GM alega crise para cortar direitos e salários

Com isenções que superam R$ 5 milhões por ano, a planta da montadora em Gravataí foi inaugurada, ampliada e sempre se manteve à base de gigantescos incentivos fiscais e financiamentos públicos

Foto: Igor Sperotto

Sem capital aberto no país, a empresa não tem a obrigação de publicar balanços financeiros, o que coloca sob suspeita a retórica de prejuízos acumulados usada para justificar a política de redução salarial e de direitos que a multinacional tenta impor aos trabalhadores em todo o país. Além disso, a empresa incentiva a guerra fiscal e chantageia os governos estaduais por mais benefícios

 “Vamos ter uma grande peleia em 2020”, prevê Noeldi Leal Trindade. O diretor-executivo do Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí se refere às negociações com a General Motors (GM), que tenta impor uma agenda de redução de salários e de direitos trabalhistas nas suas três montadoras no Brasil: São Caetano do Sul e São José dos Campos, em São Paulo, e Gravataí, no Rio Grande do Sul.

Em Gravataí, assim como em São Caetano, o Sindicato conseguiu barrar a proposta da líder do setor automotivo e manter o Acordo Coletivo vigente até o final de março de 2020. Mas o mesmo não aconteceu em São José, onde os trabalhadores abriram mão do reajuste previsto para este ano em troca da garantia de investimentos de R$ 5 bilhões na unidade e de um abono salarial de R$ 2,5 mil. Acordos de flexibilidade de jornada e de folgas também foram revistos. O receio agora é de um efeito cascata: “Daqui a pouco isso vira uma onda em todo país, de todas as montadoras e as empresas quererem fazer isso com os sindicatos”, alerta o sindicalista.

As negociações são fruto do plano de reestruturação anunciado em janeiro pela GM do Brasil, que incluía uma pauta de 21 itens, entre os quais a terceirização total, redução do piso salarial, supressão de horas extras, implementação do trabalho intermitente e aumento da carga horária. No comunicado, a empresa alegava prejuízos e ameaçava deixar o país.

Henrique Rocha, advogado especialista em Direito Trabalhista e professor da PUCRS, explica que a pauta da GM não é nova. A novidade é a maneira como foi conduzida: “A GM deu um ultimato, em uma declaração pública: ‘ou reduz, pra gente recuperar lucro, ou nós vamos fechar a fábrica, porque já estamos operando em prejuízo há muitos anos’. E a bem da verdade não se sabe de onde vem o prejuízo. Se está no negócio, na gestão, na política salarial. Acho que são pontos que não estão esclarecidos”, diz Rocha.

A informação de que a GM acumula prejuízos não pode ser confirmada nem dimensionada, já que a empresa não tem capital aberto no Brasil e não é obrigada a divulgar balanços financeiros. Questionada pelo Extra Classe sobre esses números, a montadora respondeu por meio de sua assessoria de imprensa que não vai se manifestar.

A retórica da crise, no entanto, contrasta com o otimismo que marcou o anúncio da terceira ampliação da fábrica de Gravataí, em agosto de 2017. A unidade, com capacidade para fabricar 350 mil carros por ano, é a maior da GM no Brasil e produz os dois modelos mais vendidos pela empresa no país, Onix e Prisma. O aporte de R$ 1,4 bilhão faz parte de um plano de investimento de R$ 13 bilhões para o Brasil de 2014 a 2019.

Em entrevista ao Estadão publicada em 17 de fevereiro, o presidente da General Motors Mercosul, Carlos Zarlenga, disse que a matriz deverá aprovar um novo plano de investimentos de R$ 10 bilhões para o Brasil, mas que para isso precisa aprovar um plano de redução de custos.

Guerra fiscal para obter mais benefícios

Mobilização de metalúrgicos em Gravataí barrou proposta de cortes da multinacional

Mobilização de metalúrgicos em Gravataí barrou proposta de cortes da multinacional

Foto: Marcelo Matusiak/ Playpress/ Divulgação

Em paralelo às negociações com os sindicatos, a montadora vem cobrando mais benefícios dos governos estaduais, acirrando a guerra fiscal. Em São Paulo, a empresa pede a antecipação de créditos do ICMS. Do governo gaúcho, cobra a isenção do ICMS sobre o frete interestadual (benefício que expirou no fim do ano passado) e a redução do custo de exportação pelo Porto de Rio Grande. O governador Eduardo Leite (PSDB) disse que fará o que estiver ao seu alcance, mas até agora não apresentou uma proposta oficial.

