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Formação gratuita para educadores sobre música erudita de forma lúdica
Atividade conduzida pelo diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Lisboa apresenta estratégias pedagógicas para aproximar…

O espírito solidário foi manifesto com o humor característico de Luis Fernando Verissimo
Foto: Igor Sperotto
Morreu na madrugada deste sábado, 30 de agosto, Luis Fernando Verissimo. A partida do homem que transformou o cotidiano em fina arte, com reflexões, humor e um texto brilhante deixa entristecidos a esposa Lúcia, os filhos Fernanda, Mariana e Pedro, e os netos Lucinda e Davi, além de amigos e milhões de leitores que encontraram em suas crônicas e personagens um Brasil mais divertido e inteligente. Foi um pouco antes das 2h30 no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. LFV como também era conhecido estava com 88 anos de idade. O velório ocorre no Salão Júlio de Castilhos, da Assembleia Legislativa entre 12 e 18 horas deste sábado.
Introspectivo, reservado, lacônico, tímido. Talvez estes adjetivos fossem muito recorrentes sobre a personalidade de Luis Fernando Verissimo. Sem dúvida, muito depois do genial. Já os mais próximos, ou quem buscava contato com o figurão arredio, no entanto acrescentavam outro: generoso; muito generoso.
Uma vez, cercado em sua própria casa por estudantes de comunicação da Unisinos, ele se rendeu. Mesmo após uma série de possíveis empecilhos citados por ele para declinar – uma cirurgia cardíaca agendada, por exemplo – pela primeira vez Luis Fernando Verissimo, o LFV, foi paraninfo de uma formatura. Era o início da década de 1990.
O último empecilho, expresso em um “mas, tem outro probleminha: o discurso” – talvez o maior, acima até de sua recuperação pós-cirúrgica – foi contornado por uma sugestão dada na hora: uma crônica exclusiva para o convite dos graduandos em Jornalismo, Publicidade e Relações Públicas que o viam com brilhos nos olhos.
O professor universitário paraense Carlos Augusto Carneiro Costa foi um dos tocados pela generosidade que transborda do solar dos Verissimo.
Carneiro Costa defendeu uma tese de Doutorado, convertida este ano no livro O difícil disfarce da dor – humor e memória do terror em Luis Fernando Verissimo (Editora Unimontes). A obra apresenta a inteligência refinada de LFV utilizada no período da ditadura militar sem banalizar o sofrimento das vítimas e dar sinais de alerta de um autoritarismo que ainda persiste no país.
Em 2024, já com o escritor combalido pelo Parkinson e com dificuldades de fala pelo AVC sofrido em 2021, o professor pediu para conhecer pessoalmente o responsável pelo seu objeto de pesquisa. Foi recebido por LFV. Teve uma conversa mediada por Lúcia, a esposa que alguns já disseram parecer ser a escritora de fato dos trabalhos que saíam da Toca do Porão, como é chamado o escritório de LFV no subsolo de sua casa.
Para Carneiro Costa, além da visita que ficará guardada em sua memória por toda a vida, essa empatia e a simplicidade de se colocar à disposição é característico de quem se solidariza e exala generosidade.
O espírito solidário foi manifesto com o humor característico de LFV. Em uma de suas entrevistas, na maioria das vezes respondidas por e-mail por motivos óbvios: “Sou socialista pela mais egoísta das razões, para não recomeçar a procurar o destino da minha espécie nos búzios, nas entranhas dos pássaros ou nas cotações da bolsa”, pontuou.

“Viva todos os dias como se fosse o último. Um dia, você acerta”
Foto: Igor Sperotto
Generosidade, introspecção, reserva, laconismo e timidez à parte, a genialidade é o que imortaliza LFV. Frases antológicas foram deixadas. Até sobre a inevitável: “A morte não me preocupa. O que me preocupa é o depois”; “A morte é uma injustiça”; “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra”.
A perspectiva de finitude, no entanto, não o paralisou. “Viva todos os dias como se fosse o último. Um dia, você acerta”, sentenciou uma vez.
Aquele que tinha tudo para ficar à sombra do pai, Érico, um dos gigantes da literatura brasileira, tornou-se um dos escritores mais vendidos e queridos do país.
Entre páginas amareladas de jornais e estantes de milhões de leitores, continuará habitando o homem que transformou o cotidiano em literatura e a ironia em fina arte.
Há, no entanto, a impressão de alguns de que LFV nunca tenha se levado a sério como escritor. Foi o que registrou uma vez Ivan Pinheiro Machado, seu editor por anos, ao crítico Geraldo Mayrink.
“Não sei se isso é um problema, um defeito ou uma qualidade. Mas tenho certeza de que essa não pretensão dele é uma coisa absolutamente sincera”, disse Pinheiro Machado em 1991.
