Cultura
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Foto: Reprodução/Zender Produção Cultural
A BR-116 é uma das principais rodovias do Brasil, atravessando dez estados, mas em Canoas ela assume um caráter particular: torna-se uma espécie de fratura urbana. É a partir desse corte na paisagem que nasce Um Filme de BR, documentário dirigido pelo cineasta Wender Zanon, que utiliza a estrada não apenas como cenário, mas como dispositivo narrativo.
Um Filme de BR encerra a trilogia documental de Wender Zanon sobre Canoas, iniciada com This is Canoas, not Poa (2021) e seguida por Ensaios sobre uma Cidade (2022).
No documentário, durante uma hora e cinco minutos, quatro pesquisadores aparecem percorrendo a BR-116 em Canoas, no Rio Grande do Sul, em busca de personagens cujas vidas se entrelaçam com a rodovia. A estrada, que liga Fortaleza (CE) a Jaguarão (RS), corta Canoas como uma fissura, dividindo a cidade e percorre o país. O documentário apresenta depoimentos de moradores e trabalhadores que compartilham memórias atravessadas pelo convívio com a estrada.
“O filme usa a BR como uma ‘desculpa’ — ou melhor, como um dispositivo — para chegar às histórias de vida, que são o que realmente nos interessa”, explica. A inspiração vem diretamente do cinema de Eduardo Coutinho: “É um filme de conversa, um tributo a Coutinho. Entre muitas referências, uma foi central desde a semente da ideia: horizontalizar o edifício master do Coutinho. Lá ele filmava um condomínio; aqui filmamos uma rodovia, carregada de significados, associada tanto ao desenvolvimento da cidade quanto aos nossos próprios desenvolvimentos, como comunidade e como indivíduos.”
O lançamento ocorre em duas datas: no dia 27 de setembro, sábado, às 17h, no Sesc Canoas, e em 8 de outubro, quarta-feira, às 19h, no Cinema Capitólio, em Porto Alegre.

A BR-116 é uma das principais rodovias do Brasil, atravessando dez estados, mas em Canoas ela assume um caráter particular: torna-se uma espécie de fratura urbana
Foto: Lúcia Marques/Divulgação
O gesto de caminhar à deriva pelo trecho urbano da BR, durante dois meses, foi o ponto de partida do processo criativo. A experiência, segundo Wender, surgiu de sua imersão na obra de Coutinho. “Lembro de uma frase dele, sobre prisões: ‘Você impõe regras a si mesmo. O fato de você escolher sua prisão te dá uma liberdade absoluta’. O recorte geográfico da BR, o trecho que corta a cidade e suas limitações, nasceu dessa lógica: impor uma regra para encontrar liberdade criativa.” A caminhada, ao mesmo tempo restritiva e libertadora, abriu espaço para que a equipe enxergasse os personagens e o território com outra profundidade.
Ao longo do percurso, dezessete pessoas foram encontradas e tiveram suas histórias registradas. O diretor evita destacar uma ou outra narrativa para não revelar demais, mas descreve o material coletado como um mosaico de vidas comuns que carregam amores, perdas, abusos, trabalho e rotinas atravessadas pela estrada. “São relatos que nos movem, mas que muitas vezes passam despercebidos ou sem o afeto devido quando cruzamos com alguém no dia a dia”, observa.
Esse painel de histórias individuais, quando reunido, acaba compondo também uma leitura coletiva do Brasil contemporâneo. Para Wender, questões centrais emergem dos depoimentos, como a rotina exaustiva de trabalho que impede muitos de investir em sua própria profissionalização. “Também vejo o filme como um espaço de contradições, tanto pelas escolhas narrativas e estéticas quanto pelas histórias que trazem dualidades muito humanas. Viver é se expor, e nem sempre as coisas saem como planejamos — e tudo bem”, reflete.