Desde que chegou ao estado, em 1997, a GM se utiliza de benefícios públicos. Conforme mostrou a reportagem Quanto custou a GM?, publicada na edição de setembro de 2009 do Extra Classe, o acordo com o governo de Antônio Britto previa a concessão de R$ 580 milhões em empréstimos oficiais para a aquisição de terreno em Gravataí, para obras de infraestrutura e capital de giro. Em 2009, na segunda ampliação da planta no estado, a empresa recebeu um financiamento de R$ 344 milhões do Banrisul, neste que foi o maior empréstimo já feito pelo banco a uma empresa privada.

Tem sido assim desde a inauguração da planta da montadora e a cada novo aporte de investimentos. A GM também se beneficia dos programas de incentivo fiscal Fomentar e Fundopem, que permitiram isenções ou financiamentos do ICMS que variam entre 75% e 100% do valor do imposto devido.

A Secretaria Estadual da Fazenda não informou quanto a GM já recebeu em benefícios fiscais, alegando que os dados da empresa são sigilosos. Já a Prefeitura de Gravataí garante à montadora a isenção de IPTU e de ISSQN. Só de IPTU, a empresa deixa de pagar R$ 1,15 milhão por ano. Em relação ao ISSQN, a prefeitura não tem os dados específicos da GM. Mas o Condomínio Industrial Automotivo General Motors (Ciag) como um todo, que reúne a montadora e suas 16 sistemistas, deixa de pagar R$ 4 milhões por ano. A GM é responsável por 45% da arrecadação de ICMS e por 10% do PIB de Gravataí, além de gerar 8 mil empregos diretos e indiretos.

Montadoras enfrentam maior competição e necessidade de inovação

Trindade: em Gravataí e São Caetano, prevaleceu o Acordo Coletivo

Trindade: em Gravataí e São Caetano, prevaleceu o Acordo Coletivo

Foto: Marcelo Matusiak/ Playpress

A alegação de crise da GM ocorre em um momento de reaquecimento do setor automotivo brasileiro, segundo avalia a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Segundo a entidade, a produção de veículos cresceu 6,7% entre 2017 e 2018. Para 2019, a projeção é de incremento de 8,9%.

Já no último relatório entregue à Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos, referente ao trimestre de julho a setembro de 2018, a matriz norte-americana da GM destaca que o crescimento nas vendas de suas indústrias no período foi puxada principalmente pela Índia e pelo Brasil. Já a participação da empresa no mercado brasileiro caiu de 17,8% em 2017 para 16,6% em 2018.

Para Paulo Antônio Zawislak, professor da Escola de Administração da Ufrgs, apesar da recuperação, o setor ainda amarga os impactos da recessão brasileira. Além disso, o corte de benefícios trabalhistas em outros países, a popularização dos aplicativos de transporte e a necessidade de produzir carros mais tecnológicos mudaram os padrões mundiais de lucratividade: “Talvez a matriz americana esteja dizendo, ‘o nosso padrão de rentabilidade mundial agora é X, vocês estão com X – 1, se virem aí no Brasil’”.

Já o coordenador de cursos automotivos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, destaca que as montadoras estão tendo que se adequar a um cenário mais competitivo que o de 60 anos atrás, quando havia apenas quatro grandes fabricantes no país. Hoje são mais de 20.

Assim como Zawislak, Martins acredita que todas as montadoras vão seguir o caminho da GM. Ao mesmo tempo, acha improvável que essas empresas deixem o país: “Elas são de capital aberto lá fora, e precisam mostrar aos investidores que estão presentes com rentabilidade nesses mercados que têm alto potencial de crescimento, como o Brasil”, analisa.

FORD – A Ford anunciou no dia 19 de fevereiro o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e confirmou que deixará o mercado de caminhões na América do Sul. A montadora tem plantas também em Camaçari (BA) e Taubaté e um campo de provas em Tatuí (SP). A unidade de São Bernardo tem 3,2 mil empregos diretos e mil indiretos. Os trabalhadores entraram em greve.

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