Morre Felizardo, mestre da fotografia e poeta das paisagens esquecidas

Fotógrafo gaúcho que transformou o cotidiano em arte através do preto e branco faleceu aos 75 anos; deixa legado fundamental para a cultura visual brasileira
Morre Felizardo, mestre da fotografia e poeta das paisagens esquecidas

Jogo do Olhar (num trem para Chartres), 1991

Foto: Acervo Luiz Carlos Rosa Felizardo

Faleceu nesta terça-feira,11, aos 75 anos, em Porto Alegre, o fotógrafo Luiz Carlos Rosa Felizardo. Foi um dos grandes nomes da fotografia brasileira. Conhecido por seu domínio técnico da imagem em preto e branco e pela sensibilidade com que registrava paisagens, objetos e arquiteturas, Felizardo deixou uma obra vasta, densa e respeitada dentro e fora do país. Ele enfrentava complicações de saúde ligadas a uma ataxia hereditária e a uma insuficiência cardíaca.

Nascido na capital gaúcha em 1949, Feliz, como gostava de assinar seus trabalhos, foi herdeiro de uma tradição familiar que unia ciência, arte e política.

Neto de J. J. Felizardo Jr., um dos principais articuladores do Positivismo no Rio Grande do Sul, e batizado em homenagem ao líder comunista Luiz Carlos Prestes, cultivou desde cedo uma curiosidade insaciável.

Inicialmente interessado por música e arquitetura, curso que frequentou entre 1968 e 1972 na Ufrgs, Felizardo encontrou a possibilidade de desenhar com a luz com a fotografia, que tornou o seu verdadeiro ofício.

Começou sua trajetória profissional ainda durante os anos de faculdade, trabalhando com fotografia publicitária e industrial.

Mas, logo voltou seu olhar para algo mais autoral: passou a registrar a paisagem urbana e natural do Rio Grande do Sul com câmeras de grande formato, produzindo imagens de altíssima precisão técnica, com ampla gradação de cinzas e sensibilidade pictórica.

Os temas, muitas vezes discretos – um muro corroído, um galho tortuoso, uma construção em ruína – ganhavam força estética e poética em sua lente. Ele acreditava que fotografar era extrair sentido daquilo que parecia banal.

Reconhecimento internacional

Ao longo da carreira, participou de mais de 15 exposições coletivas no exterior e realizou mostras individuais em cidades como Porto Alegre, São Paulo, Buenos Aires, Montevidéu, Paris e Havana.

Seus trabalhos integram acervos de instituições como o Masp, o Margs, o Museu da Fotografia de Fortaleza e o Museu de Arte de Brasília.

Em 1984, com uma bolsa da Capes e da Comissão Fulbright, se mudou para Prescott, no Arizona (EUA), onde viveu por dois anos como bolsista e aprendiz do fotógrafo ítalo-americano Frederick Sommer que se tornaria seu grande mentor.

O encontro foi decisivo. Sommer, também formado em arquitetura e interessado em música, ofereceu a Felizardo uma visão ampla da criação artística, que o acompanharia por toda a vida. “A estrutura da imagem pode ser pensada como a da música ou da arquitetura”, dizia o mentor.

Ao voltar ao Brasil, Felizardo apresentou o resultado dessa experiência no Margs e passou a desenvolver pesquisas sobre a passagem de Sommer pelo Brasil.

Com o apoio da Fundação Vitae, dedicou-se à investigação sobre os anos em que o mestre viveu no Rio de Janeiro, entre 1916 e 1930.

Pensador da fotografia

Além da prática artística, Felizardo foi um importante pensador da fotografia. Ministrou cursos e palestras sobre técnica e linguagem em todo o país e escreveu ensaios e colunas que abordavam desde aspectos formais da imagem até discussões sobre memória e identidade. Desde 2001, assinava a coluna Imago, na revista Aplauso, publicada em Porto Alegre. Em 2000, lançou o livro O Relógio de Ver, que reúne artigos escritos entre 1987 e 1999.

Sua produção era feita com extremo rigor técnico e artesanal, e seu processo incluía revelações em laboratório próprio, instalado em seu ateliê no bairro Bom Fim, próximo ao Parque da Redenção. Ali, entre estantes de livros, molduras e objetos carregados de história, como uma lata enferrujada retirada dos escombros do Muro de Berlim, Felizardo cultivava um ambiente de criação e memória.

Última exposição e legado

Morre Felizardo, mestre da fotografia e poeta das paisagens esquecidas

De janeiro a março de 2024, Felizardo inaugurou sua última exposição, O Sonho e a Ruína, no Margs

Foto: João Urban/ Divulgação

De janeiro a março de 2024, inaugurou sua última exposição, O Sonho e a Ruína, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. A mostra, que seguiu em cartaz no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, apresentou 40 registros da região das Missões, um projeto que começou em 1973 e atravessou décadas.

Homenageado com o Prêmio Açorianos de Artes Visuais em dezembro de 2023, o fotógrafo teve sua obra celebrada com uma retrospectiva e um catálogo que reafirmam sua importância como um dos grandes nomes da fotografia brasileira contemporânea.

Luiz Carlos Felizardo foi casado com a juíza aposentada Magda Biavaschi, com quem teve dois filhos: Marta, arquiteta radicada em Berlim, e Pedro, fotógrafo que vive na Austrália. Nos últimos anos, vivia com a companheira Maria Isabel Locatelli. Era também avô de Marina, uma menina australiana que o fotógrafo se orgulhava de ressaltar as raízes aborígenes.

A despedida ocorre nesta quarta-feira,12, com velório na Capela Histórica do Crematório Metropolitano, em Porto Alegre. A arte brasileira perde não apenas um fotógrafo, mas um pensador, um mestre da luz, um artesão do tempo. E suas imagens, silenciosas e precisas, continuarão a falar por ele.

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