Um Filme de BR encerra a trilogia documental de Wender Zanon sobre Canoas, iniciada com This is Canoas, not Poa (2021) e seguida por Ensaios sobre uma Cidade (2022)
Foto: Lúcia Marques/Divulgação
A realização de Um Filme de BR só foi possível graças ao incentivo da Lei Paulo Gustavo, que destinou recursos a projetos culturais em todo o país. Para o cineasta, esse tipo de política pública dialoga diretamente com a proposta descentralizadora do filme. “Cresci cercado de referências locais — grupos de teatro que faziam festivais, bandas que ocupavam bares com música autoral —, e isso foi muito marcante na minha formação. Carrego essa vontade de enxergar beleza nesses lugares brutos por onde passamos todos os dias. Muitas cidades da Região Metropolitana têm espaços descuidados, feios, marcados por um certo abandono. Mas cabe a nós, artistas e trabalhadores da cultura, propor vida nesses espaços, ocupá-los, revelar suas histórias e beleza.”
O diretor ressalta ainda a transformação do imaginário sobre Canoas e cidades semelhantes, antes vistas apenas como “cidades-dormitório”: “Esse recurso via edital chega para injetar força criativa e econômica nos municípios, movimenta a cadeia de trabalhadores locais, gera renda e histórias. E mostra que cidades que um dia foram vistas apenas como ‘cidades-dormitório’ há muito tempo já se transformaram em algo bem diferente.”
Com este trabalho, Zanon conclui um ciclo iniciado em 2021 com This is Canoas, not Poa, que mapeou a cena musical local e mostrou como gerações de roqueiros criaram espaços próprios diante da força simbólica da capital, Porto Alegre.
Em 2022, no segundo filme, Ensaios sobre uma Cidade, o foco foi o monumento do avião — símbolo da cidade, localizado na própria BR-116 — e seus vínculos com processos de militarização e identidade urbana.
Agora, em Um Filme de BR (2024), o diretor volta-se para a rodovia em si, revelando tanto a função de ligação entre cidades quanto sua condição de fronteira que corta Canoas ao meio.
Mais do que retratar a rodovia, o documentário busca histórias de vida. Ao longo de dois meses, quatro pesquisadores caminharam pela BR-116 em Canoas em busca de personagens.
Foto: Jéssica Nakaema/Divulgação
“É um filme de conversa, um tributo ao cinema de Eduardo Coutinho”, explica Zanon. Ele destaca que a escolha metodológica foi inspirada em Coutinho: “Impor limites pode abrir um campo de liberdade. No nosso caso, o limite foi o recorte geográfico da rodovia”.
O resultado é um painel de 17 personagens, que compartilham experiências de trabalho, afetos, perdas e violências cotidianas. Vidas que muitas vezes passam despercebidas no fluxo veloz da estrada, mas que revelam a ambivalência entre o ritmo acelerado da rodovia e o tempo mais lento das comunidades locais.
Extra Classe – Qual foi o start para o documentário “Um filme de BR”?
Wender Zanon – Quando editava o “This is Canoas, not POA!”, sinto que fui “contagiado”, sabe? Tava tirando uma ideia do papel que eu tinha há quase dez anos, tava falando de uma cena musical muito afetiva e importante pra mim, tinha conhecido muitas gente e muitas histórias novas e tava fazendo um filme pela primeira vez. E aí sinto que empolgado por todo esse contexto, parece que abri aquela gaveta de ideias da cabeça, haha. A BR é muito presente e significativa pra quem é da cidade e região. E aí uma das perguntas que eu fazia na entrevista do This is Canoas, era algo sobre “Como você apresentaria a cidade pra quem não conhece?” ou “pra onde você levaria um turista?” ou ainda “quais os locais importantes da cidade?”. E aí tem coisa que o cara acha que é viagem individual ou de um grupo de amigos, mas é uma viagem coletiva, maior do que se pensa, né? E ai muita gente falava da BR, citava características, tanto que o “This is Canoas” abre com imagens de drone da BR. E acho que ali começo a ligar uns pontos e também era um momento que eu tava estudando bastante documentário e veio essa ideia de horizontalizar o “Edifício Master”, do Eduardo Coutinho. Aí esse filme acaba sendo um farol, um pilar da ideia. Outras influências e referências são somadas, mas acho que esse é o inicio de toda essa semente da ideia do filme de BR.
EC – Qual eixo une os filmes da trilogia sobre Canoas e em que ponto o regional se torna universal do ponto de vista dos realizadores e na forma que vocês apresentam os filmes?
