Brasil e China retomam projeto para criar corredor bioceânico

Rota formada especialmente por ferrovias conectaria os oceanos Atlântico e Pacífico como alternativa ao Canal do Panamá

Brasil e China retomam projeto para criar corredor bioceânico

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Fora da agenda oficial da missão do governo brasileiro à China, em maio deste ano, voltou à cena em 2025 – e à mesa de negociações – o mais ambicioso projeto conjunto entre os dois países. Criar uma rota ferroviária que atravessa o Brasil e chegue até portos chilenos, criando um trajeto alternativa ao Canal do Panamá entre os oceanos Atlântico e Pacífico, está novamente na mesa de trabalho.

Iniciado há duas décadas, o projeto de complexa e cara execução – estimado em até US$ 60 bilhões – tem razões claras para ganhar novamente os holofotes, assim como muitos entraves para sua concretização. Com a recente e propalada ameaça feita pelos EUA de assumir o comando do Canal do Panamá, a China estaria buscando mostrar que não é refém dessa conexão logística e que está disposta a investir em rotas alternativas.

O corredor bioceânico integra a estratégia Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), anunciada há mais de dez anos por Pequim como uma configuração contemporânea da antiga, lendária e comercial Rota da Seda e com projetos já executados. A retomada do atual projeto é apontada mais como a movimentação de um peão no tabuleiro do xadrez geopolítico do que um real cerco ao Rei e à Rainha. Ainda assim, alimenta certa expectativa do governo brasileiro de que ao menos comece a sair do papel.

Em abril deste ano, por exemplo, 11 engenheiros do governo chinês estiveram no Brasil avaliando traçados e portos que seriam a porta de entrada da integração com o porto peruano de Chancay. Fruto de investimento público-privado chinês-peruano, as obras nesse porto começaram em meados de 2024 e foram inauguradas, parcialmente, em 2025. O projeto ajudaria a confirmar o verdadeiro compromisso da China com o corredor bioceânico.

Do lado brasileiro, o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é apresentado como uma das formas de viabilizar o início das necessárias obras ferroviárias, as quais, unidas à estrutura já existente, formariam o corredor logístico nacional. É na parcela de responsabilidade brasileira, no entanto, que trafegam algumas barreiras, ao menos de tempo, para que o projeto se movimente, avalia a diretora executiva do Conselho Empresarial Brasil-China (CBEC), Cláudia Trevisan.

“Não é possível assegurar, mesmo com interesse e investimentos, que empresas chinesas ou o próprio governo chinês executem essas obras. Todos os projetos precisam, necessariamente, passar por um edital e seus ritos e diferentes imprevistos”, avalia Cláudia, que também é pesquisadora de temas sino-brasileiros.

Questões ambientais cruzam, ainda, o caminho da rota, especialmente nas regiões do Mato Grosso e Amazônia, por onde o corredor levará até a Bolívia e ao Paraguai, por exemplo.

O trajeto rodoviário com extensão de 2.396 quilômetros liga os dois maiores oceanos do planeta, do Atlântico ao Pacífico, pelos portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, passando por Paraguai e Argentina.

Outro traçado possível leva a rota ao porto peruano de Chancay, cruzando a Bolívia.

Pelo porto de Ilhéus, na Bahia, poderá haver conexão com a rota, que contaria, assim, com ao menos três portos iniciais no Brasil.

O corredor terá quase 3 mil quilômetros, conectando ferrovias já existentes por meio de novos projetos, com potencial para reduzir custos logísticos de transporte entre a Ásia e a América Latina em mais de 20%.

Brasil e China retomam projeto para criar corredor bioceânico

Imagem: Arte de Fabio Edy Alves sobre IA

Investimentos em saúde, TI e energia

Ofuscados na mídia, os resultados da missão brasileira com o presidente chinês, Xi Jinping, têm como pontos marcantes acordos financeiros nas áreas de saúde e de tecnologia. Ocorrido em maio, o encontro com o presidente Lula, em viagem a Pequim, foi o segundo entre os dois presidentes em menos de um ano – já que o líder chinês esteve no Brasil em novembro de 2024.

“Encontros realizados em um espaço de tempo tão curto são muito representativos como mostra da proximidade entre Brasil e China e os encaminhamentos dos acordos feitos lá e também futuros”, analisa a diretora executiva do CBEC, Cláudia Trevisan. A missão pode agregar um fato inédito e bastante simbólico, em breve.

No campo econômico, a executiva destaca a abertura de caminhos para que empresas brasileiras captem recursos na China. Durante a missão, em maio, foi assinado um memorando de entendimento entre a B3, que é a Bolsa de Valores brasileira, e a Bolsa de Valores de Shenzhen e de Xangai. A proposta é estruturar ETFS – Exchange Traded Funds – que permitirão levar ações brasileiras para investidores chineses diretamente no mercado financeiro do país.

O aprofundamento da cooperação no mercado de capitais entre as duas nações possibilitará, ainda, que companhias brasileiras captem recursos na China com juros bastante inferiores aos brasileiros e mesmo norte-americanos.

“Teremos abertura para que empresas brasileiras lancem títulos e captem recursos no mercado chinês com a emissão dos chamados Panda Bonds, buscando financiamentos em moeda local, o Renminbi”, explica a executiva do CBEC.

Cláudia cita como exemplo dos ganhos com esse processo, sendo mais ágil e formalizado, a captação já feita pela Suzano, empresa do setor de papel e celulose, que conseguiu recursos captando na moeda chinesa, a uma taxa de 2,8% ao ano. No Brasil, a taxa de juros Selic, hoje, fica em torno de 15% (com previsão de alta).

As apostas colocadas na mesa de negociação entre os dois países reforçaram as perspectivas de aportes chineses em áreas como equipamentos de saúde, energias renováveis e no setor de tecnologia. No segmento de tecnologia e inovação, por exemplo, as propostas incluem avançar conjuntamente na área de Inteligência Artificial.

“Cabe lembrar que a China chamou a atenção mundial neste ano com a apresentação de sua nova ferramenta de Inteligência Artificial (a QwQ-32B, da empresa DeepSeek), que demandou custos muito inferiores para ser desenvolvida do que o modelo norte-americano (o Chat GPT)”, registra Cláudia.

Durante a missão, também foi oficializado o ingresso da gigante chinesa de delivery, Meituan, no Brasil, com sua marca Keeta, a qual irá concorrer com iFood e outros aplicativos de entrega e trazer inovações e mais competitividade ao mercado. A empresa estaria planejando investir R$ 5 bilhões em solo brasileiro ao longo de cinco anos para estabelecer a operação.

Os aportes chineses na área de TI podem chegar diretamente no Rio Grande do Sul. Em abril, duas empresas chinesas sinalizaram interesse em investir na Ceitec – estatal produtora de microchips extinta no governo de Jair Bolsonaro e que está sendo resgatada pelo atual governo, com aporte de mais de R$ 200 milhões.

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