Economia
Marchinha de carnaval denuncia exclusão de domésticas do abono do PIS
Ação se inspira em clássico da década de 1950 e cobra do Congresso e Executivo…

Foto: Paulo Mumia/BRICS Brasil
Com pautas econômicas que focam em temas especialmente sensíveis aos Estados Unidos e em um ano marcado pela ruptura do país com o livre comércio – a partir da adoção de elevadas taxas de importação –, a nova reunião de cúpula do BRICS, ocorrida nos dias 6 e 7 de julho, mesmo sem a presença de Xi Jinping (que enviará o premiê chinês Li Qiang), e Vladimir Putin, que tem contra ele um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), segue atraindo interesse da imprensa mundial.
O BRICS tem como uma das bandeiras reduzir a hegemonia do dólar como moeda “oficial” em transações comerciais internacionais e criou uma instituição financeira que tem como principal propósito ser um contraponto ao FMI e ao Banco Mundial e seus critérios e ingerências na condução da economia dos países a quem enviam. Em conjunto, as duas propostas vêm sendo efetivamente executadas.
Mas o que é ser um ator com voz potente neste “abstrato” conceito de geopolítica global? Dois exemplos concretos ajudam a entender o significado do termo e a atual força do grupo.
Por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado em 2014 com um capital inicial de US$ 50 bilhões, o BRICS tem em mãos uma ferramenta estratégica. Em sua Estratégia Geral 2022-2026, o NDB estabeleceu a meta de que 30% de seus financiamentos sejam realizados na moeda local de cada um de seus membros até 2026.
No relatório anual de 2023, o banco reportou um total de US$ 31,9 bilhões em desembolsos desde 2016, dos quais US$ 21,29 bilhões foram concedidos em dólar norte-americano. As demais operações já foram realizadas em moedas utilizadas pelos países do grupo, como yuan (China), euro (alternativa ao dólar) e rands (África do Sul).
Desde 2023, a instituição está sob o comando da ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff. A reação norte-americana ao avanço da proposta de reduzir a presença do dólar no comércio internacional explicitou ainda mais que o objetivo do BRICS não é apenas uma mensagem ideológica, mas também uma alternativa viável e possível. Em 2024, o ex-presidente dos EUA Donald Trump fez ameaças a esse movimento – apontado por analistas e estudiosos como a mais concreta ação efetiva já executada no caminho da desdolarização.
Em entrevista ao portal estadunidense Fox, Trump anunciou “tarifas de 100%” ao bloco de países caso tentem substituir ou se afastar do dólar americano e “exigiu” um compromisso formal do BRICS em não criar nem apoiar outra moeda para substituir o “poderoso dólar americano”. Sem isso, os países deveriam “se despedir de vender para a maravilhosa economia americana”.
Professor e coordenador do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (Nerit/Ufrgs), Paulo Visentini cita a iniciativa do BRICS e a reação de Trump como uma clara referência da evolução e importância alcançada pelo grupo 16 anos após sua formação, em 2009.
“O BRICS é um clube de países que não têm, ou ainda não tinham, uma posição na política global correspondente ao seu peso econômico crescente. Quem ainda avalia que o BRICS é irrelevante no cenário parte de um pensamento muito raso e desatualizado. Essa visão predomina inclusive na imprensa, que ainda não apresenta e noticia o BRICS e suas iniciativas como deveria”, critica Visentini.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) materializou e fortaleceu o grupo
Foto: Xinhua / Reprodução
Reunir países com pautas diversas – muitas delas até dissonantes – e “se materializar” apenas em cúpulas anuais e comunicados com propostas desafiadoras estavam entre os argumentos usados para desvalorizar e menosprezar a importância do BRICS. Entre os críticos, fundamentalmente neoliberais, está Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, banco de investimento e serviços financeiros norte-americano, que criou o acrônimo BRIC, em 2001, em relatório no qual projetou o crescimento e a relevância de Brasil, Índia, China e Rússia nas décadas seguintes.
Ao criar o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e liberar seus primeiros financiamentos, no entanto, o grupo foi ganhando representatividade, passou a apresentar projetos concretos e enfraqueceu os argumentos neoliberais. Com a pandemia de covid-19, em 2020, o banco apoiou países do grupo rapidamente, oferecendo linhas de crédito para estabilização econômica, liberando US$ 10 bilhões em empréstimos voltados à recuperação e ao combate à crise sanitária. Além de contar com recursos financeiros, os países do bloco cooperaram entre si na distribuição de vacinas e insumos, fortalecendo seu papel como rede alternativa de apoio a diferentes iniciativas, nos campos da saúde, energia e outros.
Para a professora Angélica Massuquetti, doutora em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RS), a relevância econômica do BRICS se deve à participação de países como China e Índia, pelo PIB e pela população, mas ainda não afeta o protagonismo dos EUA no cenário internacional.
