Cultura
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Perla (de vestido vermelho, ao centro) promoveu uma intervenção artística no centro de Porto Alegre e na Feira do Livro: “Quis apresentar a literatura de forma performática e conectada à estética negra”.
Foto: Nilveo Pereira Christiano/Divulgação
A professora e pesquisadora Perla Sântos lança Zacimba e a Nobreza Negra (Editora Gaúcha, capa dura, 150 páginas, R$ 57), primeiro volume da Coleção Nobreza Negra, com foco infanto-juvenil. Com ilustrações de Roger Goulart e projeto gráfico de Rodrigo Keller, a obra resgata a ancestralidade, a nobreza africana e as histórias de reis, rainhas, príncipes e princesas invisibilizados ao longo do tempo. O lançamento ocorre nesta segunda-feira, 17 de novembro, às 19h30, dentro da programação geral da Semana da Consciência Negra 2025 da Assembleia Legislativa do RS.
Foto: Ed Gaúcha/DivulgaçãoO projeto Nobreza Negra é resultado de 2 anos de pesquisa e apresenta personagens históricos africanos, destacando que a África é um continente diverso, com 54 países e múltiplas tradições. No livro, Zacimba é uma menina negra silenciada que, após a morte da mãe, vai morar com a avó paterna e descobre sua missão: “reencantar o mundo com a força do axé” enquanto se conecta à ancestralidade e aos tronos africanos.
Foto: Nilveo Pereira Christiano/DivulgaçãoA obra já teve um lançamento de grande repercussão na Feira do Livro de Porto Alegre, onde filas se formaram para autógrafos. O livro também está disponível no site da editora.
Perla Sântos é doutoranda em Educação pela Ufrgs, professora da rede municipal há 14 anos e idealizadora do Movimento Meninas Crespas, premiado nacionalmente. Criadora da Papelaria Afroafetiva Pérolas da Perla (jogos didáticos), migrou do ambiente escolar para o editorial com produtos que valorizam a estética e a memória negra. Perla foi capa do Extra Classe em dezembro de 017 e em março de 2018 o projeto Meninas Crespas foi objeto de reportagem no jornal.
Extra Classe – Como surgiu a decisão de encerrar o Movimento Meninas Crespas?
Perla Sântos – Eu estive à frente do movimento por cerca de sete anos. Chegou um momento em que eu senti que precisava encerrar. Eu tinha uma ligação muito forte com a Restinga e percebi que era hora de me abrir a novas atividades. Conversamos, fizemos o espetáculo de despedida Mães d’Água e eu disse aos alunos: ‘Agora tudo que vocês aprenderam, vocês vão levar para a vida’. Hoje acompanho o crescimento deles e isso me alegra muito.”
EC – O projeto continuou com alguém no seu lugar?
Perla – Não. O movimento encerrou ali. Os desdobramentos agora são os próprios adolescentes levando para o mundo o que aprenderam.”
EC – E como você passou da sala de aula para o mundo editorial?
Perla – O jogo Bafo Afro me deu visibilidade nacional. Dei entrevistas, apareci na GloboNews, na revista Raça. As pessoas começaram a pedir os materiais que eu criava. Então era cadernos, jogos e outras ideias que ganharam vida. Em 2023 participei da Expo Favela, fiquei entre os dez empreendedores que representaram o RS e, depois de uma entrevista, a Editora Gaúcha me convidou para transformar meus cadernos em livros.
EC – O primeiro manuscrito acabou descartado. Por quê?
Perla – No início, escrevi uma versão muito dura, muito histórica. Era correto, mas não tocava o leitor. O editor disse que aquilo não funcionaria. Pedi um tempo, estudei muito, mergulhei em histórias, infância, ancestralidade. Criei uma narrativa que dialogasse com as emoções.”
EC – Por que contar a história a partir de uma menina atual?
Perla – Porque eu queria que as crianças se vissem. Eu escrevi pensando na menina negra que eu fui e nas ausências de representatividade. Zacimba é uma menina que não gosta da própria imagem, que se diz ‘morena’. A avó explica ancestralidade, oralidade e o sentido das palavras. A avó é a matriarca que ensina o que a escola ainda não ensina.

Foto: Nilveo Pereira Christiano/Divulgação
EC – Qual é o papel do Racismo na história, já que ele é um personagem?
Perla – O racismo é o grande vilão. Ele aparece como o ‘Devastador de Oris’. Em (idioma) iorubá, ori significa cabeça. Então essa energia simbólica habita oris fracos, colocando ideias de superioridade ou inferioridade. Zacimba precisa se fortalecer para derrotá-lo.
EC – O livro também apresenta seres mágicos africanos. Por quê?
Perla – Porque a diáspora nos afastou de elementos fundamentais da nossa cultura. Trago as azizas, fadas africanas; o Adze, vampiro africano; seres da mata, monstros, mitologias. A criança aprende sobre nobreza, mas também sobre imaginário, espiritualidade e tradição.
EC – Como foi a construção da estética do lançamento?
Perla – Sou artista, sou de terreiro, sou da dança. Quando o livro ficou pronto, pensei: ‘Como faço isso chegar onde tem que chegar?’. Apostei nas redes sociais e desenvolvi com a editora uma campanha sobre a ‘nobreza da atualidade’. Fizemos fotos, vídeos, teasers. Quis apresentar a literatura de forma performática e conectada à estética negra.
EC – E como foi a recepção na Feira do Livro?
Perla – Surpreendente. O editor me preparou dizendo que talvez poucas pessoas aparecessem. Mas quando cheguei, havia fila antes do horário. Autografei sem parar. Crianças e adultos usavam as coroas que acompanham o livro. Quando terminei, parecia que a feira inteira conhecia Zacimba. Foi emocionante.
EC – Como você concilia dança, escrita, docência e criação?
Perla – Eu escutei de uma entidade: ‘Se fosse para ser igual a todo mundo, você nem precisava ter nascido’. Aquilo me libertou. Eu crio porque é assim que o mundo faz sentido para mim. A arte atravessa tudo que eu faço. E eu quero que a literatura negra também atravesse a vida das pessoas.
Dia 19/11(quarta-feira)