto de ideias e ambições, mesmo que sem grandes conflitos, entre mãe e filha hoje. A mãe dizia: vamos encontrar saídas juntos. A filha pode chegar em casa, depois de um dia intenso no Summit, e avisar: tive uma eureca, mãe.
Porque esse é o espírito da jornada sobre o mundo das novas tecnologias: ter sacadas. O slogan do evento informava, no alto da página na internet: “O ponto de encontro das conexões e negócios”.
Mudou tudo. Basta ter um celular na mão e uma ideia na cabeça, sem depender de muita gente. A mãe da menina, que não queria saber de eurecas, ouvia no Fórum Social, desde a primeira edição, líderes inspiradores de saídas para o mundo.
Sempre com prioridade para o ponto de vista social e para a capacidade de reflexão e colaboração. E com envolvimento amplo do que chamavam de sociedade.
No Summit Brazil, com z, a filha conviveu com a profusão de projetos gerados pela capacidade de criar de uma pessoa ou um pequeno grupo. São produtos, geralmente aplicativos, que até têm o sentido do coletivo, porque vão, é claro, contribuir para soluções coletivas.
Mas o espírito não é o mesmo, a partir do que têm de mais elementar. A mãe saudosa do Fórum Social queria o bem de todos pelo envolvimento mútuo e comunitário e com suporte do setor público. A filha deseja a prosperidade pela iniciativa privada e particular.
Essas duas pessoas não são caricaturas. Elas existem. Mesmo que muita gente se negue a enxergar que o mundo é outro, mas não aquele imaginado em 2001. A moça ou o rapaz que representam o jovem lá do Fórum Social Mundial não existem mais.
Por mais que se diga que os modelos são outros, que precisamos evitar comparações, que não podemos simplificar as coisas e as pessoas, esse é o ambiente hoje, o da criação competitiva. Não existe mais, com a mesma pegada, a utopia do outro mundo possível do Fórum Social Mundial.
O que existe, como imposição hegemônica, é o mundo da prosperidade produzido pelas big techs, sem que isso signifique necessariamente um julgamento. É só a realidade, companheiro.
Um aplicativo hoje pode contribuir para a solução de impasses ambientais, mas sem a mesma abordagem do início do século 21. A mãe quando jovem queria resolver os problemas ecológicos (esse era o termo), mas envolvida no debate de conflitos, contextos, estruturas e consensos.
A filha pode querer apenas oferecer saídas para problemas do que chamam hoje de eventos climáticos. Quer ser dona de uma startup e que alguém use como quiser o que ela inventou.
Porque não fizeram quase nada do que falavam lá em 2001 sobre o que viria depois. E veio e inundou Porto Alegre, também na área do cais em que se realiza a cimeira, o Summit que os levará ao cume da sabedoria e das soluções pela tecnologia.
Parece tudo igual, mas não é, porque mudou, nesses 24 anos, o entendimento do que possa ser interesse coletivo. E o que mais importa: mudou, para o frequentador do Summit, a noção do que é a construção de um projeto pessoal que assegure autonomia e sucesso.
Mudou tanto que há rupturas drásticas. Cada vez mais jovens não se alinham a projetos construídos nos moldes do século 20. Não fazem carreira convencional, do colégio à faculdade. Não querem saber de empregos com estruturas de comando verticais e hierarquias. Desistem de empregos de baixos salários e rotinas destruidoras.
Jovens querem a prosperidade como empreendedores, e não como empregados. Querem mobilidade, desejam ser nômades, não pretendem ficar parados num lugar tedioso.
E desistem até da faculdade. Os jornais noticiaram esses dias: das 620 mil bolsas do ProUni oferecidas no país em 2024, menos de 30% foram usadas. O índice de bolsas desprezadas subiu de cerca de 18%, como era 10 anos atrás, para 72% em 2024, segundo o Sindicato das Instituições Privadas de Ensino Superior. As matrículas via Prouni caíram 32%.
Uma combinação que leva ao desinteresse: a desistência de muitos da luta tradicional pelo diploma, porque não faz mais tanto sentido, e a oferta de cursos desinteressantes para eles, que não têm as maiores demandas.
A menina lá do Fórum Social, que já pode até ser avó, achava que um dia teria uma eureca, que é parte do sonho de todos nós, de preferência na ‘área das humanas’. Hoje, a filha dela sai atrás da eureca como negócio. Sai Eduardo Galeano e entra a inteligência artificial.
Pergunta-se: mas não dá pra continuar levando a vida numa boa, até que um dia a eureca apareça? Não, a grande sacada é a eureca, é o projeto, essa é a urgência.
A jovem do Summit não quer muita coisa que sua mãe queria, em qualquer área. E não deseja repetir a trajetória de sonhos, utopias e frustrações da mãe. A mãe, o pai e a companheirada de 2001 precisam entendê-la.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.