“Os investimentos oriundos de instituições do BRICS, porém, são relevantes, especialmente para promover o avanço tecnológico dos países emergentes e reduzir a diferença de capacidade produtivo-tecnológica em relação aos países desenvolvidos”, avalia a economista.
CÚPULA DE 2025 – O grupo, originalmente composto por Brasil, Rússia, Índia e China, expandiu-se pela primeira vez com a admissão da África do Sul em 2011. Em 2023, foram admitidos Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Entre os temas tratados na cúpula – e, posteriormente, com acordos e propostas oficializadas –, estão cooperação em saúde global, comércio, investimentos e finanças, mudanças climáticas e governança da inteligência artificial. Os governantes e executivos debaterão, ainda, ações para o desenvolvimento institucional do próprio BRICS.

Foto: Alexandre Durão / BRICS Brasil
Em 2023, um novo e marcante passo foi dado pelo BRICS. Durante a reunião de cúpula, a África do Sul anunciou o que seria um terceiro pilar de sustentação na busca por agregar ao grupo mais força, representatividade e relevância como promotor de mudanças no cenário mundial, rumo a um mundo menos centralizado nas decisões e dos movimentos norte-americanos e europeus.
De forma estratégica, o grupo anunciou a inclusão de novos países ao BRICS, como Arábia Saudita, Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos. A entrada de nações do Oriente Médio explicitou que a busca atual é por uma conotação mais política e menos simbólica. O movimento, dissonante da proposta inicial de ser uma ação de fortalecimento e apoio mútuo no contexto Sul-Sul (apesar de contar com a Rússia), teria como base, por exemplo, a meta de ajudar a formatar um mundo multipolar, com espaço para novos anseios, projetos e propostas.
Com o anúncio da adesão de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito – tradicionais aliados dos EUA –, o BRICS voltou a ser alvo de ameaças e temores de Trump. Aos Emirados Árabes, que chegaram a sinalizar mais aportes no NDB, o presidente norte-americano indicou esperar que a adesão fosse revista, para que as boas relações entre os dois países não fossem afetadas.
O recado surtiu efeito, e o ingresso dos Emirados Árabes virou uma incógnita. Apesar de constarem como integrantes oficiais do grupo em citações, documentos e no site do BRICS, os governos dessas nações estariam evitando confirmar se a assinatura de adesão foi efetivamente formalizada. Em maio deste ano, coincidentemente, os EUA divulgaram ter fechado um acordo de US$ 600 bilhões em investimentos com a Arábia Saudita, classificando o tratado como um “compromisso histórico” e uma “nova era dourada de parceria” entre as duas nações.

Foto: Alexandre Brum/BRICS Brasil
Os líderes do BRICS divulgaram no domingo, 6 de julho, a declaração final da 17ª Reunião de Cúpula do bloco, realizada no Rio de Janeiro sob a presidência brasileira. O documento reafirma o compromisso do grupo com o multilateralismo, a reforma da governança global e o fortalecimento da atuação dos países do Sul Global nos organismos internacionais.
“Reiteramos nosso compromisso com a reforma e com o aprimoramento da governança global”, diz o texto, que defende um sistema multilateral “mais justo, equitativo, ágil, eficaz, representativo, legítimo, democrático e responsável”. O documento também exige mudanças estruturais na Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no Conselho de Segurança, para ampliar a participação de países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina — incluindo os próprios membros do BRICS.
Na declaração, os líderes celebram a entrada da Indonésia como novo membro pleno do grupo, que agora passa a contar com 11 integrantes. Também foram reconhecidos como países parceiros Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Nigéria, Malásia, Tailândia, Vietnã, Uganda e Uzbequistão.
Outros destaques incluem a aprovação da Declaração-Marco sobre Finanças Climáticas, da Declaração sobre Governança Global da Inteligência Artificial e o apoio ao lançamento da Parceria para a Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas. “Essas iniciativas refletem nossos esforços conjuntos para promover soluções inclusivas e sustentáveis para questões globais prementes”, afirmaram os líderes.
A agenda da cúpula, que segue nesta segunda-feira, 7 de julho, inclui sessões plenárias sobre meio ambiente, saúde global e a próxima Conferência do Clima, a COP30. No domingo, os chefes de Estado participaram de debates sobre segurança internacional, reforma das instituições multilaterais e impactos da inteligência artificial. Na abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o papel do BRICS na mediação de conflitos e na promoção da paz global.
Com o tema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, a presidência brasileira no BRICS em 2025 concentra esforços em duas prioridades: fortalecer a cooperação entre países em desenvolvimento e fomentar parcerias para o desenvolvimento social, econômico e ambiental.
