A Chica da Silva real e a negritude que o Brasil ignora

Mary del Priore desmonta estereótipos e apresenta uma nova perspectiva sobre as mulheres negras no Brasil colonial, mostrando sua força, inteligência e capacidade de transformação social

 

A Chica da Silva real e a negritude que o Brasil ignora

Mary del Priore desmonta a a história mitificada e sexualizada de Chica da Silva e apresenta uma Francisca real: mãe, comerciante e mulher de luta

Foto: Agência Pense +Tela de Marcial Ávila (acervo permanente da Casa de Chica da Silva)

Meu Nome é Francisca (Editora José Olympio) é o novo romance histórico de Mary del Priore. A autora é reconhecida por sua capacidade de popularizar a história brasileira sem perder rigor acadêmico, o que a fez, entre seus mais de 40 livros publicados, colecionar diversos prêmios. Entre eles, estão quatro Jabutis, o Oscar da literatura nacional.

Com uma obra focada na história da vida privada e da experiência cotidiana no Brasil, com especial atenção às trajetórias femininas, infância, família, sexualidade, velhice e relações de poder nos diferentes períodos históricos do país – da Colônia à República, Mary desmonta a história mitificada e sexualizada de Chica da Silva e apresenta a Francisca real: mãe, comerciante e mulher de luta.

Com base em pesquisas inéditas, a autora desmonta estereótipos e apresenta uma nova perspectiva sobre as mulheres negras no Brasil colonial, mostrando sua força, inteligência e capacidade de transformação social.

Tudo isso às vésperas do cinquentenário do filme Xica da Silva (1976), do cineasta Cacá Diegues, marco do cinema nacional por combinar crítica social, apelo popular e inovação estética, apesar de ter sido alvo de controvérsias por seu erotismo e releitura provocadora da história oficial.

“Não tem nada a ver com o mito da Chica da Silva incendiária na cama – nada disso”, declara ao Extra Classe a Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris.

Nesta entrevista, a escritora discorre sobre seu método de trabalho e das suas inspirações para dar voz a personagens esquecidos ou reduzidos a estereótipos, sempre com o compromisso de promover o resgate crítico da memória brasileira.

Extra Classe – Ela passou para a história como Chica da Silva. Por que o título de seu novo livro é Meu Nome é Francisca?
Mary del Priore – Olha, primeiro é importante situar que esse livro faz parte de uma série que começou com Tarsila (Editora José Olympio), que foi muitíssimo bem recebida. Depois, veio nossa Imperatriz Leopoldina, contada pela filha – Maria da Glória (Leopoldina & Maria da GlóriaEditora José Olympio), uma ilustre desconhecida para os brasileiros, que se tornou Rainha Dona Maria II de Portugal. Com Francisca, me vali da extraordinária pesquisa que vem sendo feita há mais de dez anos por historiadores sobre o enriquecimento de mulheres pretas e pardas desde o final do século 18, em Minas Gerais, Salvador e Rio de Janeiro. Essas mulheres autônomas tiveram mobilidade social espetacular através do comércio – um saber que trouxeram da África e que as permitiu entrar na lista do segundo grupo mais rico de Minas no século 18. Francisca é uma espécie de ponta do iceberg de toda uma camada de mulheres tratadas de forma displicente como vítimas, quando, na verdade, eram excelentes comerciantes que organizavam suas vidas, educavam seus filhos e, quando possível, os mandavam estudar em Coimbra e até na França. Quis mostrar não a história da Chica da Silva já avacalhada pelas novelas e pelo cinema, mas das Franciscas, que foram legião no Brasil. Se juntarmos o que aconteceu no Maranhão, Pará, Pernambuco, Bahia, Rio e Minas, teremos uma legião de mulheres responsáveis por aquilo que o primeiro censo demográfico do Império, de 1872, vai provar: o Brasil já era pardo desde então.

