A língua e os sotaques do Brasil

A exposição 'Fala, Falar, Falares', em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em SP, até 14/09, propõe uma jornada sensorial sobre como a língua falada constitui nossa identidade individual e coletiva
A língua e os sotaques do Brasil

Celebração da diversidade linguística brasileira através de seus múltiplos sotaques e expressões regionais na exposição “Fala, Falar, Falares”, no Museu da Língua Portuguesa, até 14 de setembro

Foto: Wellington Almeida/ Divulgação

Em São Paulo, no coração da Estação da Luz, o Museu da Língua Portuguesa apresenta a exposição Fala, Falar, Falares. É uma celebração da diversidade linguística brasileira através de seus múltiplos sotaques e expressões regionais. A mostra, concebida pelos curadores Caetano Galindo e Daniela Thomas, propõe uma jornada sensorial e reflexiva sobre como a língua falada constitui nossa identidade individual e coletiva.

“Essa exposição é sobre você”, resume Galindo, doutor em Linguística e professor de História da Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná (UFPR), que, ao longo de um ano, coordenou, ao lado da multitalentosa cineasta, diretora teatral, dramaturga, iluminadora, cenógrafa e figurinista Daniela Thomas, uma equipe de aproximadamente 250 pessoas.

A exposição transforma o visitante em protagonista, conduzindo-o por um caminho que parte do individual e caminha para o coletivo. A jornada começa explorando os aspectos mais íntimos da fala – o ar que respiramos, a articulação das palavras – até chegar à dimensão social da linguagem, demonstrando como os sotaques formam um rico mosaico cultural.

Identidade e preconceito

A língua e os sotaques do Brasil

“Sotaque não é só uma identidade, uma individualidade, é uma imensa questão”, define Daniela

Foto: Wellington Almeida/ Divulgação Foto: Guilherme Sai/ Divulgação

Uma das descobertas mais impactantes durante o processo de criação da exposição foi entender o sotaque não apenas como uma característica da fala, mas também como um elemento carregado de complexidades sociais.

Daniela registra um momento crucial desse aprendizado. “Queríamos fazer uma instalação em que as pessoas imitassem os sotaques umas das outras, mas fomos alertados por uma pessoa da comunicação do Museu que ser nordestino em São Paulo é um karma pesado”, revela.

“Aquilo me chocou. Eu não tinha me dado conta do quanto o sotaque pode ser alvo de preconceito”, lembra ela. Esse insight transformou o projeto, revelando a dimensão política e social dos sotaques. “Sotaque não é só uma identidade, uma individualidade. Sotaque é uma imensa questão”, pondera. A exposição passou então a incorporar essa reflexão, buscando promover o respeito e a valorização das diferentes formas de falar.

Galindo complementa esse pensamento: “O sotaque revela muito da nossa identidade, da nossa cultura, do nosso pertencimento, do nosso trajeto. Ele é a nossa identidade em forma de língua. É esse rastro de pertencimento que a gente carrega. É a nossa bandeira original”.

Inovações tecnológicas a serviço da língua

A exposição se destaca, ainda, pelas inovações técnicas que permitem uma experiência imersiva. Uma das principais conquistas foi a produção do primeiro grande acervo de imagens de articulação em tempo real do português brasileiro, relata o linguista.

“Aquelas imagens de ressonância magnética funcional de uma pessoa falando, que foram laboriosamente trabalhadas para aumentar a resolução, sincronizar com o áudio e com a laringoscopia, são um material preciosíssimo”, explica Galindo, ao se referir a uma das instalações mais instigantes de Fala, Falar, Falares.

Esse material, segundo o curador, tem valor que transcende a exposição: “É um material que vai mudar a forma de ensinar fonética articulatória nas faculdades de Letras, nos cursos por aí”, acredita.

A equipe, para esse feito, contou com especialistas como Demétrio Portugal, descrito por Daniela como “um nerd que faz essas coisas acontecerem”, para transformar dados técnicos em experiências acessíveis.

Patrimônio imaterial

A proposta da exposição é despertar a consciência sobre a língua portuguesa falada no Brasil como patrimônio imaterial que pertence a todos.

“Num determinado momento, a gente chegou a cogitar de chamar de ‘Você’, porque essa exposição é sobre cada pessoa que está ali dentro”, conta Galindo.

A mostra traça um caminho que parte do “átomo do que faz cada um de nós ser a pessoa que é” até chegar à “sensação do acolhimento da singularidade e da diversidade”.

Para o curador, esse percurso é especialmente relevante no Brasil de 2025.

“Nós todos somos radicalmente únicos, singulares, preciosos e, especialmente, parte de um coletivo que não tem dono, que não tem gestão por via de lei, que não tem organização, que é um patrimônio construído por essas singularidades”, descreve.

Daniela reforça a ideia ao definir a exposição como “um percurso que vai do ar que você respira até a pessoa que você é dentro de uma comunidade tão incrível como a nossa, que é o Brasil”, arremata.

Poder emocional da linguagem

A língua e os sotaques do Brasil

Galindo: “Somos radicalmente únicos, singulares, parte de um coletivo que não tem dono, que não tem gestão por via de lei”

Foto: Wellington Almeida/ Divulgação

Durante o processo de criação e nas entrevistas realizadas para a exposição, ficou evidente o forte componente emocional da língua, acentua a dupla de curadores.

Galindo assegura: “Aprendemos de uma maneira muito forte o quanto ninguém consegue falar sobre essas coisas a frio, o quanto isso puxa algo que vem do nosso coração, puxa algo que gera lágrima, que gera queixo tremendo”.

Essa dimensão afetiva também se manifestou nas gravações da Roda de Falares, uma das instalações da exposição. “A gente foi percebendo o quanto as pessoas são incapazes de falar sobre esse assunto sem emoção. Todo mundo foi se comovendo muito, se envolvendo demais com isso tudo”, afirma o curador.

Dois dias após a abertura para convidados, ele lançou o livro Na Ponta da Língua (Companhia das Letras, 2025, 272 p.), obra que dialoga diretamente com uma das salas da mostra, O Corpo Nomeado. Galindo esclarece que “o livro começou a ser concebido ao mesmo tempo em que a exposição estava sendo concebida”.

Nele, é explorada “a etimologia, ou a história, ou o trajeto, ou as conexões interlinguísticas de algumas palavras que dão nomes a partes do corpo”, explica o autor, que vê o livro como um aprofundamento da experiência. “Enquanto a exposição trabalha com sete palavras, o livro expande para duzentas”, completa.

Um museu transformador

Para Daniela, que já realizou outras três exposições no Museu da Língua Portuguesa, a instituição ocupa um lugar especial no cenário cultural brasileiro e mundial.

“Eu tive uma epifania quando vim visitar logo depois da reinauguração. Eu pensei: realmente, esse museu é um negócio sério demais. É, talvez, um dos museus mais incríveis, senão o mais incrível que existe”, sublinha.

“A beleza está nessa ideia de que as pessoas veem um museu que celebra algo que não só é delas, mas as constitui, as faz serem o que são e só existe por causa delas”, conceitua Galindo, ao descrever o local mais do que apropriado para a exposição Fala, Falar, Falares.

Os curadores a chamam de “ato de resistência”, em um momento em que a língua e suas variações são frequentemente alvo de padronização e preconceito.

“A língua não é estática. Ela vive, muda, se adapta. E os sotaques são a prova viva disso. Celebrá-los é celebrar a nossa história”, defende ele.

“Fiz um PhD de vida com essa exposição. Aprendi que a diversidade ainda é um problema no Brasil, mas também é nossa maior riqueza”, conclui Daniela.

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