O BRICS, agora formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, representa 48% da população mundial, 36% do território global e responde por 40% do PIB mundial. Em 2024, o comércio entre o Brasil e os países do grupo somou US$ 210 bilhões — cerca de 35% de toda a corrente de comércio brasileira.
As exportações brasileiras para os países do BRICS somaram US$ 121 bilhões no ano passado, com destaque para produtos como soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina, açúcares e celulose. As importações, por sua vez, totalizaram US$ 88 bilhões, com predominância de combustíveis, fertilizantes e embarcações. O saldo comercial brasileiro no primeiro semestre de 2025 foi positivo: superávit de US$ 10,4 bilhões.
Segundo dados do Banco Central, os investimentos diretos dos países do BRICS no Brasil atingiram cerca de US$ 51 bilhões em 2024.
Durante a sessão Paz e Segurança, Reforma da Governança Global, realizada no domingo, 6 de julho, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o mundo vive o “cenário global mais adverso” desde a criação das Nações Unidas e cobrou uma reforma profunda na governança internacional. A declaração ocorreu durante a 17ª Reunião de Cúpula do BRICS, grupo atualmente composto por 11 países.
Segundo Lula, o colapso do multilateralismo, somado à paralisia da ONU diante de conflitos e crises, compromete a paz e a segurança internacionais. “A ONU completou 80 anos no último dia 26 de junho e presenciamos um colapso sem paralelo do multilateralismo”, afirmou o presidente.
Ao lembrar que a criação da ONU marcou a derrota do nazi-fascismo e deu origem a uma esperança coletiva, Lula observou que boa parte dos atuais membros do BRICS estavam entre os fundadores da organização. Ele também destacou o papel da Conferência de Bandung, em 1955, que rejeitou a divisão do mundo em zonas de influência e defendeu a ordem multipolar. “O BRICS é herdeiro do Movimento Não-Alinhado”, frisou.
Lula destacou que regimes fundamentais, como os de clima e comércio, estão sob ameaça, enquanto o sistema de saúde global sofre “uma investida sem precedentes”, especialmente em relação ao acesso a medicamentos. “Exigências absurdas sobre propriedade intelectual ainda restringem o acesso”, denunciou.
Para o presidente brasileiro, o direito internacional tem sido desrespeitado e as reuniões do Conselho de Segurança da ONU resultam em “perda de credibilidade e paralisia”. “É sempre mais fácil investir na guerra do que na paz”, disse, ao criticar o aumento dos gastos militares e a negligência com a Agenda 2030.
Lula condenou as intervenções unilaterais recentes e a manipulação de agências internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica. “O temor de uma catástrofe nuclear voltou ao cotidiano”, advertiu. Ele também mencionou o fracasso das ações no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, cujas consequências ainda afetam o Oriente Médio, o Norte da África e o Sahel. “No vazio dessas crises não-solucionadas, o terrorismo encontrou terreno fértil”, alertou.
O presidente reafirmou a posição do Brasil em defesa de uma solução negociada para o conflito entre Israel e Palestina. “Nada justifica as ações terroristas perpetradas pelo Hamas. Mas não podemos permanecer indiferentes ao genocídio praticado por Israel em Gaza”, afirmou, defendendo o fim da ocupação e a criação de um Estado palestino soberano, com base nas fronteiras de 1967.
Sobre a guerra na Ucrânia, Lula voltou a condenar as violações à integridade territorial e destacou a iniciativa conjunta do Brasil e da China com o Grupo de Amigos para a Paz. “É urgente que as partes envolvidas aprofundem o diálogo direto com vistas a um cessar-fogo e uma paz duradoura”, disse.
Ele também criticou o abandono do Haiti pela comunidade internacional após o fim da missão da ONU no país e defendeu o fortalecimento da presença da organização, combinando segurança e desenvolvimento.
Apesar do cenário adverso, Lula afirmou que a história das Nações Unidas também inclui conquistas, como a descolonização, a proibição de armas químicas e biológicas, e o sucesso de missões em países como Timor-Leste. “A América Latina fez a opção, desde 1968, por ser uma Zona Livre de Armas Nucleares”, lembrou, destacando ainda o protagonismo crescente da União Africana.
Para ele, o BRICS deve contribuir diretamente para uma nova estrutura de governança. “Se a governança internacional não reflete a nova realidade multipolar do século XXI, cabe ao BRICS contribuir para sua atualização”, declarou. Ele defendeu a ampliação do Conselho de Segurança da ONU com a inclusão de membros permanentes da Ásia, África, América Latina e Caribe. “É mais do que uma questão de justiça. É garantir a própria sobrevivência da ONU”, afirmou.
Lula concluiu o discurso reiterando o chamado à ação pela reforma da governança global lançado pelo Brasil na presidência do G20. “Cada dia que passamos com uma estrutura internacional arcaica e excludente é um dia perdido para solucionar as graves crises que assolam a humanidade”, finalizou.