Mobilização popular elege candidato socialista na Bolívia

Contagem de votos preliminar aponta vitória do candidato do MAS, partido de Evo Morales, com 52% dos votos, contra 31,5% de Carlos Mesa e 14,1% de Luis Fernando Camacho
O indígena David Choquehuanca, candidato a vice, e Arce, à presidência da Bolívia, comemoraram o resultado da eleição antes da apuração dos votos

O indígena David Choquehuanca, candidato a vice, e Arce, à presidência da Bolívia, comemoraram o resultado da eleição antes da apuração dos votos

Foto: Luis Arce/Twitter/Reprodução

Projeções da contagem de votos da eleição presidencial encerrada domingo na Bolívia apontam uma vantagem superior a 40% dos votos para o candidato Luis Arce, do Movimiento al Socialismo (MAS), ex-ministro de Evo Morales que foi reeleito em 2019, mas renunciou ao cargo por pressão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e se exilou no México. “Agradeço aos observadores que tiveram a gentileza de vir a nossa casa e ouvir nossas preocupações sobre o andamento do sistema eleitoral”, disse Arce ao comemorar antecipadamente a vitória. “Os resultados mostram que o povo é sábio e vamos atender com todas as expectativas”.

Uma pesquisa de boca de urna feita pelo instituto Ciesmori e divulgada pela Unitel mostrou Arce com 52,4% dos votos. O adversário dele, o ex-presidente Carlos Mesa, candidato de centro pela coligação Comunidad Ciudadana (CC), aparecia com 31,5% na pesquisa. Popularizado como uma espécie de “bolsonaro boliviano”, o candidato de extrema-direita, Luis Fernando Camacho, um dos organizadores do golpe pós-eleição de 2019 que impediu Morales de assumir, é o terceiro colocado, com 14,1% dos votos. Pelas regras eleitorais do país, o candidato que tiver 50% dos votos mais um ou atingir o patamar 40%, com dez pontos percentuais a mais que o segundo colocado, pode vencer a eleição no primeiro turno.

Capa desta terça-feira, 20, do jornal argentino Pagina 12 destaca levante indígena que devolve o país a um governo popular após o golpe de 2019

Capa desta terça-feira, 20, do jornal argentino Pagina 12 destaca levante indígena que devolve o país a um governo popular após o golpe de 2019

Foto: Reprodução

Apesar da lenta contagem oficial dos votos, a vitória do candidato socialista já é dada como certa até por empresas privadas ligadas aos seus adversários e que especulam com pesquisas de boca de urna desde domingo. Um desses escrutínios foi endossado tanto pela presidente interina do país, a senadora ultra-direitista Jeanine Áñez, quanto pelo segundo colocado e aliado dela, Carlos Mesa. “Ainda não temos a apuração oficial, mas pelas nossas contas o senhor Arce e o senhor Choquehuanca (David, indígena, candidato a vice da frente socialista) ganharam a eleição. Felicito os ganhadores e peço que governem pensando na Bolívia e na democracia”, reconheceu Jeanine Añez em uma mensagem no Twitter.

A súbita defesa dos princípios democráticos que a senadora expressou nas redes sociais, em nada lembra o discurso dela em 12 de novembro de 2019, quando se autoproclamou presidente interina da Bolívia após a renúncia de Morales e exibiu orgulhosa duas bíblias ao tomar o cargo. “Deus permitiu que a Bíblia voltasse a entrar no Palácio. Que Ele nos abençoe”, discursou à época.

Ao longo do último ano, a Bolívia viveu uma das maiores revoltas populares da história dos países de colonização hispânica em virtude da virada de mesa da direita que não aceitou o resultado do pleito de 2019. Para o professor de direito constitucional da PUCSP, Pedro Serrano, o levante popular indígena na Bolívia deixa uma lição para os demais países da América Latina.

Assim, o MAS deve recuperar o poder com o apoio das populações indígenas e os “votos ocultos” de uma parte da classe média que se arrependeu por ter apoiado o golpe. A resposta nas urnas foi massiva: 87% dos mais de 7 milhões de eleitores bolivianos participaram. Após o pleito, o presidente do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), Salvador Romero, afirmou que a participação foi superior à média boliviana de 80% e destacou a lisura do pleito. “A eleição foi limpa e transparente, e teve uma participação muito elevada, de 87%, apesar da pandemia”, disse em uma coletiva. “É uma das porcentagens mais altas da história democrática nacional”, frisou. A posse do novo Executivo e Legislativo deve ocorrer na primeira quinzena de novembro.

