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Detalhe da exposição Lanceiros Negros, no Memorial do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS)
Foto: TCE-RS/Divulgação
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, centenas de soldados negros, desarmados, foram surpreendidos e mortos por tropas imperiais em um dos derradeiros combates da Revolução Farroupilha. Entre as baixas estavam os últimos Lanceiros Negros, corpo de combatentes que se destacava pela bravura e destreza no uso de lanças como armas.
Mais de 180 anos depois, o Cerro dos Porongos, local da batalha, tornou-se um símbolo da luta antirracista e o episódio foi incorporado na cultura popular. No entanto, o reconhecimento institucional do local como guardião de importante capítulo da memória riograndense — que seria concretizado com a construção de um Memorial aos Lanceiros Negros e o tombamento do Cerro dos Porongos — se arrasta há mais de duas décadas.
Foi no início dos anos 2000 que o movimento negro gaúcho liderou uma mobilização pelo reconhecimento dos Lanceiros Negros como heróis da guerra, pleiteando a construção de um memorial no local do campo de batalha. A iniciativa ganhou a adesão do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e do poder público em 2003, e acabou formalizada em 2005, em um concurso nacional de arquitetura. O projeto, no entanto, nunca foi executado.
Da mesma época, a proposta de tornar Porongos o sétimo local da Revolução Farroupilha tombado como patrimônio histórico nacional ainda está em estudo. O trâmite no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) permanece em “fase de instrução” desde 2008.
A inação institucional contrasta com a crescente mobilização social e cultural que tem consolidado os Lanceiros Negros no imaginário coletivo e já reconta essa história por outros caminhos. “A história dos Lanceiros Negros é uma ferida ainda aberta na memória do Rio Grande do Sul. Esta exposição busca reinscrever sua dignidade no imaginário coletivo, transformando lanças em símbolos de memória e justiça”, observa pesquisadora e artista Izis Abreu. Abreu assina a curadoria de uma mostra no Tribunal de Contas do Estado sobre o episódio, que reúne documentos históricos, como o decreto de criação do Corpo de Lanceiros e cartas trocadas entre líderes militares da época, além de criações artísticas contemporâneas.

Memorial do TCE sedia mostra sobre os lanceiros negros
Foto: TCE-RS/Divulgação
Distante cerca de 30 quilômetros do centro da cidade de Pinheiro Machado, o Cerro de Porongos é o local onde estavam acampados os soldados comandados pelo general David Canabarro, na noite em que ocorreu o Massacre de Porongos — também conhecido como “Surpresa”, “Batalha”, ou ainda “Traição de Porongos”, conforme consta no inventário do episódio, elaborado pelo Iphan.
O evento ocorreu três meses antes do fim da guerra, em um momento em que a energia dos comandantes estava concentrada na negociação dos termos do acordo de paz e já não havia mais batalhas.
Os lanceiros lutavam sob a promessa de serem libertos da escravidão, caso a República Farroupilha triunfasse — um obstáculo ao fim da guerra, já que o império era escravocrata.
Na noite do ataque das tropas imperiais, os soldados de Canabarro foram desarmados por seu comandante, que alegou haver uma ameaça de revolta no acampamento para recolher a munição de todos. Foi um massacre pela desproporção de forças, já que o exército de Dom Pedro II mandou mil homens para o ataque. A maioria dos mortos do lado dos farrapos era de soldados negros — os poucos que escaparam foram dizimados dias depois, na última escaramuça da guerra.

Em 2006 foi aberto um processo de tombamento do Sítio dos Porongos junto ao Iphan, a partir de uma mobilização do movimento negro gaúcho
Foto: Prefeitura de Pinheiro Machado/Diovulgação
Para proteger o Cerro de Porongos e garantir que sua história não seja esquecida, foi aberto em 2006 um processo de tombamento, a partir de uma mobilização do movimento negro gaúcho. Quem deu sinal verde à iniciativa no âmbito do poder público foi o então ministro da Cultura, Gilberto Gil.
Como parte do processo, o Iphan concluiu o inventário do massacre em 2008, que recomendou a continuidade das tratativas para o tombamento. Iniciou-se então a fase de coleta de dados, estudos e análises técnicas — a chamada fase de instrução, passo que se arrasta por 17 anos, passando por diferentes governos.
Foto: Iphan/Divulgação“O processo se encontra em fase de instrução a fim de estabelecer uma exata delimitação da área a ser tombada, bem como sua área de entorno, as diretrizes de preservação do sítio histórico, e que atividades ou intervenções podem ser realizadas”, justificou, por e-mail, o atual superintendente do Iphan no Rio Grande do Sul, Rafael Pavan Passos.
Pavan afirma que as barreiras são técnicas e não políticas. “Não há impasses que impeçam a efetivação do tombamento”, assegura. “Porém, havia uma preocupação com a gestão do local após o seu tombamento, o que é sempre muito importante de ser analisado já no ato do tombamento a fim de evitar ou mitigar possíveis conflitos posteriores”, completa.
Para avançar, o processo exige uma nova análise técnica e visitas de campo, segundo o Iphan. No entanto, o superintendente foi claro sobre o calendário: não há previsão de atos que alterem o estágio do processo no curto prazo.

