Cultura
Formação gratuita para educadores sobre música erudita de forma lúdica
Atividade conduzida pelo diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Lisboa apresenta estratégias pedagógicas para aproximar…

Fotos. Igor Sperotto
Um jacaré no Menino Deus, capivaras no Arroio Dilúvio, cavalos na janela de um apartamento no terceiro andar e no telhado de um galpão em Canoas, um boi no altar de uma igreja em Taquari, o cotidiano devastado na capital e no interior do Rio Grande do Sul. São cenas isoladas de uma tragédia anunciada. A enchente de maio de 2024, com suas histórias inusitadas, foi transportada para as telas pelas mãos da artista em gravuras digitais apresentadas na exposição Itinerários da inundação – que está aberta à visitação até janeiro de 2026, no amplo ateliê que Zoravia Bettiol mantém em casa, na Zona Sul de Porto Alegre.
“Quero muito que as crianças venham aqui visitar o ateliê e conversar sobre arte de uma forma livre, uma roda de conversa no gramado (do jardim que ela batizou de José Lutzenberger). E já decidi que vou formar uma pequena turma de adultos para um curso de arte que vai ser uma coisa diferente”, adianta.
Nascida na capital gaúcha em 17 de dezembro de 1935, Zoravia Augusta Bettiol é filha de Emma e Sigefrido Bettiol e irmã de Dilmer e Arrenius, uma família multirracial de ascendência austríaca, italiana, sueca e “muito brasileira”. “Pois olha, é uma mistura brava. Eu tenho dois avós italianos, uma avó sueca e uma avó austríaca. Eu acho ótima essa miscigenação”, diverte-se.

Foto: Igor Sperotto
Zoravia completará 90 anos de vida – e quase 70 de carreira nas artes visuais – no final deste ano. Ela filosofa com graça sobre longevidade. “É, 90 anos eu acho um absurdo. Se bem que meu pai e minha mãe viveram mais de 80, minha irmã fez 92, lúcida. O Dráuzio Varella já disse que vamos chegar lá, que vamos viver 120 anos. E eu acho isso plausível com a evolução da medicina e dos seus recursos, mas a gente tem que colaborar, dormir bem, comer bem e levar uma vida saudável”, ensina.
“Sempre tive espaço aberto para a apresentação do meu trabalho ao público. Quando lecionava, dizia para os meus alunos: ‘Olha, reservem um espaço para mostrar o trabalho de vocês, mesmo que seja pequenininho’. Tive muito aluno filho de madame, que morava naquelas mansões maravilhosas e, às vezes, o ateliê era na dependência da empregada. O espaço é importante para mostrar o trabalho com dignidade, colocar os preços por escrito e não dar o preço de acordo com a cara do cliente. A gente tem que oferecer segurança e profissionalismo.”
ATIVISMO – O Movimento Gaúcho em Defesa da Cultura, que nos anos 1980 impediu a demolição da Usina do Gasômetro pelo governo Amaral de Souza, foi uma das suas lutas mais marcantes. “O governador, que a gente chamava de Amaralzinho, tinha tirado a Cultura da Educação e colocado na Secretaria de Desporto e Turismo. Naquela época era assim: a cultura era um apêndice de outras secretarias. A comoção foi geral. A gente se manifestou. Começamos a fazer reuniões e assembleias. Reunimos gente de 11 setores da cultura, da arquitetura, de artes visuais, literatura. Depois, do magistério, estudantes, pessoal das Ciências Sociais, músicos. A urgência era impedir a demolição para depois pensar um destino para o prédio”, recorda.
Em 2022, em uma parceria com movimentos e coletivos de artistas, Zoravia se envolveu no projeto de restauração da Casa dos Leões, em um imóvel cedido pelo governo do estado, para sediar o Instituto Zoravia Bettiol e proporcionar um espaço para a promoção das artes. O casarão histórico localizado na Rua dos Andradas, no entanto, estava muito deteriorado. “Nos entregaram a chave e o direito de usufruto. Só que a ruína era total, só nos deu despesa. Houve quatro destelhamentos. O governo dá essas ruínas para não pagar imposto, para não pagar luz e quem recebe ganha uma porcaria, um elefante branco, um presente grego”, lamenta.
O ambiente do ateliê na Zona Sul é amplo e apresenta aqui e ali obras que remetem às várias fases e técnicas visitadas pela artista ao longo dessa trajetória. É de 1967 a xilogravura colorida da série O circo, que retrata o universo da lona que encantou Zoravia na infância.
Outro quadro exibe um corpo de mulher suspenso por dois marinheiros, Iemanjá em noite de quatro luas, de 1973, da série Iemanjá, que a artista expôs em março do ano passado no seu ateliê, com a mostra Formas da Feminilidade para marcar o Mês das Mulheres. “Nessa mostra, apresento a mulher realizando as mais variadas ações triviais, como se pintar, cantar, namorar, casar e, por outro lado, mulheres míticas, lendárias, históricas e artistas. Há figuras femininas recorrentes e que têm muito significado para mim, Iemanjá, Penélope, Deméter, Alice e Afrodite. Elas aparecem em mais de uma série e técnica”, situa.

O ambiente do ateliê na Zona Sul é amplo e apresenta aqui e ali obras que remetem às várias fases e técnicas visitadas pela artista ao longo dessa trajetória
Foto: Igor Sperotto
Zoravia graduou-se em Pintura pelo Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e estudou desenho e xilogravura nos anos 1950, no ateliê do escultor Vasco Prado (1914-1998), com quem foi casada durante 28 anos.
“Fui aluna do Vasco, nos casamos, tivemos três filhos: o Fernando, a Leonora e o Eduardo. E nós trabalhávamos juntos, cada um tinha o seu ateliê. Os espaços dele eram maiores do que os meus, porque ele tinha também forno para cerâmica e trabalhava em pedra. Eu tinha o ateliê de arte têxtil e de gravura. Nossos espaços eram separados porque nossas técnicas eram muito diferentes, geravam resíduos, sujeiras diferentes, que eram incompatíveis. Mas interagíamos muito, opinávamos sobre a arte um do outro e fazíamos muita exposição conjunta e individual, tanto na nossa galeria quanto em outros espaços”, recorda.
A arte como profissão, com divisão do trabalho, geração de emprego e renda, é uma obsessão da artista. Com Vasco Prado, ela construiu um ateliê que tinha galeria de arte e chegou a ter 12 funcionários, com diferentes funções na cadeia artística. Sua vida e trabalho estão retratados em livros e no cinema. Em 2007, ganhou a edição bilíngue (português e inglês) Zoravia Bettiol: a mais simples complexidade, com textos de seis especialistas e um documentário de longa-metragem Zoravia, o Filme, dirigido por Henrique de Freitas Lima.
Nessa trajetória de quase sete décadas, experimentou as mais diversas técnicas de gravura, transitando pela linoleogravura, xilogravura, monotipia, serigrafia, litografia e ponta seca. Também trabalha com arte têxtil nas tapeçarias e formas tecidas; com pintura, desenho a lápis com bico de pena, colagem e técnica mista, confecção de joias de prata e têxteis, construção de objetos e móveis, esculturas, murais, headdresses e figurinos, instalações e performances. Desde a primeira exposição, em 1959, já participou de mais de 150 mostras individuais e 350 coletivas pelo mundo.
Contatos com a obra e a equipe podem ser acessados no Instagram do Instituto Zoravia Betiol; pelo telefone (51) 3354-2456 ou fazer parte dos Amigos do Instituto Zoravia Betiol e ajudar a Financiar o projeto.