Economia
Marchinha de carnaval denuncia exclusão de domésticas do abono do PIS
Ação se inspira em clássico da década de 1950 e cobra do Congresso e Executivo…

Foto: José Cruz/Agência Brasil
A proposta do governo federal de criar um imposto mínimo para contribuintes de alta renda gerou reações diversas entre especialistas. Para compensar a isenção para quem ganha até r$ 5 mil o texto prevê uma tributação mínima para altas rendas, que atingirá 141,4 mil contribuintes (0,13% do total). Esse grupo corresponde a apenas 0,06% da população do país e é composto de pessoas que recebem mais de R$ 600 mil por ano em dividendos e que não contribuem atualmente com alíquota efetiva de até 10% para o Imposto de Renda. Esses contribuintes pagam atualmente uma alíquota efetiva média de 2,54%.
Enquanto alguns veem a medida como um passo importante para reduzir a desigualdade tributária, outros a consideram insuficiente ou até mesmo “populista”.
Crítico, o economista Paulo Kliass considerou a ideia positiva, “mas insuficiente para corrigir as distorções históricas do sistema tributário brasileiro”. Ele destacou que a medida está alinhada com a promessa de campanha do presidente Lula de aumentar o limite de isenção do IR.
Porém, para ele, não acaba com a isenção de lucros e dividendos, estabelecida em 1999 por Fernando Henrique Cardoso e coloca o Brasil ao lado de Estônia e Letônia, como os únicos três países do mundo que não tributam dividendos distribuídos a acionistas de empresas.
“Se fosse valer o fim da isenção, o que aconteceria? Você pegaria todos os dividendos que as pessoas recebem e aplicaria diretamente a alíquota progressiva, como acontece com salários”, afirmou Kliass. Ele ressalta que a proposta não elimina a isenção, mas apenas estabelece um imposto mínimo de 10% sobre parte dos rendimentos isentos.
Apesar das limitações, o economista avalia que a proposta é um avanço: “Paciência, é melhor isso do que não ter nada”.
Ele, porém, alerta para as resistências que a medida pode enfrentar no Congresso. Em especial entre setores da elite econômica. “As classes dominantes não querem pagar esse novo tributo. Elas prefeririam que tudo continuasse como está, com isenção plena e absoluta”, disse.
A advogada tributarista Roberta de Amorim Dutra reconhece o potencial da proposta para aumentar a justiça fiscal, apesar de a classificar como “populista”, diante do momento de baixa avaliação positiva do governo.
Há uma discrepância inegável no sistema tributário, pontua a advogada, quando um aposentado que ganha R$ 4 mil mensais paga 27,5% de IR, enquanto dividendos empresariais são isentos.
Para ela, a proposta está alinhada com a reforma tributária em andamento, que busca um sistema mais equitativo. “O topo da pirâmide não pode continuar sem contribuir enquanto a base paga a conta”, afirmou.
Roberta também mencionou uma provável resistência do Congresso, especialmente em relação à tributação de dividendos e remessas ao exterior, mas acredita que a isenção para contribuintes de renda mais baixa tenha ampla aceitação.
Se o impacto imediato na economia e na arrecadação ainda não podem ser mensurados, tanto o economista quanto a advogada entendem que a equipe econômica do governo Lula deve ter feito corretamente a lição de casa para cobrir a isenção dos cerca de 10 milhões de brasileiros.
Kliass não arrisca falar de números no momento. “Quem ficar falando está chutando. Pode ter aumento da atividade, aumento da arrecadação, quer dizer, está fazendo previsão para o que vai ser o exercício fiscal de 2026”, descreve ao completar: “Eu imagino que, como a Receita Federal tem estudos, tem planilhas de informações do que aconteceu até 2024, está fazendo uma previsão mais ou menos adequada e correta”.
Já a tributarista Roberta, apesar do governo declarar que o impacto terá efeito fiscal neutro, diz, por “feeling”, acreditar que a taxação dos mais ricos possa a vir até a aumentar a arrecadação da União.
Há lógica. Segundo estimativa da Receita Federal, só dividendo remetido ao exterior, independentemente do valor, devem gerar R$ 8,9 bilhões em arrecadação.
O novo imposto visa corrigir distorções no sistema tributário, taxando mais os ricos e dividendos, enquanto beneficia a classe média e baixa com isenções e reduções de IR. O impacto fiscal é projetado como neutro, mas depende da aprovação e implementação das medidas.