Cultura
Formação gratuita para educadores sobre música erudita de forma lúdica
Atividade conduzida pelo diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Lisboa apresenta estratégias pedagógicas para aproximar…

Vitor Ramil revisita Tambong, álbum lançado em 2000, que completa 25 anos
Foto: Ariel Cavotti
Em meados de setembro de 1999, em Passo Fundo, Vitor Ramil conversou com o Extra Classe entre cálices de vinho tinto, durante uma das edições da Jornada de Literatura. Se falou no estereótipo do gaúcho, ele adiantou um texto que estava escrevendo à época e que versava sobre a estética do frio. Também foram tema da conversa a sofisticação da milonga, as influências de Jorge Luis Borges e Ítalo Calvino em seu trabalho e concepções. E, no meio de tudo isso, e um pouco mais, prenunciou o álbum que estava em fase de produção para ser lançado no ano seguinte.
“Será um disco bastante plácido, como se fosse um disco de milongas, só que com canções que não são milongas. Vai ter mais ritmo, percussão. É o que chamo de ‘estética do frio’. Pela primeira vez, eu vou tentar realizar isso em termos de música brasileira, e não tão regional. O que pretendo é aplicar alguns valores estéticos extraídos da nossa identidade regional nessas novas canções: concisão, leveza, precisão, clareza e profundidade.”
O álbum viria a se chamar Tambong e, hoje, um quarto de século depois, tornou-se um dos mais populares de sua carreira. Suas músicas fazem parte do setlist de grande parte dos shows até hoje.
Para comemorar esses 25 anos, Vitor Ramil apresentará o show Tambong – 25 anos, no Teatro Simões Lopes Neto – porta principal do Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1089), anexo do Theatro São Pedro, em Porto Alegre.
No espetáculo, Vitor Ramil percorrerá memórias que marcaram o lançamento de um dos álbuns mais emblemáticos de sua discografia e o primeiro a ser gravado em Buenos Aires.
Ele apresentará canções como Não é Céu, Espaço, Grama Verde e Foi no Mês que Vem, entre tantas que compõem o trabalho que considera um dos mais queridos do público.
“Vai ser um sonho voltar a este momento especial da minha vida, que segue sem perder tempo, mas sem pressa”, diz o músico.
“Aliás, a palavra ‘Tambong’ me surgiu num sonho. Quando a gente foi para o Rio de Janeiro para gravar as participações do Lenine, do João Barone e do Egberto, uma noite lá eu sonhei que dizia para o Pedro que o disco ia se chamar Tambong, porque essa palavra tinha os sons de tango, samba, bossa, candombe e milonga. Falei assim para ele, no sonho, né? E me acordei no meio da noite e anotei a palavra. No outro dia de manhã estava escrito ali, eu lembrei do sonho e aí falei para ele, e ele adorou e tal, curtiu e ficou. Foi assim que surgiu o nome do disco.”
“Parte do repertório eu já gravara em À beça, disco que fora lançado em edição especial de pequena tiragem em 1995, cujas canções eu gostava muito e não queria que ficassem perdidas. Em 1997, eu lançara Ramilonga – A estética do frio, no qual criara novas bases para seguir em frente. Tambong foi o primeiro passo depois desse período de muita criatividade.”
Tambong foi gravado em dois idiomas, português e espanhol. A decisão de fazê-lo aconteceu quando Vitor esteve em Buenos Aires a pedido de Mercedes Sosa, que queria cantar Não é Céu e pediu sua ajuda para fazer a versão da letra em espanhol.
Nesse período, ele também se dedicou a fazer as versões das demais músicas que, mais tarde, iriam compor a edição em espanhol. Na semana em que passou trabalhando em sua casa, encontrou-se com o músico, compositor e produtor Pedro Aznar e, pela primeira vez, conversaram mais seriamente sobre gravar Tambong, que contou com a participação de músicos argentinos, como o percussionista Santiago Vázquez, além dos brasileiros Egberto Gismonti, Lenine, Chico César e João Barone.
Também fazem parte do roteiro do show que celebra Tambong as músicas Espaço, Um dia você vai servir a alguém (Gotta Serve Somebody), O velho León e Natália em Coyoacán, A ilusão da casa, Valérie, Só você manda em você (You’re a Big Girl Now), Subte, Para Lindsay, Estrela, Estrela, À beça e Quiet Music, além de canções de trabalhos posteriores identificadas com o álbum que está sendo celebrado.
E mais algumas surpresas: uma música de Charly García, recentemente versionada por Vitor para o português; uma canção do álbum À beça e outra do Longes. No show, cujo cenário traz imagens do fotógrafo Facundo Zuviría, estarão com Vitor o baterista e percussionista Alexandre Fonseca e o baixista Edu Martins, seus colaboradores no recente álbum Mantra Concreto.
Que a obra de Vitor Ramil é atravessada pela literatura já é sabido. Se em Ramilonga – A estética do frio ele perpassa Calvino no texto que acompanha o álbum, em que apresenta seu manifesto sobre a milonga, em Tambong o artista se vale do espírito da frase “Não perca tempo, mas não tenha pressa”, de José Saramago, para escrever o texto de apresentação do álbum.