Curiosamente, LFV ao falar do seu icônico Analista de Bagé confessou uma vez que nunca tinha se deitado em um divã. “É aquele negócio de as pessoas se levarem muito a sério”, declarou ao arrematar que não tinha nada contra a psicanálise, mas que não a via como “coisa de louco, mas coisa de rico”.
LFV criou uma galeria de personagens inesquecíveis. Muitos deles se tornaram monumentos da cultura brasileira após nascerem nas crônicas e tirinhas idealizadas na Toca do Porão. Refletiram e continuarão refletindo com humor e ironia os costumes, a política e as neuroses da sociedade.
O Analista de Bagé surgiu da ideia de explorar o contraste de um “grosso” exercendo uma profissão refinada. Nada mais, mas se esgotou em uma semana após seu lançamento em 1981.
O psicanalista que resolvia os problemas de seus pacientes de forma peculiar fez tanto sucesso que, além de uma versão em quadrinhos desenhada por Edgar Vasques e uma peça de teatro, consolidou LFV nacionalmente.
O senso crítico ou o não se levar a sério, na opinião de Pinheiro Machado, fez um dia o autor se resignar: “O fato de O Analista de Bagé ser o best-seller do momento, quando livros bem melhores e importantes não entram na lista dos mais vendidos, não é culpa minha. Mas não posso deixar de me sentir um pouco envergonhado”.
Dois anos antes (1979), parodiando os detetives do gênero noir norte-americano, LFV deu vida ao desastrado e quase famélico Ed Mort. “Fiz o curso por correspondência. Foi difícil. Tive de subornar o carteiro para passar”, lembrava o personagem.
Sempre envolvido em trapalhadas e sem dinheiro, Mort dividia com 117 baratas e o rato albino Voltaire um escritório tão pequeno em Copacabana que era chamado pela alcunha “escri”.
As encrencas do detetive de LFV viraram quadrinhos (desenhados por Miguel Paiva), adaptadas para o cinema, teatro e especiais de TV.
Também em 1979, surge aquela que era “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”, nas palavras de LFV.
A Velhinha de Taubaté começou depositando sua confiança no último governo da ditadura, o do general Figueiredo. Passou para o de Sarney, de Collor, Itamar, Fernando Henrique, mas sobreviveu apenas aos dois primeiros anos de Lula.
Em 2005, ela morreu em frente à TV. Aos 90 anos, estava decepcionada com o quadro político nacional, em especial com Antonio Palocci de quem era fã. Fortes suspeitas à época apontam para um possível suicídio.
Na década de 1990, a tradicional família de classe média nacional se viu transportada para tiras de HQ.
Com a Família Brasil, na realidade iniciada em 1989, LFV retratou como ninguém situações cotidianas como problemas financeiros, conversas constrangedoras e absurdas.
A saga rendeu a LFV o Troféu HQ Mix em 1986 de Melhor Tira Nacional para aquele que, com um texto magistral, chegou a dizer uma vez que preferia desenhar a escrever.
Não é à toa que neste ano de 2025, um par de ofídios completou 50 anos. As Cobras falavam de tudo, mas tinham obsessões como o espaço, Deus, o fim do mundo e futebol.
Em plena ditadura militar as serpentes não eram traiçoeiras, mas conseguiam passar recados nas entrelinhas, além de divertir muito seus fãs.
As serpentes existencialistas de LFV deram origem a outros seres na fauna do escritor: o corrupião corrupto Queromeu, as lesmas Shirlei e Flecha, a pulga Sulamita, o sapo romântico Felipe e Dudu, a terceira cobra que tinha medo de tudo, por isto conhecida como uma alarmista inveterada.
Tanta produção e criatividade que encanta multidões veio de outro adjetivo de LFV: Observador.
As tradicionais posturas de braços ou mãos cruzadas de LFV em frente a um interlocutor, ao contrário de uma característica de sua timidez e retraimento, possivelmente denotavam seus superpoderes de concentração e avaliação.
Por mais tímido que fosse, LFV não criava tantas barreiras entre pessoas e o ambiente.
Quando o historiador e sociólogo britânico Eric Hobsbawm esteve em Porto Alegre e fez questão de conhecer quem prefaciou a edição brasileira do seu livro A História Social do Jazz (Paz e Terra), LFV e Lúcia o receberam.
Foi em um belo jantar entre uma penca de intelectuais amigos como Moacir Scliar e Ruy Carlos Ostermann.
Lúcia, de braços abertos, LFV com os seus cruzados, no sofá, em meio ao bate-papo dos convivas. LFV observava atentamente a tudo e trocava uma ou outra palavra com o ilustre convidado que já estava avisado sobre o seu anfitrião.
Foi observando que LFV desenvolveu outras de suas paixões, o Jazz e o futebol.
