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Centrais sindicais reivindicam reajuste do piso regional no RS, congelado desde 2019, pelo INPC. Matéria sobre o piso poderá ser votada no plenário da Assembleia Legislativa do estado nesta semana
Foto: Carolina Lima/CUT-RS
No dia 7 de dezembro foi divulgado o relatório World Inequality Lab (Laboratório das Desigualdades Mundiais), uma síntese da pesquisa internacional que estuda as desigualdades globais. O estudo agrega o trabalho de mais de 100 pesquisadores de todos os continentes e trata-se de um importante estudo coordenado por Thomas Piketty, autor do livro O Capital no Século XXI.
O livro de Piketty ganhou a atenção da imprensa e da academia quando mostrou empiricamente que aqueles que detém capital (ativos geradores de renda) possuem um aumento em sua riqueza ao longo do tempo superior àqueles que não o detém. Alguém vai pensar, o que há de novo nisso? Minha avó já dizia: dinheiro, chama dinheiro!
Contudo, há muitas teorias ainda vivas que não favorecem a compreensão das causas e a magnitude das desigualdades, e esse é um tema que gera agitação social e, portanto, ameaça estruturas de poder.
Uma dessas teorias (entre outras) é a do gotejamento (Trickle-Down Economics) quer dizer que há uma distribuição “automática” de cima para baixo, com efeito em cascata ou pirâmide, sob a lógica de que apostar em políticas que beneficiem empresas e os mais ricos, garantiria crescimento econômico e todos se beneficiariam, e seria a forma mais eficiente de reduzir desigualdades – “uma maré que cresce levanta todos os barcos”.
Teve uma época em que os mais ricos investiam em empregos e produção e dividiam os excedentes com os trabalhadores. Hoje em dia, escondem seu dinheiro em paraísos fiscais, sonegando impostos. Por isso, a importância de pesquisas robustas sobre concentração de renda e desigualdades.
O estudo apontou que os 10% mais ricos da população global atualmente respondem por 52% da renda global, enquanto a metade mais pobre da população ganha 8% dela.
Em 2020 a renda média daqueles indivíduos que estavam entre os 10% que melhor ganham no mundo é 38 vezes maior do que a renda média dos 50% mais pobres.
E o relatório ainda apontou que o mundo não evoluiu na distribuição, pelo contrário, a parcela da renda capturada pela metade mais pobre da população mundial é cerca de duas vezes menor hoje do que em 1820.
O Brasil figura há tempos entre as nações com pior distribuição de renda. O relatório indica que aqui, o 1% mais rico leva mais de um quarto (26,6%) da renda nacional (salários, juros, dividendos). Ou seja para cada 10 dólares gerados no Brasil, 4 fica com o 1% mais rico e os outros 6 dólares com 99% dos indivíduos.
Quando se trata de riqueza (patrimônio – ativos financeiros e não financeiros, como propriedades imobiliárias), a metade mais pobre no Brasil possui menos de 0,4% da riqueza do país. Na outra ponta, está o 1% mais rico com 48,9% da riqueza nacional.
Outra forma para medir a desigualdade de renda, é o índice de Gini, indicador importante e amplamente utilizado em comparações internacionais, permitindo ranqueamentos e estudos subnacionais.
Essa foi a metodologia empregada pelo Observatório das Metrópoles na análise dos dados de 2012 a 2021, o qual verificou que a desigualdade nas metrópoles brasileiras atinge o nível mais alto já registrado.
E que nesses territórios (onde vivem 40% dos brasileiros, ou mais de 80 milhões de pessoas), quase 30% das pessoas estão vivendo em domicílios com renda per capita do trabalho inferior a um quarto (¼) do salário mínimo.
Esse mesmo estudo também indicou que a Região Metropolitana de Porto Alegre teve o pior resultado entre as metrópoles do Sul do País. O coeficiente (que quanto mais próximo de zero menos desigual é) da Região subiu de 0,599, no quarto trimestre de 2019, para 0,618, no mesmo período de 2020 – alta de 3,1% – pior resultado desde 2012.
Por outro lado, conforme constou no World Inequality Lab, nos anos 2000, no Brasil, a desigualdade foi reduzida e milhões de indivíduos tirados da pobreza, em grande parte graças a programas governamentais, em especial a valorização do salário mínimo. Embora tenham inúmeros estudos que comprovem a eficácia desse mecanismo, os tiranos comumente desconfiam.
Vejam o caso curioso do salário mínimo regional no estado do Rio Grande do Sul, onde há anos os trabalhadores enfrentam uma classe patronal organizada defendendo que o piso regional provoca inflação, desemprego e que deve acabar.
Programada para a próxima semana, a matéria do piso regional deverá ir a votação no plenário da Assembleia Legislativa do estado. As Centrais Sindicais lutam para que o governo aprove um projeto que recupere a redução que esse salário mínimo teve, sem reposição da inflação desde 2019.
Nesse ano, um desses estudos que apresentam evidências robustas sobre os efeitos positivos de um aumento no salário-mínimo foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia.
No início da década de 1990, David Card da Universidade da Califórnia se uniu a Alan Krueger da Universidade de Princeton, em uma pesquisa inovadora sobre o tema. Os pesquisadores compararam cidades fronteiriças no estado de Nova Jersey, que aumentou o salário mínimo, e do estado vizinho da Pennsylvania.
Foram pesquisados 400 estabelecimentos, que costumam remunerar largamente trabalhadores com base no salário mínimo. O objetivo era verificar se o incremento do salário mínimo impactaria negativamente no nível de empregos, como previa a teoria ortodoxa.
O que Card e Krueger encontraram foi que “não há indicação” de que o aumento do salário mínimo reduza postos de trabalho ou aumente os preços ao consumidor.
Observaram ainda que nos Estados Unidos um aumento do salário mínimo elevou o salário médio e reduziu as disparidades salariais, produzindo uma compressão das diferenças na parte inferior da pirâmide de distribuição e uma redução na desigualdade salarial.
O salário mínimo introduz um ponto de vista moral na formação dos preços e está relacionado ao valor que determinada comunidade dá ao trabalho – é o mínimo!
Em termos simples, do ponto vista empresarial não há razão para contratar trabalhadores, mesmo que seus salários sejam menores, se não houver demanda pelos produtos.
E se a economia estiver crescendo, o emprego tenderá a aumentar mesmo com o aumento dos salários. Além disso, em um mercado de trabalho cada vez mais desestruturado, informal e desigual, a valorização de um piso resulta em elevação do nível salarial nos mercados de trabalho “secundários” (trabalhadores informais, trabalhadores independentes, etc.).
Assim, ao contrário do que muitos pensam, elevar o piso pode sim ter uma “eficiência” no mercado de trabalho e é sem dúvida uma ferramenta válida, junto com outras, para promover o emprego, a expansão da renda e a diminuição da desigualdade.