Cultura
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Personalidade de múltiplos talentos, Millôr é possivelmente o profissional mais relevante do século, por seu humor e ironia a serviço do jornalismo, do humor e da dramaturgia
Foto: Cynthia Brito/ Wikimedia Commons
A terceira edição do Millôr Day, celebração anual em homenagem ao nascimento do multiartista Millôr Fernandes será realizada nesta quinta-feira, 14, às 19h, na programação do Ecarta Anfitriã, da Fundação Ecarta (João Pessoa, 943) em Porto Alegre.
Para lembrar vida, obra e o imaginário do jornalista escritor, dramaturgo, tradutor e chargista, o 3º Millôr Day inovou na programação, com um bate-papo sobre humor, com convidados especiais, e o lançamento do livro Humor em tempos de cólera: a crônica de Gregório Duvivier e o (des)governo Bolsonaro, de Breno Serafini, publicado pela Editora Parangolé. A obra analisa, sob o viés do humor, a crítica política em tempos de crise e polarização.
A roda de conversa pautada pela verve do Millôr será entre Cláudio Levitan, músico, arquiteto e desenhista, conhecido pelo personagem professor Kanflutz, do icônico espetáculo Tangos e Tragédias; Katia Suman, produtora cultural, comunicadora e integrante do coletivo Sarau Elétrico; e o colunista do Extra Classe, Fraga (José Guaraci), escritor, publicitário, editor e um dos mais célebres representantes dos cartunistas gaúchos, com sua visão única e engraçada do mundo.
A curadoria e organização do evento são do escritor Breno Serafini e do psicanalista Abrão Slavutzy, ambos estudiosos da linguagem do humor. Slavutzy é autor de Humor é coisa séria (Arquipélago, 2014) e coautor de Seria trágico se não fosse cômico (Civilização Brasileira, 2005).
Serafini escreveu Colloríssimo (AGE, 2016) e Millôres dias virão (Libretos, 2013), entre outros. A primeira edição do Millôr Day foi realizada em agosto de 2023, na sala Álvaro Moreyra do Centro Municipal de Cultura, com o cartunista Santiago. Em 2024, a segunda edição aconteceu na Livraria Paralelo 30, com a presença de Cláudia Tajes e Hique Gomez. O Millôr Day é um espaço para refletir com bom humor sobre política, cultura e comportamento, preservando o espírito crítico e bem-humorado do jornalista e escitor falecido em 2012, aos 88 anos, autor de tiradas como “A vida seria muito melhor se não fosse diária” e “A morte é compulsória, a vida não”.
Arte: Charge de Millôr Fernandes/ Acervo IMS/ ReproduçãoPor descuido dos pais, Millôr Fernandes acabou registrado quase um ano depois do nascimento, ganhando como data oficial o dia 27 de maio de 1924. No ano seguinte, seu pai Francisco Fernandes morreu subitamente, aos 36 anos de idade, deixando sua mãe Maria Viola Fernandes viúva aos 27 anos, com quatro filhos para criar. Em 1934, perdeu a mãe para o câncer. Millôr e os irmãos são separados. O menino, então com 11 anos, foi morar com a avó em um quarto no fundo do quintal da casa do tio materno Francisco, na Estrada Nova da Pavuna.
Fã de histórias em quadrinhos, copiava quadro por quadro as aventuras de Flash Gordon, de autoria de Alex Raymond. Na opinião do próprio Millôr, essa foi a “maior e mais legítima influência” em sua formação de humorista e escritor. Estimulado pelo tio Antônio, envia um desenho para o periódico carioca O Jornal. O trabalho é aceito e publicado, lhe rendendo 10 mil réis como pagamento.
O dia 15 de março de 1938 marcou o início de sua profissão como jornalista; foi quando passou a trabalhar na revista O Cruzeiro. Para fortalecer os conhecimentos para sua carreira, matriculou-se no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, onde estudou entre 1938 e 1942. Aos 17 anos, adotou o nome artístico Millôr Fernandes, graças à péssima caligrafia do escrivão que transformava o nome Milton em Millôr.
