As 45 mulheres de Renata Heinz

Lançamento do livro 'Carnes povoadas' terá sessão de autógrafos e leitura de contos, às 17h do dia 24 de maio, no mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre
As 45 mulheres de Renata Heinz

Renata Heinz, em seu livro de estreia apresenta 45 mulheres-conto que povoam carnes cujas histórias se passam entre os anos 1.855 e 2.083

Foto: Acervo pessoal/Divulgação

“Tenho dificuldade em lembrar a primeira vez em que engoli uma palavra. Na verdade, nem sei se fiz por medo de ser julgada ou de ser roubada. Raras. Preciosas. Inconscientemente, deixei que ficassem escondidas, perto do céu da boca, confortáveis sobre a língua. Arejadas em um suspiro, viajavam pelos meus pulmões como se fossem formar um som, com medo forjava um espirro”. Com essas palavras, a personagem Lúcia inicia seu relato no conto de mesmo nome (e que de certa forma serve de síntese da obra e estilo da autora, Renata Heinz, em seu livro de estreia, Carnes Povoadas, com lançamento e sessão de autógrafos neste sábado, às 17 horas, no mezanino da Casa de Cultura Mário Quintana (CCMQ), em Porto Alegre.

Lucia viveu em 1983, mas poderia ser em 1922, como Olga. Cada conto tem um nome de mulher e corresponde à época em que viveu cada personagem, todas mulheres.  Ao todo, são 45 mulheres-conto que povoam carnes cujas histórias se passam entre os anos 1855 e 2083. O título do livro vem com explicação da própria autora no prefácio. Trata-se de uma crítica à forma como os corpos femininos são encarados pela sociedade patriarcal. “Enquanto nossas carnes seguem expostas como num açougue, em benefício do cliente, apodrecem nossas histórias”, diz.

Roteirista, diretora de cinema, diretora de arte e professora há 13 anos  do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos, Renata já tem afinidade com a palavra escrita desde sempre.  Apaixonada pelas palavras desde a infância, cita como influências literárias Silvina Ocampo, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Florbela Espanca, Sylvia Plath e Elena Ferrante.

As 45 mulheres de Renata HeinzFoto: Reprodução/DivulgaçãoEste primeiro livro, por ora, tem edição independente e formato pocket (A6 – 10×15 cm), o livro tem capa dura, 160 páginas e será vendido no local por R$ 60.

Segundo a escritora (Leia entrevista no final da matéria), o projeto começou a ser gestado em 2019. Além da autoria dos textos, ela também foi responsável pela criação do projeto gráfico, diagramação e capa, desenvolvida a partir de um autorretrato. Entre os desafios da publicação independente, Renata destaca o atraso no cronograma de lançamento. “A gráfica onde eu imprimiria os exemplares foi fortemente atingida pelas enchentes, em 2024”, relata.

O evento de lançamento contará com a leitura de uma seleção de narrativas do livro, promovida por artistas convidadas pela autora, como Ida Celina, Áurea Baptista e Cassie Boff.

CINEMA – Renata Heinz já possui uma sólida trajetória no audiovisual. Seu conto Maria, 1971 foi adaptado por ela mesma para o cinema no curta-metragem manifesto Rien Que Flanerie, lançado em 2021. O filme foi exibido no The International Women’s Film Festival, em Aarhus, na Dinamarca, e no Festival RENUAC, em Santiago do Chile, na categoria Cortos Feministas.

Com mais de 20 anos de atuação no audiovisual, Renata dirigiu dois longas documentais, Horror.DOC (2012) e Berlim Brasil (2009), e os curtas de ficção Mariposas (2017), Apenas um dia (2015), Frágil (2014) e Sangue e goma (2011), entre outras produções. É graduada em Publicidade e Propaganda, especialista em Cinema e mestre em Ciências da Comunicação, com foco em mídias e processos audiovisuais. Atualmente, é professora da disciplina de Direção de Arte no Curso de Realização Audiovisual da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

As 45 mulheres de Renata Heinz

“Mentiria se dissesse que não há nada de mim nas personagens. Uma pedaço de mim vive em cada uma delas”, afirma Renata.

Foto: Acervo pessoal/Divulgação

Extra Classe – Quanto tempo levaste para parir, dar vida a essas mulheres?
Renata Heinz – Acho que foi um processo longo, mas não vejo como um parto. Elas começaram a chegar de mansinho, lá por 2018. Alguma frase, uma personagem ou situação. Apenas anotações em guardanapos, caderninhos e papéis soltos. Despertei pra grande verdade, já citada muitos anos antes pela Simone de Beauvoir, que os direitos que adquirimos não estão garantidos. Afetada pela situação política da época, o preconceito e a misoginia escancarados como troféus. Comecei a ter um volume maior de escrita, que ainda não sabia o que se tornaria e que formato teria em 2019. Já na pandemia, quando o mundo parou, tive muitas noites de insônia, foi quando escrevi boa parte das mulheres. Sempre lembrava do Galeano, eu não conseguia dormir pois tinha uma mulher atravessada em minhas pálpebras, até pediria que ela saísse, mas tinha uma mulher atravessada na minha garganta. E é isso, elas estavam atravessadas em mim, eu precisava dormir, respirar e dar uma voz pra elas. Inclusive essa frase do Galeano originou a foto (autoretrato) da capa. Depois tive problemas de saúde na família, enchente que impediu de concretizar a impressão, mesmo com o livro já pronto e, finalmente, temos o livro.

EC – Tua narrativa usa elementos autobiográficos?
Renata – Mentiria se dissesse que não há nada de mim nas personagens. Uma pedaço de mim vive em cada uma delas. Qual é esse pedaço, não conto, talvez nem saiba exatamente. Mas não dá pra pensar em autobiográfico, ainda que me identifique com todas. Elas tem um pedaço de mim, da minha mãe, minha irmã, das minhas amigas, das mulheres que convivo, mas também de mulheres desconhecidas, da moça que me atendeu no caixa, da mulher na foto antiga da família. Elas são um pouco todas nós e muito de invenção.

EC – Como as personagens ficcionais influenciam na vida real da autora e vice-versa?
Renata – Algumas delas me fizeram pesquisar o modo de viver de mulheres no passado, por exemplo, e rever algumas ideias preconcebidas sobre atitudes e falas das que vieram antes de mim. Também tive que pensar o que espera a mulheres do amanhã e acabei percebendo que meu olhar sobre o futuro é profundamente marcado pelas escolhas da sociedade hoje, muitas vezes não é positivo. Gosto de pensar nelas (as mulheres que nomeiam os contos), como seres falhos, imperfeitos, como todos nós, mesmo confessando minha paixão por elas. Diferente de algumas personagens que escrevi aos 30, as mulheres dos meus 50 anos são um amor mais adulto e menos ideal.

EC – Como o jeito de pensar cinema influencia a narrativa dos teus contos?
Renata – Sempre me vi como contadora de histórias, desde criança, peças da escola ou pequenas historinhas inventadas na máquina de escrever do meu avô. Desde o início dos anos 2.000, no audiovisual, realizei algumas narrativas curtas que me exigiram objetividade na escrita e a busca pela poesia na imagem. Acho que depois disso a escrita ficou muito mais visual. Ainda que sejam escritas completamente diferentes.

SERVIÇO:

Lançamento do livro Carnes povoadas, de Renata Heinz
Data: 24 de maio (sábado)
Horário: 17h às 20h
Local: Mezanino da CCMQ (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre).

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