EC – Apesar da sua ampla produção acadêmica, você nunca deixa de lado os romances históricos. Qual é a motivação?
Mary – Justamente minha vontade de fazer com que o grande público se interesse por essa vertente da literatura. Hoje, o romance histórico é transposto para séries, novelas, até para correntes como o steampunk americano. Conheço bastante: passei quase 15 anos dando aula na USP e depois mais 10 em universidade privada no Rio, sempre muito entusiasta dos arquivos. Sempre fui uma excelente pesquisadora, modéstia à parte, no sentido de achar documentos inéditos que revelavam facetas obscuras da nossa história. Toda minha determinação foi transformar a história numa coisa palatável e que interessasse as pessoas a se aprofundarem mais.

EC – Como você equilibra a fidelidade histórica com as exigências narrativas do romance?
Mary – O que é absolutamente fundamental é conhecer o período na sua profundidade. Conhecimento profundo não é só de fatos e datas históricas, mas do que estava acontecendo nas ruas, no interior das casas, dentro dos palácios, como as pessoas se comunicavam e se sociabilizavam. Esse conhecimento que a história cultural dá, porque ela entra por tudo: história das festas, dos credos, das religiões, da indumentária, da alimentação. A leitura de autores do período te ajuda a caminhar no vocabulário, porque as palavras têm história. Se você abrir o dicionário do Padre Bluteau, vai ver que a palavra “amor” está assim: só o de Deus. O amor no século 18 era feito de toques, de olhares, de lágrimas. Para criar os diálogos – o que fiz apenas nesse livro, porque originalmente seria um audiobook –, usei muito os estudos da Yeda Pessoa de Castro, maior estudiosa de línguas africanas das Américas.

EC – Quais foram os principais desafios ao conciliar a vida pública documentada de Chica da Silva com a construção literária de sua vida interior?
Mary – Primeiro, que Minas já tem imensos romancistas históricos. Vamos começar pelo Agripa Vasconcelos, que escreveu Chica que Manda. O Agripa tinha uma paixão pela reconstituição da natureza nos livros – chegava a dar o nome das flores, das plantas que havia nas Minas do passado. Usei muito essa ideia, lembrando que estou falando de um livro que nasceu para audiobook. Me vali, obviamente, da pesquisa dos meus colegas historiadores – quero reverenciar meu ex-aluno Eduardo Paiva, da Federal de Minas Gerais, brilhantíssimo, que foi dos primeiros a mostrar a mobilidade social das pretas no século 18. E da queridíssima Júlia Furtado, que fez a melhor biografia que temos da Chica da Silva. Me inspirei nesses trabalhos para transpor ao grande público a figura de uma mulher negra que teve dois companheiros, vários filhos; não era absolutamente uma rainha da beleza. Era uma mulher que aprendeu a escrever, mãe amantíssima, esposa dedicada, fiel religiosa que ia às missas de domingo, patrona de várias irmandades. Não tem nada a ver com o mito da Chica da Silva incendiária na cama – nada disso. Era mãe de família muito bem casada e muito boa dona de casa.

“Certamente, ela (Francisca da Silva) foi muito amada, porque ele (o contratador) foi realmente fiel a ela até o final da vida — diferente do nosso imperador Dom Pedro I, que, no primeiro porto que parou a caminho de Portugal, já fez um filho numa freira.”

EC – Por que optou por dar voz à própria Francisca em primeira pessoa?
Mary – Primeiro, para poder aproveitar esse trabalho maravilhoso da Yeda Pessoa de Castro sobre os vários africanos em Minas Gerais. Sabedora da origem dela, ficou mais fácil inserir esse repertório para humanizar essa mulher, mostrar de onde ela vem, quem era a mãe dela, esse universo afro-mestiço brasileiro. Segundo, para quem estaria ouvindo no audiobook, criar uma intimidade maior entre quem escuta e quem fala. Essa voz em primeira pessoa emprestou um certo sabor ao livro que os historiadores não usam jamais. Mas estou mais interessada em que os brasileiros conheçam seu passado, gostem de história, do que dar satisfação para o que a Academia quer. Hoje, infelizmente, a própria Academia não é mais o centro do saber – hoje, o saber está com jornalistas como você, com influenciadores, nas mídias, na inteligência artificial.