Sandra Machado Farias da Silva, secretária municipal de Turismo de Pinheiro Machado
Foto: Acervo Pessoal
A demora e a indefinição do Iphan sobre o tombamento não é apenas um problema burocrático em Brasília, mas afeta diretamente a vida e o planejamento do município de Pinheiro Machado, guardião do sítio histórico.
“A cada ano vêm mais pessoas conhecer Porongos. A gente cuida, limpa e recebe os visitantes. Mas o local é aberto, sem estrada adequada, sem banheiro, sem abrigo. As pessoas chegam e não têm onde ficar”, relata a secretária municipal de Turismo, Sandra Machado Farias da Silva.
É que, sem saber exatamente quais são os limites da área a ser protegida e o que pode ou não ser construído ou modificado, a prefeitura fica de mãos atadas para investir em infraestrutura e receber os visitantes que chegam ao local.
Apesar desses entraves, a área vem recebendo um número crescente de visitantes, sobretudo após o reconhecimento dos Lanceiros como Heróis e Heroínas da Pátria em janeiro de 2024.
Paralelamente ao tombamento, a segunda grande iniciativa paralisada é a construção de um memorial, um espaço físico para contar a história dos Lanceiros Negros e servir como centro de memória e educação.
O projeto para essa construção foi escolhido em um concurso nacional de arquitetura, promovido em 2005 pela Fundação Cultural Palmares e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). O projeto vencedor era assinado pelo arquiteto paulista Euclides Oliveira, mas, assim como o tombamento, nunca saiu do papel. Euclides faleceu em 2010 sem ver sua obra materializada.
Segundo a secretária Sandra Machado Farias da Silva, o valor para a obra chegou a ser liberado pela Fundação Palmares na época, mas foi devolvido sem execução, por problemas burocráticos. “É uma história cheia de lacunas, que estamos tentando recompor”, observa.
Atualmente, a prefeitura articula com o senador Paulo Paim e outros parlamentares a viabilização do projeto por meio de emendas. “O problema não é a falta de recursos. É a incerteza sobre o que é permitido fazer, já que o tombamento federal ainda está aberto”, assinala.
O impasse do Iphan, portanto, paralisa também a iniciativa do memorial.
Mas para a secretária Silva, o problema mesmo é que não há pressão contínua por parte das comunidades e lideranças, e com isso, o poder público não se compromete como deveria com o reconhecimento da memória dos Lanceiros Negros. “Há dinheiro no Estado e no município. O problema é a falta de consenso. A cada gestão que muda, o assunto se perde. O movimento negro também se dividiu, e a pauta acabou enfraquecendo. É uma batalha muito grande e quem perde é a história”, lamenta.
Para mudar essa realidade, a prefeitura está se articulando e busca reaproximar lideranças históricas do movimento, na tentativa de retomar a força da pauta.

A mostra no Memorial do TCE sobre os lanceiros Negros reúne documentos históricos, como o decreto de criação do Corpo de Lanceiros e cartas trocadas entre líderes militares da época, além de criações artísticas contemporâneas.
Foto: TCE-RS/Divulgação
Enquanto as instituições demoram a agir, a história dos Lanceiros Negros e a importância do Cerro de Porongos estão sendo mantidas vivas pela cultura popular. Artistas, músicos, cineastas e até escolas de samba têm abraçado a causa, garantindo que a memória do local seja preservada e celebrada, mesmo sem o selo oficial de tombamento.
Entre as iniciativas recentes estão o Festival Porongos — evento anual que desde 2018 fomenta a cultura na capital —, o longa-metragem Porongos, dirigido por Diego Müller e ainda inédito, a composição Manifesto Porongos do rapper Rafuagi, o enredo da escola de samba Realeza, em 2024, esquetes e exposições em museus estaduais e ações em CTGs. Até rótulos comerciais incorporaram o nome Lanceiros Negros em suas marcas, mostrando a força simbólica que o episódio adquiriu.
A exposição em cartaz no Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul é outro exemplo: reúne réplicas de documentos raros, obras de arte contemporânea, fotografias, vídeos, vestuário e elementos da cultura afro-gaúcha e pode ser visitada até o dia 15 de dezembro, com entrada franca.
Em Porto Alegre, a memória dos Lanceiros também ganhou um espaço físico: em 2004 uma pequena área do Parque da Redenção foi denominada Espaço Lanceiros Negros, por proposta dos vereadores Raul Carrion (PCdoB) e Humberto Goulart (PDT).
“Mesmo sem o reconhecimento formal, Porongos já é um patrimônio simbólico do Rio Grande do Sul preservado pela arte, pela mobilização social e pela memória coletiva”, resume Sandra.