Por que o Pix virou alvo dos EUA e do tarifaço de Trump

Sistema de pagamento brasileiro é apontado por Washington como ameaça aos interesses econômicos dos cartões de crédito norte-americanos

Por que o Pix virou alvo dos EUA, do tarifaço de Trump e da ira dos cartões de crédito

Foto: © Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O economista norte-americano Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, publicou no dia 22 de julho um artigo elogiando o Pix. Com o título “O Brasil inventou o futuro do dinheiro?”, no mesmo texto, Krugman critica o Partido Republicano dos Estados Unidos por impedir a criação de moedas digitais por bancos centrais.

Segundo ele, os colegas de partido de Donald Trump temem perder espaço para moedas públicas e seguras. Ele também alertou que a nova legislação aprovada nos EUA, chamada Genius Act — que regula as stablecoins (criptomoedas atreladas ao dólar) — pode abrir brechas para fraudes e novas crises financeiras. Mas por que o presidente dos EUA ataca o PIX brasileiro?

O projeto começou a ganhar forma em 2016, quando uma equipe de técnicos do Banco Central (BC) publicou um relatório com detalhes do projeto, mostrando a eficiência dos sistemas de pagamentos instantâneos. Em 2018, o BC iniciou o processo de criação da plataforma. Entrou em operação em 16 novembro de 2020 e passou a ser monitorado pelos Estados Unidos a partir de 2022.

Um documento do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) revelou que o governo norte-americano está “preocupado” com os impactos da popularização do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

Neste ano, os ataques ao Pix se intensificaram. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vinculou a taxação de 50% sobre as exportações brasileiras à suposta “prática comercial desleal” por parte do Brasil — uma referência indireta ao Pix. A justificativa oficial para o tarifaço, anunciado em julho, foi evitar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe. Os ataques ao sistema de pagamentos e à soberania brasileira têm o apoio do deputado Eduardo Bolsonaro, que está nos EUA, e de parlamentares da extrema direita.

A adesão maciça ao Pix reduziu drasticamente os custos de transação para consumidores e microempreendedores no Brasil. Pessoas físicas e MEIs não pagam tarifas. Empresas pagam, em média, 0,33% por operação — bem menos que os cartões de débito (entre 1,23% e 2%) e crédito (de 3% a 5%). Em alguns casos, a cobrança é isenta.

Com isso, o Pix passou a substituir cartões nas transações do dia a dia, afetando diretamente os lucros de grandes instituições financeiras norte-americanas. O sistema também começa a ganhar aceitação fora do país, como em estabelecimentos na América Latina e na França, o que ameaça o domínio do dólar no comércio internacional.

A economista do Dieese, Vivian Machado, explica que o Pix tem provocado queda no uso de cartões no Brasil. Segundo pesquisa da Febraban, as transações com cartão de crédito representavam 22% do total em 2020, e hoje estão em 14%. O débito caiu de 25% para 11% no mesmo período.

“O ataque de Trump é por conta disso, exatamente porque embora o volume de transações via cartões tenha aumentado, percentualmente diminuiu e o Pix aumentou muito mais”, afirma Vivian.

Pix lidera volume financeiro

O Pix se consolidou como o meio de pagamento mais utilizado no país. Segundo o Banco Central, 76,4% da população usa a ferramenta. O cartão de débito é utilizado por 69,1%, e o dinheiro em espécie, por 68,9%.

Em 2024, o Pix movimentou R$ 26,4 trilhões em 63,5 bilhões de operações, um aumento de 54% em relação ao ano anterior. Já os cartões (crédito, débito e pré-pagos) movimentaram R$ 4,1 trilhões, segundo a ABECs.

Se cada transação via Pix tivesse gerado R$ 1 em receita para os emissores de cartão, o setor teria perdido R$ 63,5 bilhões apenas em 2024. A estimativa não considera TEDs e outros meios. Para Trump, essa perda bilionária é inaceitável.

Outra empresa prejudicada é a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp. O serviço WhatsApp Pay, que esperava conquistar o mercado brasileiro, não decolou diante da força do Pix.

Pagamentos on-line e parcelado

O relatório “Global Payments Report 2025”, da norte-americana Worldpay, aponta que 58% das compras on-line no Brasil em 2030 devem ser feitas por Pix. Hoje, o percentual é de 41%. Nas lojas físicas, chega a 31%.

Segundo Vivian, “as pessoas estão priorizando o Pix pelos custos e pela facilidade. Muitas vezes, não é preciso carregar cartão. O QR Code ou a chave Pix já bastam”. Ela destaca ainda que o sistema funciona 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana, o que garante liquidez aos comerciantes.

A partir de setembro, o Banco Central lançará oficialmente o Pix parcelado. A modalidade permitirá compras a prazo com juros inferiores aos cobrados por operadoras de cartões, além de não exigir limite de crédito. O valor da venda cai integralmente para o comerciante, e o comprador poderá pagar parcelado, com débito mensal em conta. Caso não haja saldo, a cobrança funcionará como cheque especial.

“O Pix parcelado também vai ajudar a evitar fraudes com boletos falsos enviados por golpistas”, explica Vivian.

A expectativa é que o parcelamento via Pix aumente a adesão ao sistema e diminua ainda mais o uso dos cartões — hoje, um dos maiores causadores de endividamento no país, devido às altas taxas de juros.

Ainda sobre Krugman, o Pix e o tarifaço

Segundo o Nobel de Economia Paul Krugman, as novas tarifas contra o Brasil representam um “programa de proteção a ditadores” e não têm qualquer fundamento econômico.

Em declarações recentes, ele afirmou que “Trump nem sequer disfarça que exista uma justificativa econômica para sua decisão” e classificou a nova rodada de aumentos de tarifas como “demoníaca e megalomaníaca”.

“O Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro”, sintetizou Krugman. Para ele, o avanço do Pix evidencia a resistência dos Estados Unidos à inovação pública em meios de pagamento. “A indústria financeira americana é poderosa demais para permitir a criação de uma moeda digital de banco central no país, e os republicanos não confiam em uma iniciativa pública no lugar de uma tecnologia privada”, criticou. Na conclusão do artigo, Krugman lamenta: “Outras nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema de pagamento digital. Mas os EUA provavelmente permanecerão presos a uma combinação de interesses pessoais e fantasias cripto”.

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