EC – Você retrata a relação entre Francisca e João Fernandes de forma mais complexa. Incorpora afeto, cumplicidade, mas também o peso das convenções sociais e religiosas da sociedade branca da época. Como trouxe essa relação para além do mito da “Rainha do Tijuco”?
Mary – Primeiro, vou me permitir uma correção: não era “sociedade branca” – brancos eram uma grande minoria numa sociedade parda, mestiça, e no caso do Tijuco, com presença muito grande de descendentes de escravos. Trabalhei muito com testamentos do século 18 e, nesses testamentos, a gente vê que o amor materno era uma evidência nas relações familiares. A coisa mais importante para um casal não era ficar rolando na cama nem pendurado no lustre – não! Era construir uma família, fazer crescer o patrimônio, cuidar dele, trabalhar junto nessa direção. Chica já tinha dois filhos quando vai viver com o contratador (dos diamantes João Fernandes de Oliveira), de quem teve outros tantos filhos (13). Então não era o corpo de uma beldade que estava naquela cama, mas de uma mulher amante no sentido do carinho, do afeto, do respeito pelo parceiro. Certamente, ela foi muito amada porque ele foi realmente fiel a ela até o final da vida – diferentemente do nosso imperador Dom Pedro I, que, no primeiro porto que parou a caminho de Portugal, já fez um filho numa freira. É um tipo de afeto muito mais respeitoso, carinhoso, leal. Acho que são desses capítulos da história do amor que têm que ser lembrados.

EC – Como você abordou a delicada complexidade da posição de Francisca – uma ex-escrava que acumulou riqueza e possuía escravos?
Mary – Não acho que seja uma questão delicada – acho que é uma questão histórica que a maior parte do povo brasileiro ignora. Hoje, há trabalhos para o Brasil todo, e a questão da escravidão entre africanos era a coisa mais natural do mundo na África. Os escravizados, assim que podiam, compravam seu escravo. As grandes pretas da nossa história – e Francisca foi uma delas – na Bahia, no Rio de Janeiro, no Maranhão, em Pernambuco, eram mulheres que tinham muitos escravos, mesmo elas sendo ex-escravizadas. Em toda a sociedade brasileira vamos ver que a escravidão era um fenômeno estrutural, transcultural – um fato que atravessa continentes, atravessa tempos. Não é nenhuma jabuticaba brasileira. Isso precisa ser mais bem explicado para a população e sair da mão de radicais que acham que mestiçagem é sinônimo de estupro e outras bobagens.

EC – Qual foi o papel das irmandades religiosas como espaços de sociabilidade para negros e pardos?
Mary – É muito interessante o estudo dessas irmandades porque essas irmandades, inclusive as pretas, negras, estavam divididas por etnias. Depois, temos as irmandades de pardos, que aceitavam brancos ou não. A gente vê que esse mosaico é muito mais complexo do que nossa imaginação apressadamente resolve definir. Outra coisa importante: a vida religiosa era a única vida social possível. O Brasil, até a vinda da família real portuguesa em 1808, não tinha outra vida social senão aquela ditada pelo calendário religioso. Era fantástico como esse Brasil misturava, nesses momentos, todas as classes sociais e todas as condições sociais. Trabalhei muito com essa questão de como se vivia no interior da igreja. Eram 10 horas de ofício — as mulheres chupavam laranja, fofocavam, sentavam em esteiras ou tapetes. Era um momento em que se falava mais do que se ouvia o padre. Era realmente uma festa. Tenho um artigo em que digo que Deus dava licença ao diabo nas igrejas, porque a igreja era lugar do namoro, onde se passavam mensagens amorosas.

