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Equipe de produção do curta “Lanceiros Negros – Apagados da História”
Foto: Acervo Pessoal/Juacema Costa
Enquanto iniciativas oficiais de homenagear a memória dos Lanceiros Negros estão paradas, um filme de curta-metragem produzido por estudantes da rede pública de ensino tem sido um dos principais vetores de resgate do Massacre de Porongos.
Realizado com poucos recursos e protagonizado pelos próprios alunos do 8º ano e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da cidade de Candiota, vizinha de Pinheiro Machado, onde está o Cerro de Porongos, palco do massacre, o filme Lanceiros Negros – Apagados da História está reacendendo o interesse histórico pelo assunto.
O documentário mobilizou a comunidade, emocionou quem nunca havia escutado aquela história e conquistou reconhecimento em festivais regionais com premiações de melhor elenco e júri popular.

Kálitta: Rememorar esta história ajuda a promover uma sociedade mais justa
Foto: Arquivo Pessoal
“Rememorar esse episódio ajuda a promover uma sociedade mais justa e igualitária, além de reconhecer nossa herança cultural e trazer visibilidade aos nossos verdadeiros heróis farroupilhas”, defende a estudante Kálitta Eliza Gonçalves Oliveira, uma das realizadoras do curta. “Contar a história deles é importante para que, no futuro, possamos fazer melhor e tenhamos uma realidade e sociedade diferente para os que estão por vir.”
A ideia partiu da professora de história, Juacema Costa. Ao levar o tema dos Lanceiros Negros para a sala de aula, em Candiota, ela se assustou com o desconhecimento de seus alunos sobre este episódio da história gaúcha. “Nenhum aluno conhecia. Nenhum”, enfatiza.
A professora foi, então, buscar materiais para embasar um projeto de feira de ciências e percebeu que o apagamento da memória sobre o massacre é sistêmico. “Pesquisei 17 livros didáticos. Só dois citavam a participação dos Lanceiros e era um parágrafo minúsculo.”
A lacuna curricular contraria a própria Lei 10.639/03, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira, mas que nem sempre se traduz em prática pedagógica.
“É uma história que precisa ser contada e recontada, principalmente nas escolas. Me surpreendi que a população não conhece o Cerro de Porongos e a história dos Lanceiros Negros. Eles são nossos heróis, e nós temos que contar para as crianças quem são nossos heróis”, defende Cleiton Nunes, militante do movimento negro, que esteve em Pinheiro Machado para as celebrações dos 181 anos do episódio, no dia 15 de novembro.

Cleiton Nunes: me diziam que não tinha nada aqui
Foto: Thayse Uchôa
Aflita com a falta de referências sobre o episódio, a professora Juacema Costa propôs então aos alunos que produzissem eles mesmos materiais abordando o Massacre de Porongos. A proposta era apresentar o resultado na feira de ciências do colégio.
“Quando a proposta surgiu, foi um tanto quanto confuso para nós”, admite Kálitta Eliza Gonçalves Oliveira. “Sempre vimos a feira de ciências como um lugar para apresentar trabalhos que envolviam tecnologia, ciência ou ciências da natureza”, explica.
O filme foi produzido a partir da oralidade, método historicamente central para registros e transmissões culturais afro-brasileiras. Assim como vários outros estudantes, a estudante Kálitta Eliza Gonçalves Oliveira admite nunca ter ouvido falar sobre os lanceiros e nem sobre o Cerro. “Mas logo nos aprofundamos na história e a ideia do nosso primeiro curta-metragem surgiu”, relata.
Também professora da rede municipal, neste caso de Pinheiro Machado, Tainara Rodrigues optou por introduzir a história dos Lanceiros Negros a seus alunos da pré-escola no mês da consciência negra. No dia do festival Ecos de Porongos, as crianças da Escola Pinheirinho levaram ao evento cartazes e lanças confeccionadas por elas, e se apresentaram usando o lenço vermelho utilizado pelos lanceiros.

Professora Tainara Rodrigues: Lanceiros Negros na educação infantil
Foto: Thayse Uchôa
“É super importante poder trazer os alunos aqui, no local. Serve também para conhecer e respeitar a história e as pessoas do local onde vivem desde pequenos”, celebrou a educadora.
Para algumas pessoas que visitaram Cerro dos Porongos em 15 de novembro, aquela foi a primeira oportunidade de contato com a história.
“É a primeira vez que venho. Tinha muita curiosidade em visitar, mas me diziam que não tinha nada ‘aqui, que era só um sítio’, revela Cleiton Nunes, representante do movimento negro Raízes. “Me surpreendi com a energia. Estive no local onde tem a sepultura dos lanceiros e senti uma sensação muito forte”, completa.
Entre moradores mais antigos da cidade, o desconhecimento sobre o episódio foi preenchido por relatos de outra natureza: muitos associavam o Cerro a uma área mal-assombrada, cercada de histórias de fantasmas que circulavam pela região.
“Eu nunca ouvi a história real do Cerro de Porongos. Eu só sabia que era um lugar onde não se deveria ir, que era um local mal-assombrado”, admite Adão Valério, morador de Pinheiro Machado, município que abriga o sítio histórico.
Também moradora do município, Rosa Claudete cresceu escutando uma lenda sobre o local, ao invés da história.

Adão Valério: só sabia que era um lugar mal-assombrado
Foto: Thayse Uchôa
“Os tropeiros que circulavam na região diziam que aquele não era um bom lugar para se acampar. Mesmo sendo um local com sombra e água fresca disponível, todos evitavam parar na região de Porongos”, observa.
Na ausência de informação oficial, o mito ocupou o espaço da memória. “Só depois de adulta fui entender o porquê dessa lenda e conhecer a história dos Lanceiros Negros”, completa.
Para piorar, a falta de infraestrutura permanente no local, uma das consequências do atraso na conclusão dos projetos de reconhecimento oficial da memória, dificulta o resgate da verdade sobre o episódio e alimenta narrativas fantásticas.
“São 19 km de estrada de chão. Quando chove, só trator consegue passar por lá”, lamenta Luiz Mendes, ativista negro que participa desde o início da proposta de resgate memorialístico. “Nossa proposta é fazer um calçamento, o que seria bom para a comunidade, inclusive para uma escola que tem ali perto, além de ser essencial para viabilizar turismo, visitas guiadas, ações educativas”, complementa.
Além do memorial aos Lanceiros Negros e do tombamento de Porongos como patrimônio nacional — iniciativas lançadas há 20 anos, que permanecem sem conclusão —, projetos de lei que poderiam fortalecer a memória dos heróis negros também não prosperam.
A proposta que denomina a ERS-608, que liga Pedras Altas a Pinheiro Machado, como Rodovia Lanceiros Negros é um deles, assim como o projeto que instituiria o dia 14 de novembro como Dia dos Lanceiros Negros no Rio Grande do Sul. Hoje, apenas as cidades de Canoas e Caçapava do Sul reconheceram oficialmente a data.
Para a professora Juacema Costa, o impacto simbólico dessas medidas é decisivo: “Se tiver uma data oficial, assim como o Dia da Água ou o Dia da Árvore, as escolas são obrigadas a trabalhar o assunto. A informação circula.”
A disputa, observa ela, não é por um feriado — durante anos, tentativas de aprovar leis que decretavam o 20 de novembro como feriado da Consciência Negra naufragaram em Porto Alegre. O que a população local deseja é um compromisso público com a memória, algo capaz de romper ciclos de invisibilização e de garantir que novas gerações conheçam o passado que molda suas identidades e desigualdades. “A gente não quer feriado. A gente quer que no dia 14 de novembro alguém conte essa história”, conclui.