Cultura
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Fotos: Divulgação
De 13 de setembro a 30 de novembro, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), em Porto Alegre, apresenta a exposição Giselle Beiguelman – Naturezas desviantes, com curadoria de Eder Chiodetto. A mostra ocupa as três pinacotecas principais e reúne instalações, vídeos e experiências participativas que discutem como o preconceito se infiltra na linguagem científica, além do impacto ambiental das tecnologias digitais.
Entre as experiências está um ponto de coleta de lixo eletrônico, incorporado à obra Beleza corrosiva, que conta também com a participação do artista gaúcho Leo Caobelli. A partir do material recolhido, ele cria paisagens, poemas e narrativas visuais.
A exposição reúne, pela primeira vez de forma integrada, três trabalhos já exibidos em instituições no Brasil e no exterior: Botannica tirannica, Venenosas, nocivas e suspeitas e Beleza corrosiva. Juntas, as obras criam diálogos entre si e transformam o Margs em um espaço de reflexão crítica sobre arte, ciência e ativismo.
Beiguelman destacou o simbolismo de ocupar o Margs após a enchente histórica de 2024.
“Preencher este lugar com plantas vivas e fictícias, num momento tão especial de sua recuperação, reforça as pautas de ‘Naturezas desviantes’ e dá à exposição um sentido de urgência política e de esperança”, afirmou.
Segundo o curador Eder Chiodetto, a produção da artista “é uma das mais potentes manifestações da arte contemporânea brasileira, capaz de partir do encanto pela flora para expor conteúdos racistas, misóginos e coloniais naturalizados no cotidiano”.
O diretor-curador do Margs, Francisco Dalcol, ressaltou a relevância da mostra: “É uma satisfação apresentar este projeto no programa Poéticas do agora, que valoriza artistas com produção atual e pesquisa experimental. Giselle Beiguelman é referência nas interseções entre arte e tecnologia na produção brasileira contemporânea”.

A pesquisa de Beiguelman parte da história de plantas estigmatizadas e proibidas, muitas delas ligadas à saúde feminina, usadas em cuidados pós-parto, no alívio de cólicas menstruais e em abortos
Foto: Cecília Bastos/USP
Os três trabalhos de Beiguelman já foram exibidos anteriormente em importantes instituições e eventos. “Botannica Tirannica” estreou no Museu Judaico de São Paulo (2022), seguindo para a Bienal de Karachi, no Paquistão (2022), o Museu Sartorio, em Trieste, na Itália (2023), e o Koffler Arts, em Toronto, Canadá (2024), além de outras cidades brasileiras. Já “Venenosas, Nocivas e Suspeitas” estreou na Fiesp, em São Paulo (2025), e “Beleza Corrosiva“, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo (2025).
Segundo o curador, “a obra de Giselle Beiguelman, que desponta de forma pioneira no fim dos anos 1990, vem se reinventando continuamente no entrecruzamento entre tecnologia, cultura digital e estética crítica, configurando-se como uma das mais originais e potentes manifestações da arte contemporânea brasileira. Mais do que experimentar as máquinas no processo criativo, Beiguelman passou a problematizar suas linguagens e a desvelar, de maneira incisiva, as estruturas obscuras de poder, bem como os jogos hierárquicos e perversos que atravessam a história da humanidade. Como se observa nos três projetos realizados nos últimos cinco anos, reunidos na mostra Naturezas Desviantes, sua obra-manifesto incorpora poéticas e sutilezas inesperadas, capazes de provocar altos níveis de interação e encantamento no público”.
Botannica tirannica: reinventa, com inteligência artificial, nomes de plantas carregados de estigmas, como Maria-sem-vergonha, Olho-de-mouro e Judeu-errante, criando um “jardim da resiliência”.
Venenosas, nocivas e suspeitas: resgata plantas proibidas ou apagadas pelo processo colonial, narrando suas memórias a partir da estética de mulheres invisibilizadas pela arte e pela ciência.
Beleza corrosiva: discute o impacto ambiental das tecnologias com um vídeo criado por inteligência artificial e um processo colaborativo de doação de lixo eletrônico.

Foto: Everton Amaro/Fiesp/Divulgação
Durante a Inquisição, mulheres foram queimadas vivas por manipular plantas com fins medicinais e ritualísticos. A perseguição da Igreja Católica contribuiu para demonizar a relação entre mulheres e plantas — associação reforçada pela narrativa bíblica de Eva e o “fruto proibido”.
Essa memória é retomada pela artista visual e professora da USP Giselle Beiguelman em Venenosas, Nocivas e Suspeitas. A mostra reúne imagens e vídeos produzidos com inteligência artificial (IA), apresentados ao lado de diferentes espécies vegetais.
A pesquisa de Beiguelman parte da história de plantas estigmatizadas e proibidas, muitas delas ligadas à saúde feminina, usadas em cuidados pós-parto, no alívio de cólicas menstruais e em abortos. “Foi ficando cada vez mais evidente o apagamento ao qual essas cientistas, artistas, bruxas e feiticeiras foram submetidas. Então, quanto saber se perdeu nas fogueiras da Inquisição”, afirma a artista, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP.
Entre as homenageadas nas obras estão três naturalistas brasileiras: Maria do Carmo Vaughan Bandeira (1902-1992), primeira botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro; Constança Eufrosina Borba Paca (1844-1920), ilustradora que participou de expedições científicas lideradas pelo marido, o botânico João Barbosa Rodrigues (1842-1909); e Luzia Pinta, ex-escravizada que atuava como botânica em Minas Gerais no século 18 e foi enviada a Portugal para responder à Inquisição sob acusação de feitiçaria.
Local: Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) – Praça da Alfândega, s/nº, Centro Histórico, Porto Alegre
Abertura: 13 de setembro, às 10h30
Visitação: até 30 de novembro, de terça a domingo, das 10h às 19h (último acesso às 18h)
️ Entrada gratuita
Mais informações sobre programação educativa, debates e workshops estão disponíveis no Instagram da exposição.