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O adeus ao frade começa nesta terça-feira, 3, no Assentamento Conquista da Fronteira. Haverá uma missa em Candiota, às 19h. Na quarta-feira, 4, o corpo segue para o Convento São Boaventura, em Imigrante, onde será sepultado, às 16h, no cemitério dos freis
Foto: Marcos Corbari/BdF
O Rio Grande do Sul e os movimentos sociais brasileiros amanheceram mais silenciosos nesta terça-feira, 3 de fevereiro. O frade franciscano Sérgio Antônio Görgen faleceu faleceu aos 70 anos, em sua residência, no Assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra.
Vítima de um infarto, o “Frei dos pequenos”, como era carinhosamente conhecido, parte deixando uma trajetória onde a fé e a política nunca foram compartimentos separados, mas sim ferramentas de uma mesma construção: a justiça social.
À exemplo do próprio fundador de sua ordem, São Francisco de Assis e do primeiro santo brasileiro, São Frei Galvão, Sérgio não era sacerdote, mas um irmão consagrado.
Frequentemente rotulado como “padre vermelho” ou “padre comunista” por setores conservadores, Frei Sérgio recebia os adjetivos com a serenidade de quem encontrou o Cristo nos olhos dos sem-terra, dos atingidos por barragens e dos pequenos agricultores.
“Embora vivendo a vocação de simples frade, consagrado e não ordenado, pelo fato de estar há muitos anos com ‘sem-terra’, camponeses, pequenos agricultores, indígenas, quilombolas, pescadores, defendendo suas causas e lutando por distribuição de terras e rendas, estou no rol dos ditos cujos e, inclusive, me promovem a ‘padre’”, registrou em artigo uma vez.
Natural de Não-Me-Toque, ele completou 50 anos de vida religiosa em 1º de fevereiro do ano passado. Sua filosofia era clara: a religião não se encerrava nos ritos, mas começava justamente no momento em que o fiel cruzava a porta da igreja em direção ao mundo.
A história de Frei Sérgio confunde-se com a própria história da luta agrária no Brasil. Sobrevivente do brutal Massacre da Fazenda Santa Elmira, em 1989, ele transformou a tragédia em memória ativa. Foi peça-chave na fundação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em 1996, nascido sob o sol escaldante de Sarandi durante uma das maiores estiagens da história gaúcha.
Entre 1999 e 2002, ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Contudo, fiel ao princípio da renovação, renunciou à reeleição para retornar ao trabalho de base, provando que o poder, para ele, era apenas um instrumento transitório de serviço.
Frei Sérgio levou o compromisso com o povo ao limite físico. Foram cinco greves de fome ao longo da vida: por terra e créditos agrícolas nos anos 1990, contra a Reforma da Previdência em 2017 e pela democracia em 2018.
“Ele foi um pastor que escolheu o ‘cheiro das ovelhas’ e o barro das trincheiras”, destacou a nota oficial do MPA, sintetizando o vazio deixado por sua partida.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem Sérgio foi amigo próximo e conselheiro espiritual durante os dias de prisão em Curitiba, lamentou a perda, recordando a coerência inabalável do religioso.
Além da enxada e da cruz, Frei Sérgio empunhou a caneta. Autor de obras referenciais como Trincheiras da Resistência Camponesa e Uma Foice Longe da Terra, ele estava atualmente dedicado a um projeto pessoal: o livro Simplesmente Jesus, no qual pretendia humanizar a figura de Cristo sob a ótica da Teologia da Libertação.
Sua visão estratégica também foi fundamental para a democratização da comunicação. Foi um dos idealizadores da Rede Soberania e do Brasil de Fato RS, entendendo que a classe trabalhadora precisava de voz própria para enfrentar as narrativas hegemônicas.
O adeus ao frade começa nesta terça-feira, 3, no Assentamento Conquista da Fronteira. Haverá uma missa em Candiota, às 19h. Na quarta-feira, 4, o corpo segue para o Convento São Boaventura, em Imigrante, onde será sepultado, às 16h, no cemitério dos freis.
Frei Sérgio Görgen parte, mas, como ele mesmo gostava de dizer, “esperançar” segue sendo o verbo a ser conjugado. Sua semente agora repousa no solo que ele tanto defendeu, multiplicando-se em cada hectare de terra conquistada e em cada pequena propriedade que produz o pão com dignidade.