Ainda no domingo, o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, republicou a mensagem da senadora em sua conta pessoal no Twitter. A organização exerceu um papel determinante na queda do MAS e do presidente Morales ao questionar a transparência da eleição e incendiar o país com a ajuda de milicianos, policiais e militares. O candidato de direita também reconheceu a vitória de Arce. “O resultado é muito contundente, a diferença entre o primeiro e nós é ampla. Cabe a nós, como corresponde a quem acredita na democracia, reconhecer que houve um vencedor nesta eleição. É um resultado que não acreditamos que vá modificar-se”, afirmou Carlos Mesa.

Serrano: uma lição para os progressistas brasileiros

Serrano, da PUCSP: “É um resultado que confirma a necessidade de regimes democráticos na América Latina e um desestímulo a golpes como o que foi feito contra o Evo”

Serrano, da PUCSP: “É um resultado que confirma a necessidade de regimes democráticos na América Latina e um desestímulo a golpes como o que foi feito contra o Evo”

Foto: Reprodução

Para o advogado Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da PUC-SP, pela qual é mestre e doutor em Direito do Estado, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa, a virtual eleição do candidato socialista representa a pacificação do país. “Espero que seja uma pacificação na Bolívia. Teve uma situação muito tumultuada, a meu ver uma atitude golpista contra o governo do Evo Morales, e com uma participação, para falar com gentileza, no mínimo constrangedora da OEA, que tem por obrigação de um dos seus principais tratados garantir a democracia no continente acaba auxiliando na produção de um golpe de estado contra a democracia. Isso levou a uma divisão grande na sociedade boliviana. Mas agora creio que com a eleição do Arce, que se deu de forma inquestionavelmente legítima – e também não é um novo mandato do Evo, o que gerou um questionamento quanto à legitimidade da sua reeleição – creio que é um elemento de pacificação na sociedade. Caso essa pacificação se concretize é um excelente vitória para a democracia no continente”, avalia.

Para Serrano, a vitória de Arce é uma vitória da democracia no continente. “É um resultado que confirma a necessidade de regimes democráticos na América Latina e um desestímulo a golpes como o que foi feito contra o Evo”. Ele destaca ainda a mobilização popular que se seguiu à virada de mesa nas eleições bolivianas de 2019. “Outra lição importante, que aqui entre nós serve para os progressistas brasileiros é de que o que garante a democracia é o povo ativo e organizado. Isso, os progressistas brasileiros quando foram governo acho que esqueceram desse fato e se deixaram ir muito pela política institucional e abandonaram as formas mais originais de organização popular. O que houve na Bolívia é um exemplo claro: o que mantém a democracia é a organização do povo”.

Brasil paga caro pela desmobilização popular, diz Streck

"Estamos pagando um preço alto pelos erros que foram cometidos", diz Streck, da Unisinos,

“Estamos pagando um preço alto pelos erros que foram cometidos”, diz Streck, da Unisinos,

Foto: Reprodução

O jurista e professor de Direito Constitucional, Lênio Streck, da Unisinos, também sublinha a organização popular que levou à eleição de Arce. “A população da Bolívia deu a resposta ao golpe que foi dado no presidente Evo. Quem pagou mico foi a OEA e os países que reconheceram o governo golpista. Bem feito. Agora foi restabelecida a vontade popular”. No entanto, ele não acredita que a volta ao poder de um projeto popular naquele país possa refletir nas eleições brasileiras. “Aqui tudo é diferente. Se o apocalipse acontecer, quero estar no Brasil. Aqui ele só vai chegar anos depois. Estamos pagando um preço alto pelos erros que foram cometidos. Exemplos: os movimentos sociais foram desmobilizados; a UNE? Onde ficou? A conta vem com juros de cartão de crédito”, ironiza. Streck, um dos organizadores da coletânea O livro das suspeições – O que fazer quando sabemos que sabemos que Moro era parcial e suspeito?, lançado em setembro vê com ceticismo a ascensão de um governo de esquerda no Brasil. “Se for reconhecida a suspeição do Moro, talvez”.

Comentários