Na revista A Cigarra, estreou em 1945, sob o pseudônimo Vão Gogo, a seção O Pif-Paf em parceria com o cartunista Péricles. No ano seguinte, lança Eva sem costela — Um livro em defesa do homem, assinando como Adão Júnior. Em 1948, casa-se com Wanda Rubino, com quem teve dois filhos: Ivan e Paula. Em 1949, lança o livro Tempo e Contratempo sob o pseudônimo Emmanuel Vão Gogo. Produz seu primeiro roteiro cinematográfico, “Modelo 19”. Em 1953, estreia sua primeira peça teatral, Uma mulher em três atos, encenada no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo.
Em 1957, Millôr expõe seus desenhos e pinturas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A partir de 1958, passa a manter sozinho a coluna O pif-paf, cuja página dupla semanal é sempre assinada com o pseudônimo Vão Gogo e suas variações. Isso só deixaria de acontecer em 1962, quando ele assume definitivamente o próprio nome. Em 1960, estreia no Teatro da Praça, no Rio, a peça Um elefante no caos, que rende a Millôr o prêmio de “melhor autor” da Comissão Municipal de Teatro. Em 1964, Millôr dá início à publicação de uma coluna semanal no Diário Popular, de Portugal, em parceria que durou dez anos. No ano seguinte, em parceria com Flávio Rangel, escreve o musical Liberdade liberdade, que estreia no Teatro Opinião, no Rio.
Em 1969, passou de fiel colaborador a uma das principais forças do jornal O Pasquim, quando grande parte do quadro colaboradores foi presa pela ditadura militar. Em 1970, com a redação desfalcada de alguns de seus principais nomes, Millôr e Henfil, com a ajuda de Chico Buarque, Glauber Rocha e Odete Lara, entre outros amigos, se esforçaram para manter em funcionamento o jornal, que não deixou de circular uma só vez. Millôr acabou assumindo a presidência do Pasquim em 1972, reorganizou as finanças do semanário, salvando-o da falência, mas decide sair em 1975, sem apoio da equipe. Em 1976, escreve para Fernanda Montenegro a peça É…, que acabaria se tornando seu maior sucesso teatral, no Teatro Maison de France. Em 1980, Millôr conheceu a jornalista Cora Rónai, com quem manteria um relacionamento pelo resto de sua vida. Comemora 50 anos de jornalismo em 1988. Depois de trabalhar para vários jornais e revistas, adere ao computador e lança, em 2000, O Saite Millôr Online, no qual publicou novos textos e desenhos e resgata antigos trabalhos. A iniciativa, considerada pioneira na internet brasileira, acaba sendo um grande sucesso.
A ironia e a sátira que usava nos textos para criticar as forças dominantes tornaram-no alvo da censura. Em fevereiro de 2011, no Rio, sofre um acidente vascular cerebral isquêmico (AVC). Com a saúde fragilizada, morre em 27 de março de 2012, aos 88 anos de idade, em seu apartamento em Ipanema, zona sul do Rio. O corpo foi cremado no dia 29, no Cemitério do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro.
Com passagem marcante pelos veículos impressos mais importantes do país, Millôr é considerado uma das principais figuras da imprensa brasileira no século 20. Tinha orgulho, por outro lado, de sua atuação desportiva, sendo um dos inventores do frescobol que lançou na praia de Ipanema, com alguns amigos, em 1958. Em 6 de julho de 2012, foi homenageado com o batismo do Largo do Millôr, entre as praias do Diabo e do Arpoador. Em 27 de maio de 2013, ganhou um banco incorporado a um monumento com sua silhueta desenhada por Chico Caruso e batizado de O Pensador de Ipanema.
Um ano depois da morte de Millôr, seu filho Ivan dividiu o acervo deixado pelo pai em três partes. Os mais de 120 livros passaram para a agente literária Lucia Riff; a produção teatral ficou a cargo da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus); enquanto as ilustrações e arquivos pessoais foram transferidos para o Instituto Moreira Salles (IMS).
Evento: Millôr Day – 3ª edição
Data: 14 de agosto de 2025
Horário: 19h
Onde: Fundação Ecarta (Av. João Pessoa, 943) Farroupilha, Porto Alegre
Atividades: Bate-papo sobre humor Cláudio Levitan, Katia Suman, Fraga e lançamento do livro Humor em tempos de cólera, de Breno Serafini