“A produção se desenrolara com muita desenvoltura e objetividade, mas minha sensação fora de que os trabalhos haviam começado muito tempo antes de entrarmos em estúdio, na calma do correr da vida”, recorda.
No mesmo texto, Vitor evoca seu avô Manuel Ramil, espanhol, anarquista e marceneiro-entalhador, que, sem saber, dera-lhe um modelo de arte e uma obsessão pela forma que começava a ganhar contornos naquele disco.
“Era meu primeiro trabalho gravado em Buenos Aires (viriam mais quatro), ecoando também meu pai, Kleber, uruguaio, e nossas viagens ao Prata em família, quando eu era criança. Eu continuava a amar aquela atmosfera onde costumava ver meu pai feliz. A felicidade estivera em Tambong também, inevitável.”
Foto: ReproduçãoVitor coloca em perspectiva: “Já fazem 25 anos daquele álbum feito sem perder tempo, mas sem pressa. Voltar a ele é voltar às sensações que promoveu. E aos encontros.”
A produção foi de Pedro Aznar. Teve participações de Egberto Gismonti, Lenine, João Barone e Chico César, que estava na Argentina e apareceu de surpresa.
Além dos brasileiros – “incríveis”, adjetiva Vitor – músicos argentinos igualmente “incríveis”, a começar pelo próprio Pedro Aznar e por Santiago Vázquez, percussionista que se tornaria seu parceiro em muitos discos e concertos, no Brasil e no exterior.
No Tambong foi a primeira vez que Vitor trabalhou com o percussionista Santiago Vázquez. “A gente queria buscar um percussionista assim, muito original, diferente, e o Pedro me sugeriu ele porque achou que ele tinha tudo a ver comigo e tal. E o Santiago tem aquelas viagens. Chegou no estúdio cheio de brinquedos, coisa e tal, inclusive com uma cítara que ele tinha encontrado na rua encostada numa árvore, toda desafinada, toda enferrujada, e tocou para nós. Aí disse: ‘Bah, vamos usar isso aí na música Espaço. Não, sem afinar, sem nada, como tá’. Então, o que se ouve em Espaço, aquele som que muita gente pensa que é uma coisa eletrônica, é isso: uma cítara encontrada na rua e gravada na condição em que ela tava mesmo, né? Faltando corda e toda mal.”
“Tambong se tornou um de meus trabalhos mais queridos pelo público. De fato, ele começara antes de entrarmos em estúdio. Parte do repertório eu já gravara em À beça, disco que fora lançado em edição especial de pequena tiragem em 1995, cujas canções eu gostava muito e não queria que ficassem perdidas. Em 1997, eu lançara Ramilonga, no qual criara novas bases para seguir em frente. Tambong foi o primeiro passo depois desse período de muita criatividade”, conta.
Tambong foi gravado em duas versões e dois idiomas, português e espanhol. Reúne as seguintes canções: Não é Céu, Espaço, Grama Verde, Um dia você vai servir a alguém (Gotta Serve Somebody), Foi no Mês que Vem, O velho León e Natália em Coyoacán, A ilusão da casa, Valérie, Só você manda em você (You’re a Big Girl Now), Subte, Para Lindsay, Estrela, Estrela, À beça e Quiet Music.
“A maior parte dessas canções eu costumo tocar até hoje, tal foi a sua repercussão e tal é o apreço que tenho por elas. Eu não estava errado em querer salvar o repertório de À beça. Além dele, há duas versões para canções de Bob Dylan, um poema de Allen Ginsberg, outro de Paulo Leminski (a primeira de uma parceria que acabo de consolidar no álbum Mantra Concreto, dedicado à sua poesia), uma letra minha em espanhol e outra em inglês, e o resgate de Estrela, Estrela, de meu obscuro primeiro disco”, reafirma.
O recente álbum Mantra Concreto conversa muito com Tambong, segundo o próprio compositor. “Não tanto pelos versos de Paulo Leminski, mas pelo resultado mesmo, pela sonoridade. Por isso convidei Alexandre Fonseca e Edu Martins, meus coprodutores e músicos desse novo trabalho, para recriarem comigo as canções tão basilares da minha carreira em seu aniversário de 25 anos. Alexandre esteve comigo em À beça e Ramilonga; Edu é parceiro mais recente, mas constante”, explica.
Em síntese, Vitor antecipa que o show Tambong – 25 anos apresentará todo o repertório do disco, mais algumas canções de trabalhos posteriores identificadas com o álbum que está sendo celebrado. O espetáculo também contará com luz e projeções de Isabel Ramil, filha de Vitor e artista multimídia premiada e reconhecida no meio das artes visuais.
INGRESSOS – As entradas podem ser adquiridas na bilheteria do Theatro São Pedro nas seguintes faixas: plateia baixa (R$ 200,00); plateia alta (R$ 180,00); balcão inferior (R$ 120,00); galeria (R$ 80,00). Acesse o link
Dias: 7, 8, 9 de novembro (sexta e sábado, 20h, e domingo, 18h)
Local: Teatro Simões Lopes Neto – Porta principal do Multipalco Eva Sopher (Riachuelo, 1089)
Venda de ingressos: site do Theatro São Pedro