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Foto: Freepik
Em uma conjuntura agravada por variadas crises (e lembremos como a palavra crise, krisis, em grego, também significa julgamento, o que, consequentemente, reforça em nós a necessidade de uma tomada de posição frente a tanto caos e tantas imposições), os professores se encontram cada vez mais no centro de diversos discursos e disputas acerca do trabalho e da ética docente. Dos colapsos climático e econômico à uberização decorrente com seus modos de subjetivação neoliberalizantes, o exercício da profissão docente torna-se periclitante, é visto com suspeitas e o professor, enfraquecido, alienado e descrente das suas entidades de classe, é socialmente submetido a uma posição de infans, de ser sem linguagem e por quem se fala, daquele que, segundo a psicanálise lacaniana, necessita de um Outro para falar em seu lugar.
Nessa conjuntura, a tendência de muitas universidades e escolas de investir (mais um termo neoliberal comum na linguagem corrente) na capacitação de seus professores para se transformarem em mediadores dos processos de aprendizagem apenas enfatiza a dessubjetivação por que passa o sujeito professor, que, não valorizado pelas suas potencialidades e singularidades, é concebido como mais um instrumento anódino em meio à linha de montagem do ensino, de modo que, caso essa peça crie problemas, por meio de uma concepção de ensino extremamente tecnicista, buscando sempre otimizar seus resultados a partir da racionalização dos seus processos, uma nova peça, avulsa no mercado, poderá assumir seu lugar.
Por um lado, inscrevem-se neste desastroso contexto a proliferação de discursos de um empreendendorismo liberticida com seu ódio ao Estado e seus aparelhos (como escolas, SUS, Ibama etc.), um ódio generalizado às instituições reguladoras do predadorismo vil que, somado a ressentimentos travestidos de demandas e a suas teologias da prosperidade e da dominação, alenta os sonhos cor de rosa de diferentes projetos de tiranetes por aí, campeões da audiência das massas, mas cujos perdigotos estão a serviço daqueles que, de fato, detêm o controle dos fluxos de lucro e investimento, cuja fome deseja abocanhar fatias e serviços estatais para privatizá-los, tomando de assalto a res publica, o espaço e o bem-comum de todos, para monetizá-los em âmbito privado, como bem têm demonstrado as políticas do governo Trump, persona que não é um presidente, mas apenas um funcionário dos empresários do setor de tecnologia, como Elon Musk e Mark Zuckerberg.
Esse neopopulismo de matriz neoliberal, próximo de posições irracionalistas, em prol de uma ideia bastante fluída de “liberdade”, mina diretamente os campos da ciência e do saber, desenvolvidos e divulgados pela pesquisa e pelo trabalho docentes, a fim de abafar as vozes que contestam fakenews e que demandam um mundo em que as condutas se baseiem no racionalismo (mas não no racionalismo técnico-burocrático estendido a tudo); na verificação dos fatos e das fontes; na busca pela verdade; na autonomia dos sujeitos a partir da sua libertação dos determinismos de origem, a fim de ampliarem seu repertório cultural e círculos de pertencimento.
Inimigos dos extremismos e das leituras fundamentalistas da realidade, os professores fazem frente às disputas ao redor de consensos, tensionando sujeitos que, inseguros e enrijecidos em suas realidades paralelas e fechadas, desejam restringir o contato daqueles sob sua influência com uma sociedade cada vez mais caracterizada pela pluralidade de registros, narrativas, corpos e visões de mundo.
Se o encontro com o Outro desestabiliza e reorganiza a própria subjetividade, existe a pressão para se abolir o contato. Se a verdade, de acordo com Bakhtin ao estudar os diálogos socráticos em Problemas da Poética de Dostoiévski, não se encontra em um sujeito, mas entre sujeitos no movimento dialógico, isolando-se da possibilidade de encontro, o que persiste é a própria meia mentira (ou meia verdade) como palavra de ordem a agitar asseclas como se fossem abelhas ao redor da colmeia.
Neste cenário, em vez de se conceber a sala de aula como Ágora do debate e do confronto entre diferentes visões de mundo, o que irrompe é tanto uma cultura do monólogo, de sujeitos a papaguearem consigo mesmos as ideias em que gostariam de acreditar, como do autismo, termo empregado como metáfora por Bifo Berardi, em O terceiro inconsciente, para descrever as diferentes formas de reação de defesa à hiperconectividade e à aceleração do fluxo de informações da contemporaneidade e cuja finalidade é proteger o indivíduo não só do contato com um mundo cada vez mais hostil, difícil de significar, mas também das relações que constituem potencial de conflitos, desencontros e rearranjos da própria subjetividade.
Nesse processo, proliferam estratégias de adaptação que passam pelo embotamento, pelo mutismo, pela recusa afetiva ao Outro e ao seu discurso, pois a novidade e diferença representadas pelo Outro angustiam e desestabilizam. Não é à toa que cresce a frequência de ataques contra professores, agressões que, muitas vezes, não são movidas por ressentimentos pessoais a um professor ou professora específicos, mas àquilo que professores e escolas representam como pilares para uma concepção mais plural de mundo.
Desse modo, em meio ao julgamento e tomada de posição decorrentes da krisis, faz-se urgente a defesa da escola e da universidade como centros promotores e articuladores da cultura e do saber. A serviço desse ideário cabe retomar também a raiz etimológica da palavra escola, schola, em latim, da qual provém a palavra scholar, ou erudito e acadêmico, em inglês, a qual, por sua vez, é a tradução do termo grego σχολή, que significa ócio, tempo livre.
Os primeiros filósofos, poetas e professores eram ociosos; ou seja, livres da necessidade de ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto, podiam-se dedicar ao pensamento, à discussão de ideias, à criação de valores. E é nesse lugar de liberdade em que o tempo adquire um caráter de potência criativa que surge a schola. Em contrapartida, negócio é a negação do próprio ócio, desse espaço de reflexão e produção de saber. É a negação da própria identidade universitária e escolar e, portanto, de tudo que faz de uma universidade uma universidade e de uma escola escola.
Arthur Beltrão Telló é escritor, doutor em Teoria da Literatura, professor da PUCRS e dirigente sindical. Confira outros artigos do autor.
Bibliografia utilizada: BAKHTIN, Mikhail, Problemas da Poética de Dostoiévski. Forense Universitária. 2010; BERARDI, Franco (Bifo), O TERCEIRO INCONSCIENTE: A psicoesfera na Era Viral. GLAC Edições. 2024; _____. Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. Ubu Editora. 2020; SAFATLE, Vladimir. Alfabeto das colisões. Ubu Editora. 2024.