Podem soar díspares à primeira vista, mas, a sofisticação improvisada dos solos e harmonias e a vibração coletiva das arquibancadas e das jogadas inesperadas foram universos que se encontraram no intelectual LFV.
O Jazz foi se lapidando nos anos que LFV passou com o pai Érico, a mãe Mafalda e a irmã Clarissa nos Estados Unidos. Lá, além de dar seus primeiros sopros em um saxofone, ele teve a oportunidade de assistir shows dos maiores músicos da época, como Charlie Parker e Dizzy Gillespie.
Mais tarde, desenhando e escrevendo por profissão, tocou por prazer seu sax em bandas como Renato e seu Sexteto e a Jazz 6; em suas palavras, o menor sexteto do mundo. Tinha cinco integrantes.
Já o futebol, LFV foi ter contato quando voltou ao Brasil. Ao contrário do pai que, de coração, era Cruzeiro de Porto Alegre e acabou optando pelo Grêmio pela similaridade das cores defendidas, o filho passou a torcer pelo Internacional.
Em rara entrevista presencial para registrar na série Meu jogo inesquecível do portal Globo Esporte, LFV explicou que Érico não era muito ligado ao que já foi chamado de esporte bretão.
Seu interesse pelo colorado dos Pampas se deu à época do famoso Rolo Compressor. Além do Inter estar mais em evidência, “o Grêmio carregava aquela antipatia elitista que não me agradava”, detalhou.
Ao Inter LFV legou o livro Sport Club Internacional – Autobiografia de uma Paixão (Ediouro).
O polivalente LFV teve uma infinidade de honrarias. Entre elas, o Prix Deux Océans do Festival de Culturas Latinas de Biarritz, França, pelo reconhecimento da sua vasta e importante produção em 2000; O Intelectual do ano de 1997 (Prêmio Juca Pato), e o Prêmio Jabuti (2013).
Pela concisão e bom humor, fez tiras de quadrinhos incríveis e alçou o posto de um dos maiores cronistas do Brasil. Não deixou de fazer bonito ainda quando, demandado, enfileirou uma série de romances.
Dos mais de oitenta títulos publicados por LFV, seis foram no gênero que o pai Érico dominava como poucos. Entre eles, O clube dos Anjos (Objetiva) foi escolhido pela New York Public Library como um dos 25 melhores livros de 2023.
O primeiro romance foi feito em inacreditáveis dois meses. O Jardim do Diabo foi encomendado pela agência de publicidade MPM em 1987. Lá, LFV trabalhava, em paralelo ao jornal Zero Hora, para “pagar o whisky das crianças”, lembrou várias vezes.
Para quem havia chegado aos 30 anos achando que não sabia fazer nada, LFV passa à história como alguém que fez de tudo – e bem – no campo das letras.
De revisor e até redator de horóscopo no jornal Zero Hora aos deliciosos Guias de Viagens feitos após longos períodos no exterior com a família que constituiu, LFV explorou e maravilhou seus admiradores nas mais variadas frentes.
Marcou como redator de programas como Planeta dos Homens e Comédias da Vida Privada na TV Globo; marcou nos jornais e revistas. Além de Zero Hora, esteve presente na Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Playboy, Cláudia, Domingo, Veja e Extra Classe.
Em rara confissão, conforme registrou Geraldo Mayrink, LFV deixou a modéstia de lado: “Na medida em que ganho razoavelmente bem, vivo bem, tenho uma família em bom estado de funcionamento e que consegui isso sem explorar ninguém, acho que sou um dos vencedores”.
No final das contas, a morte realmente é uma injustiça. Luís Fernando Verissimo já faz falta. Somos contra.

Pausa pro cafézinho: com Valéria Ôchoa, Santiago, César Fraga, Edgar Vasques, Verissimo; José Guaraci Fraga e Rafael Corrêa
Foto: Igor Sperotto
Anos mais tarde à formatura para a qual foi “convencido” a estar presente como paraninfo, LFV passou a escrever no jornal Extra Classe, onde trabalhava um de seus “afilhados”. Era 1996.
Participou da fundação. No início chegou a dizer que iria cobrar o valor da tabela do Sindicato dos Jornalistas – um valor infinitamente menor do que sua maravilhosa verve era paga em veículos como Zero Hora, O Globo e O Estado de São Paulo. Mas, subitamente mudou de ideia: “Vou escrever pela causa”, afirmou.

Verissimo com a equipe do Extra Classe e a direção do Sinpro/RS em 2018
Foto: Igor Sperotto
Foram inúmeras crônicas publicadas, muitas exclusivas para o jornal, além de outros textos para publicações como o livro que marcou os 20 anos do veículo mantido pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), o Extra Classe – Duas décadas de jornalismo e cidadania (Carta Editora).
LFV ainda prestigiou diversos eventos do Sinpro/RS e chegou a tocar com a Jazz 6 no 15º aniversário do Extra Classe.