EC – Como reconstruiu a infância de Francisca?
Mary – Primeiro, tendo trabalhado com a história das crianças no Brasil e com a história da família no período colonial. Além disso, recorri largamente aos antropólogos franceses que trabalharam na região subsaariana, da qual temos muitas informações sobre a vida das crianças. As crianças começavam a trabalhar muito cedo, tinham uma grande função dentro das suas famílias. Cruzando informações sobre a África subsaariana, de onde a família da Francisca teria vindo, mais a história das crianças escravas do Brasil, foi possível refazer. A imaginação tem um lugar no papel do historiador. É impossível fazer história sem imaginar, a partir do que você sabe, o que estava acontecendo.

A Chica da Silva real e a negritude que o Brasil ignoraFoto: José Olympio/Divulgsção“Hoje, há trabalhos para o Brasil todo, e a questão da escravidão entre africanos era a coisa mais natural do mundo na África. Os escravizados, assim que podiam, compravam seu escravo. As grandes pretas da nossa história — e Francisca foi uma delas — na Bahia, no Rio de Janeiro, no Maranhão, em Pernambuco, eram mulheres que tinham muitos escravos, mesmo elas sendo ex-escravizadas.”

EC – O que a atrai particularmente em contar histórias através da perspectiva de mulheres que desafiaram as normas?
Mary – Eu podia dar uma resposta bonita, dizendo que, como historiadora das mulheres, eu me debruço sobre as mulheres, mas, na verdade, me debruço a pedido dos editores. O Brasil está lendo pouco. É um convite para ler. O que quero é fazer o melhor livro possível para que o leitor se sinta fisgado dentro da história. Precisamos de leitores! Olha o vocabulário dos nossos homens públicos, cada vez mais reduzido a palavrões, a uma linguagem vulgar. Estou engajada nisso, viajo o Brasil todo para levar essa mensagem de valorização do nosso passado, da nossa história, da educação.

EC – Qual é a importância de resgatar essas trajetórias femininas?
Mary – A história das mulheres, nos anos 60 e 70, pôs a mulher no mapa dos historiadores. O que a história cultural introduziu foi a possibilidade de trabalharmos com personagens anônimos, menos importantes. Hoje, temos uma constelação enorme de protagonistas: grupos fazendo história das mulheres homoafetivas, outros das mulheres negras, das pardas, das empresárias. Estamos atendendo a uma demanda crescente das mulheres brasileiras, que são nossas grandes leitoras.

EC – Como vê o crescente interes­se por biografias e romances históri­cos fora do ambiente acadêmico?
Mary – Acho que isso comprova que a Academia, que nos anos 80 e 90 viu a história ser o tema mais abrangente em toda parte, hoje viu isso desaparecer em detrimento de influenciadores que estão nas te­las, novelas que nem sempre estão fiéis à história do Brasil. Acho que o brasileiro quer sim saber, mas ainda sabe pouco, precisa de mui­to mais para acabar com mitos que são propagados.

EC – Qual é o papel do historiador em tempos de discussões sobre memória e uso do passado?
Mary – Nossa responsabilidade consiste em estar absolutamente atualizado sobre as pesquisas em andamento. Temos vários programas de pós-graduação, com jovens historiadores desvendando histórias. Ser fiel aos documentos históricos, não os travestir. A gente tem que tentar contar a história abordando o máximo de aspectos possível, sua complexidade, e ser respeitoso sempre da outra opinião — mas não uma opinião calcada em mentiras.

EC – Como vê o legado histórico de Chica da Silva hoje?
Mary – Justamente isto: a história das mulheres pobres no Brasil. Aquela mulher que se dedica à família, à educação dos filhos. Escrevi um livro chamado À Procura Deles, que conta a história de pretos que ultrapassaram o preconceito racial no Brasil. O que vimos na história desses homens? Vimos o papel das mães, das mulheres negras que fizeram tudo para os filhos se educarem. Essa é a história de várias mães pobres no Brasil até hoje. Estamos vendo isso na mudança do público que vai para as universidades — professores negros, cada vez em maior número nas universidades brasileiras. É uma grande mudança estrutural que se deve a tantas Franciscas, conhecidas e desconhecidas. Essa é a grande missão que fica: são essas mulheres trabalhadoras que querem ver um futuro melhor para os filhos e procuram construir esse futuro com eles.

 

 

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