As ligações perigosas da medicina

As novas gerações talvez ignorem as alianças nefastas entre a medicina e a indústria do tabaco, o que explica ligações as perigosas entre a medicina e a indústria de alimentos ultraprocessados

As ligações perigosas da medicina

Arte: EC | Fotos: Freepik

Pouca gente lembra que há algumas décadas a indústria do tabaco mantinha ligações estreitas e perigosas com a medicina. A indústria não apenas patrocinava várias atividades médicas como também os periódicos científicos frequentemente estampavam imagens de profissionais de saúde fumando e até mesmo prescrevendo cigarros para tratar desde dor de garganta até sintomas respiratórios como tosse e pigarro. É que naquela época ainda não sabíamos que o tabagismo era péssimo para nossa saúde.

Durante décadas a indústria do tabaco usou seu poder econômico para persuadir a medicina e a opinião pública a ignorarem os malefícios do tabagismo. Porém, desde a década de 1950, quando começaram a surgir estudos robustos demonstrando que o tabagismo estava fortemente associado ao aumento nos casos de câncer de pulmão e de diversas doenças cardiorrespiratórias, qualquer tipo de defesa do tabagismo ou de aliança entre medicina e indústria deve ser visto com muita desconfiança.

É frequente que adotemos hábitos perniciosos à saúde por pura ignorância. Mas, infelizmente, é também comum que as autoridades que deveriam proteger nossa saúde às vezes defendam comportamentos que podem parecer claramente prejudiciais a quem observe com um mínimo de atenção e bom senso. Em um recente livro dedicado à ignorância (Ignorância – Uma história global), o historiador Peter Burke lembra que muitas vezes a ignorância adquire uma forma ativa e voluntária por aqueles que se esforçam para não enxergar ou para não deixar que outros enxerguem aquilo que já está bem claro. E isso está bem evidente no caso das ligações históricas entre medicina e indústria.

O sucesso das campanhas antitabagismo nas últimas décadas é um dos melhores exemplos de medidas de saúde pública efetivas quando se observa a enorme redução no número de mortes e adoecimentos causados pelo tabagismo. Nenhuma droga ou procedimento médico conseguiria obter tanto sucesso na redução de casos de câncer de pulmão ou de doenças cardiorrespiratórias crônicas quanto as medidas que restringiram o tabaco na sociedade. E, ainda assim, corremos o risco de colocar tudo a perder.

Apesar de todo o conhecimento adquirido sobre os males do tabagismo, a indústria do tabaco segue bem viva e ensaia um triste retorno na forma de cigarros eletrônicos. Para isso, nada melhor para a indústria do que refazer aquelas antigas – e, talvez, esquecidas – alianças com a medicina, o que pode tomar formas variadas e até mesmo perigosas, como o patrocínio de atividades de educação médica em pleno século 21. Recentemente, veio à tona a notícia de que faculdades de medicina estadunidenses e cursos de educação médica continuada sobre tabagismo e doenças respiratórias de uma famosa plataforma de produção de conteúdo médico eram patrocinados por ninguém menos que a Philip Morris. Não é preciso dizer que uma análise do material utilizado no curso evidenciou distorções grosseiras do conteúdo em favor de uma visão favorável aos interesses da indústria.

Em seu recente livro Nexus, o também historiador Yuval Harari aborda a evolução das tecnologias de informação ao longo da civilização humana e vários problemas relacionados ao mau uso dessas ferramentas, mas nos traz algum alento quando lembra que a boa ciência e as democracias robustas apresentam o que ele chama de “mecanismos de autocorreção”, que são as diversas maneiras pelas quais se consegue corrigir os danos causados por escolhas infelizes feitas em algum lugar de nosso passado. Porém, para que tais mecanismos funcionem adequadamente na sociedade, é fundamental que eles atuem de maneira independente em relação ao poder econômico das empresas envolvidas nessas questões.

Por que isso é importante? Porque a medicina corre atualmente o risco de refazer alianças abjetas com a indústria do tabaco e anular o benefício conquistado na saúde pública em termos de redução na incidência de câncer de pulmão e de outras doenças cardiorrespiratórias relacionadas ao tabagismo. E isso, em grande parte, por puro interesse pecuniário e porque as novas gerações talvez ignorem as alianças nefastas já estabelecidas entre a medicina e a indústria do tabaco no passado (o que também explica as alianças não menos perigosas entre a medicina e outra indústria problemática – a de alimentos ultraprocessados).

Em pleno século 21, é absolutamente indefensável qualquer ligação entre a medicina e a indústria do tabaco, uma vez que as evidências sobre os malefícios do tabagismo para a saúde são suficientemente robustas e irrefutáveis. Ignorarmos isso pode ser trágico e fatal. Mas, como disse George Santayana: “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

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