Dois meses de tarifaço: Brasil resiste e EUA enfrentam alta de preços e serviços paralisados

Economia brasileira mostra resiliência com crescimento de reservas e redirecionamento de exportações para novos mercados. “Castigo” de Trump tem efeito bumerangue
Dois meses de tarifaço_Brasil resiste e EUA enfrentam alta de preços e serviços paralisados

Em Belém para uma série de entregas e visitas a obras de infraestrutura conectadas à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com Trump por teleconferência

Foto: Ricardo Stuckert / PR

Dois meses após a imposição política de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelo governo Donald Trump, a economia nacional absorve o choque melhor do que o esperado. O Brasil demonstra força ao registrar o acúmulo de US$ 30 bilhões em reservas cambiais e buscar novos mercados. Já os Estados Unidos estão às voltas com alta de preços de commodities e paralisação de serviços federais, o shutdown.

A crise político-comercial que iniciou com a exigência de que o Brasil arquivasse o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, entra nesta segunda-feira, 6, em nova fase. No dia em que se completaram dois meses do que seria um “castigo ideológico” ao país, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tiveram nesta segunda-feira, 6, um telefonema de 30 minutos que sinalizou aproximação e a abertura de um canal direto de negociação.

Levantamento da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil) indica que 44,6% das exportações brasileiras foram atingidas pela tarifa máxima. Apesar disso, a capacidade de adaptação do país sob a liderança do petista tem sido a chave para a resiliência.

Reação rápida de uns, sangria de outros

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Balanço da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) registrou queda de US$ 300 milhões na exportação de alimentos industrializados em agosto, equivalente a redução de 4,8% em com comparação a julho

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O setor de commodities reage rapidamente. Os produtos mais atingidos, como café, carne e açúcar, têm facilidade para redirecionar as vendas. No café, se as exportações para os Estados Unidos despencaram 56% em setembro, a Europa se consolidou como destino alternativo. O governo Lula também abriu uma frente promissora com quase 200 importadores chineses.

Há especialistas que já dizem que uma retomada de venda de café aos Estados Unidos pode acontecer em uma situação mais favorável ao Brasil com os novos mercados explorados.

Na realidade, o ataque de Trump causou um efeito bumerangue no mercado americano. O preço do café saltou de 284 para 380 centavos de dólar por libra-peso.

Em contraste, o setor manufatureiro sangra com as restrições. A indústria da madeira já demitiu cerca de 4 mil trabalhadores. A Randa, empresa paranaense liderada por Guilherme Ranssolin, viu o faturamento cair 30% e dispensou 200 funcionários. “Os estoques estão lotados. Estamos sangrando o caixa”, lamenta Ranssolin.

Balanço da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) registrou queda de US$ 300 milhões nas exportações de alimentos industrializados em agosto, equivalente a redução de 4,8% em com comparação a julho.

Segundo o levantamento, as exportações somaram US$ 5,9 bilhões em agosto. Deste volume, US$ 332,7 milhões para os Estados Unidos, o que representa uma queda de 27,7% em relação a julho e de 19,9% na comparação com agosto de 2024.

A visão dos economistas

A economista Nathalie Beghin, conhecida por sua linha desenvolvimentista e social, elogia a resposta do governo Lula. Doutora em Políticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Coordenadora da Assessoria Política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Nathalie crê que o tempo de impacto ainda é incerto. “Creio que ainda não deu muito tempo para dimensionar os efeitos do tarifaço, sempre tem um delay”, afirma.

Ela ressalta, no entanto, o que considera um acerto do governo federal. “A resposta do governo foi excelente: não somente não cederam como implementaram medidas de mitigação. E agora parece que o diálogo se abriu para retomar negociações de alto nível”.

Com viés marcadamente liberal e com forte atuação no mercado financeiro, comumente associado à Faria Lima, o economista Ricardo Amorim, adota um tom otimista.

Desde o início ele tem dito que a crise não comprometerá o crescimento brasileiro. Cita a força do empresariado, o consumo interno aquecido e reforça que o país deve buscar novos mercados. “Desde 2015, a China já compra mais soja brasileira que os Estados Unidos”, faz questão de lembrar.

Rumo à Mesa de Negociações

A avaliação de Nathalie sobre a abertura do diálogo está diretamente ligada à Nota Oficial emitida pelo governo federal após a conversa de Lula e Trump.

O presidente brasileiro solicitou ao norte-americano a retirada das sobretaxas e medidas restritivas impostas a autoridades nacionais. Em resposta, Trump designou o secretário de Estado Marco Rubio para dar seguimento às negociações com a equipe brasileira que é composta pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Fernando Haddad (Fazenda).

Os dois presidentes trocaram telefones pessoais para uma comunicação direta e concordaram em se encontrar presencialmente em breve. Lula sugeriu a Cúpula da Asean, na Malásia, e reiterou o convite a Trump para a COP30, em Belém.

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