Wender – O que une a trilogia é que os três filmes nascem num mesmo período de tempo que é o tempo da edição do This is Canoas. Ao menos o inicio da ideia de cada filme. E além disso são três filmes que abordam Canoas, utilizam o município para falar sobre outros temas. Então tem esse recorte geográfico. O “This is Canoas, not POA!”, fala sobre a cena roqueira da cidade dos últimos 40 anos, mas ter banda e produzir seu próprio show e circuito é algo que acontece em todo canto do mundo, não é algo exclusivo da cidade. Lá, a gente apresentava a história a partir de uma perspectiva de espaços por onde a música e as pessoas se encontram e fazem acontecer. E isso é algo recorrente. Claro que quem é de cidade do interior e cidades metropolitanas vai acabar se identificando mais com os mesmos problemas. Já o segundo filme “Ensaios sobre uma cidade” abordava a preservação de patrimônio, de histórias e apresenta o avião da Praça e apresenta a “Politica” por trás desse cartão postal da cidade. Ou seja, ali a gente usa um símbolo militar pra falar de uma herança da ditadura brasileira que na cidade, ao menos eu sinto que, não é muito discutida e falada. E certamente, existem outras heranças aí espalhadas pelo Brasil e mundo que servem de cartão postal, mas na verdade apresentam e representam outras histórias. Já em “Um filme de BR”, usamos esse recorte da BR para apresentar histórias de vida e para documentar o cotidiano da BR. Porém, quem caminha e quem vivencia a BR vê carro (obviamente), mas também vê e escuta outras coisas. E sinto que o filme se preocupa mais com essas outras coisas, esses outros modos e outros tempos de experimentar esse local tão agitado e tão corrido.
Foto: Divulgação
EC – Uma vez fechada a trilogia, enquanto diretor inquieto e sempre em fase de criação, o que tem pela frente enquanto realização de longa metragem?
Wender – No momento estamos trabalhando na adaptação do gibi “Gosto Estranho”, que lancei com Erico Noronha em 2023. O Flavio de Castro, que é um produtor experiente de Porto Alegre, gostou do gibi e propôs que a gente fizesse uma adaptação. Então, no momento estamos organizando e focados nisso. Curioso é que imerso nessas pesquisas sobre a cidade acabei conhecendo a história da Carne de Chernobyl e que parte dessa carne foi estocada em Canoas. Então, o gibi ficcionaliza essa história, bem aos moldes de filmes B, que é uma outra narrativa que se passa em Canoas, especificamente ali no bairro Mato Grande.
Existem outras ideias que precisam ser germinadas aí, precisam de um tempo de ócio e de mais estudos pra virar algo mais concreto. O que mais fico feliz ao finalizar essa trilogia é também poder levar as ideias adiante. Tirar da cabeça, botar num papel, produzir e executar. No meio de tudo isso tem muito processo que o cara vai aprendendo mil coisas, vai se contagiando e acho que isso estimula também que outros projetos, não só meus, nasçam aí.
Projeto realizado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022.
Direção: Wender Zanon
Produção: Mariana Abreu e Wender Zanon
Assistência de produção: Bárbara Velasque, Luiz “Cisco” Zanovello, Marcelo Militão e Vitor Cunha
Pesquisa: Bárbara Velasque, Eloísa Batista, Júlia Tarragó e Vitor Cunha
Direção de Fotografia: Daniel Candido de Bem, Bárbara Velasque, Eloísa Batista, Júlia Tarragó e Vitor Cunha
Montagem: Daniel Candido de Bem
Correção de cor: Vitor Cunha
Som direto: Ivan Lemos
Trilha sonora: Marcelo Armani
Pós-produção de áudio: Jonas Dalacorte
Foley: Ivan Lemos e Daniel Candido de Bem
Design gráfico: Jéssica Nakaema
Fotografia still: Lucia Marques
Assessoria de imprensa: Silvia Abreu
Tradução e legendas: Thays Prado
Audiodescrição: OVNI acessibilidade universal
Intérprete de libras: O Estranho
Apoio: Arquivo Histórico Municipal de Canoas, Biblioteca Pública Municipal João Palma da Silva, Museu Municipal Parque dos Rosa Legumansa, Locall e Real Serigrafia