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“O conceito descreve uma realidade nova no mundo contemporâneo cujas caraterísticas foram esmiuçadas na perturbadora obra lançada recentemente no Brasil A Era do Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder, da professora estadunidense Shoshana Zuboff”
Foto: HBO/ Divulgação
Em 2010, se descobriu que o projeto conhecido como Street View – recurso do Google Maps e do Google Earth que permite a visão de ruas e endereços em quase todo o mundo – estava servindo também para a captura ilegal de dados das redes particulares de Wi-Fi. Investigação conduzida por especialistas independentes demonstrou que os carros do Google haviam subtraído dados de payload, nomes, telefones, registros de namoros online, informações médicas, fotos, e-mails, URLs, senhas e muitas outras informações pessoais. O escândalo ficou conhecido como “Spy-Fi do Google”. A empresa, após ter negado tudo, afirmou que havia ocorrido “um erro” e a culpa recaiu sobre um dos seus engenheiros. Aos poucos, os processos abertos na Europa e nos EUA foram sendo deixados de lado e o escândalo foi esquecido. Desde então, a captura de dados pessoais se transformou no centro do “Capitalismo de Vigilância”. O conceito descreve uma realidade nova no mundo contemporâneo cujas caraterísticas foram esmiuçadas na perturbadora obra lançada recentemente no Brasil A Era do Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder, da professora estadunidense Shoshana Zuboff (Intrínseca, 2020, 800 p.).
Os argumentos de Zuboff solicitam uma reflexão a respeito do futuro. Temos o direito ao futuro como um lugar onde depositamos sonhos, planos e expectativas? Ou esse tempo pode ser colonizado por objetivos comerciais ou políticos de forma que ele nos seja subtraído? O que é, afinal, a privacidade em um mundo onde tudo o que fazemos é sistematicamente incorporado em bancos de big data das grandes empresas da internet como Google, Amazon, Facebook (para citar apenas as três maiores)? O que restará de nossa autonomia diante do crescente processamento por algoritmos de nossos desejos, inclinações, hábitos de consumo, tendências políticas, indicadores de saúde, deslocamentos e muitas outras informações de cada indivíduo de maneira a produzir bilhões de complexos perfis que descrevem muito melhor cada pessoa do que ela mesma poderia conhecer sobre si própria e que permitem seus condicionamentos?
O mundo caminha para um futuro digital, mas a forma e o conteúdo desse futuro não são uma decorrência inevitável da tecnologia. Pelo contrário, dependem de escolhas humanas. Qualquer que seja esse futuro, ele só será legítimo se for possível defini-lo democraticamente. O que está ocorrendo, entretanto, é que, no exato momento em que adquirimos um telefone celular, em que ligamos a TV digital, em que acessamos o Google e navegamos na internet ou falamos com assistentes virtuais como a Alexa, estamos sendo saqueados imperceptivelmente, porque uma extraordinária gama de informações pessoais é capturada sem o nosso consentimento e utilizada na construção do mais poderoso e lucrativo mercado já produzido: o mercado dos comportamentos futuros. A chamada “Internet das coisas”, que poderia resultar em empoderamento dos indivíduos e melhor qualidade de vida, será pouco mais que um novo terreno para a pirataria e para o controle das pessoas se a sociedade civil e o poder público seguirem ignorando o tema.
Não se trata da “venda de informações pessoais”, mas da venda de previsões cada vez mais exatas a respeito de como as pessoas irão se comportar diante de produtos e ideias, com base no conhecimento acumulado sobre as características pessoais, o que envolve tendências inconscientes processadas pelos algoritmos. O superávit comportamental resultado da mineração de dados (data mining), eufemismo utilizado para evitar o verbo do tipo penal de furto, foi descoberto pelo Google que, assim, abriu a Caixa de Pandora. Alguém poderia argumentar que os usuários têm acesso aos termos de uso das plataformas e aplicativos e que são eles que autorizam a mineração. O argumento, entretanto, não se sustenta. Primeiro, é impossível ler todas as políticas de privacidade das empresas. Zuboff cita a pesquisa The Cost of Reading Privacy Policies, de McDonald & Cranor (2008), a qual encontrou que uma pessoa precisaria de 76 dias de trabalho para ler documentos do tipo que lhe são apresentados em um ano. Segundo, ainda que os clientes lessem e não dessem sua autorização para qualquer uso de seus dados, a mineração continuaria, porque as empresas instalam cookies que fazem o garimpo com ou sem autorização dos usuários. O botão de curtidas do Facebook, por exemplo, pode monitorar todos os usuários da internet, inclusive os que não possuem perfis ou páginas na plataforma.
O Capitalismo de Vigilância é também responsável pela maior assimetria de conhecimentos já produzida. De um lado, temos um punhado de milhares de cientistas de computação que têm acesso aos registros do mundo; na outra ponta, bilhões de pessoas cada vez mais reduzidas a consumidores de conteúdos digitais e crescentemente manipuladas em bolhas que uniformizam sentimentos, ações e expectativas.
Ao ler o trabalho de Shoshana, me lembrei de um livro de minha adolescência, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Escrito no início dos anos 1930, esse romance distópico é uma crítica às tendências opressivas que ele havia identificado no stalinismo e na própria produção fordista norte-americana. No futuro totalitário da obra, as pessoas adquirem sua identidade durante o sono, por uma hipnose auditiva chamada “hipnopedia”, o que assegura o controle absoluto sobre as pessoas. Talvez seja disso que estamos tratando: sono e hipnose.
Marcos Rolim, jornalista, doutor em Sociologia, escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.