Inês Marocco: 50 anos dedicados ao teatro

ENTREVISTA | INÊS MAROCCO

Inês Marocco é das diretoras teatrais mais festejadas e premiadas do Rio Grande do Sul

Foto: Felipe Paes

Nascida em 30 de outubro de 1950, Inês Marocco é das diretoras teatrais mais festejadas e premiadas do Rio Grande do Sul, mantendo suas atividades profissionais de modo ininterrupto desde que se formou, em 1975, bacharel em Direção Teatral e Licenciada em Arte Dramática, pelo Centro de Arte Dramática (CAD), atual Departamento de Arte Dramática (DAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Prestes a completar 75 anos de vida em outubro próximo, 2025 também marca seus 50 anos de carreira profissional.

Iniciou como docente em 1976 na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde se aposentou em 1999. Desde 2000, é professora da graduação em Teatro e da pós-graduação em Artes Cênicas do Instituto de Artes da Ufrgs. Atualmente, faz parte do Centro Francês de Ethnoscénologie, com sede em Paris, França.

Paralelamente às atividades acadêmicas e de pesquisa, a prática artística com grupos e coletivos é uma prioridade desde o início da sua vida profissional, tendo dirigido mais de 50 espetáculos. Para ela, docência e prática se fundem e se retroalimentam. Fundadora e diretora do Grupo Cerco de Teatro, Inês vem colecionando prêmios ao longo da sua trajetória – impossíveis de serem mencionados na sua totalidade nesta breve apresentação.

Entre as distinções, em reconhecimento ao conjunto da obra, trajetória e dedicação nas artes cênicas como artista e professora, recebeu o Prêmio Especial do Júri no Açorianos de 2022. Na mesma edição, o espetáculo Trago Sorte Mentira e Morte recebeu os prêmios de melhor Direção (Inês Marocco e Kalisy Cabeda, juntamente Simone Rasslan, que assinou a direção musical), Dramaturgia (Celso Zanini), Ator coadjuvante (Anildo Böes) e Trilha Sonora (Grupo Cerco e Banda).

Em 2019, Inês dirigiu Arena Selvagem, roteiro original que reúne diferentes textos de vários autores. Esse espetáculo recebeu as seguintes premiações: Prêmio Braskem no Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena de melhor espetáculo pelo júri oficial e popular; Prêmio Açorianos de melhor direção; Prêmio Cenym de melhor espetáculo, direção, grupo, elenco e adereços.

Antes disso, duas importantes montagens foram premiadas, ambas adaptações de obras literárias homônimas de Erico Verissimo: O Sobrado (2008), que recebeu o Prêmio Braskem de melhor espetáculo pelo júri oficial no Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena, Prêmio Açorianos de melhor espetáculo pelo júri popular e melhor direção, ator coadjuvante e  dramaturgia; e Incidente em Antares (2012), que recebeu o Prêmio Braskem de melhor espetáculo pelo júri oficial, melhor direção no Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena e Prêmio Açorianos de melhor trilha sonora.

Extra Classe – Quem é Inês Marocco? Conte-nos um pouco sobre a tua infância e sobre a relação com teus pais. Tens irmãos?
Inês Marocco –
Nasci em 1950, em Porto Alegre. Sou de uma família de classe média, pai orizicultor e mãe dona de casa – formada em dois cursos superiores pela PUCRS, Geografia e História, além de ser poliglota. Somos seis irmãos. Tive uma infância privilegiada, porque, além de sermos um grupo parceiro que aprontava juntos, morávamos numa casa com pátio, o que nos dava muita liberdade para brincar e criar. A diversão era sempre garantida.

Incidente em Antares (2012) recebeu o Prêmio Braskem de melhor espetáculo pelo júri oficial, melhor direção no Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena e Prêmio Açorianos de melhor trilha sonora

Foto: Fernanda Souza /divulgação

Extra Classe – Qual ou quais tuas memórias mais distantes relacionadas ao teatro?
Inês Marocco – Como qualquer criança, eu adorava contar histórias e brincar de faz de conta. Mesmo adolescente, eu continuava a criar e jogar com meus irmãos e minhas irmãs, com primos e primas, que foram meus primeiros amigos. Éramos de famílias grandes, cada uma com seis a sete filhos, então, com eles eu tinha muitos parceiros para jogar e inventar. Na praia de Torres, quando íamos veranear, minha imaginação extrapolava com performances onde eu punha em prática as minhas invenções e contações de histórias com a participação dos primos e das primas. Acredito que ainda carrego até hoje essa criança que fui.

Extra Classe – Quando e como aconteceram as primeiras experiências indicativas de que este era o caminho profissional a ser seguido?
Inês Marocco – Eu não pensei em momento algum que esta seria a minha carreira profissional. Quando fiz vestibular, na hora da escolha, vi que era a única coisa que me interessava. Mas não teve nenhuma decisão pensada antes. Foi por intuição mesmo.

Extra Classe – E te formaste em Teatro na UFRGS. Como foi esse período de formação inicial?
Inês Marocco – Formei-me em 1975 no CAD (Centro de Arte Dramática), atual DAD (Departamento de Arte Dramática), na Ufrgs, em Bacharelado em Direção Teatral e Licenciatura em Arte Dramática. Durante a minha formação no CAD, participei profissionalmente de vários grupos de teatro, trabalhando ou como atriz ou como diretora, mas na maioria das vezes como assistente de direção. Fiz assistência de direção para o Dilmar Messias (A tragicomédia de Dom Cristóvão e da senhorita Rosita, de Garcia Lorca) e para a Maria Helena Lopes (Dom Xicote Mula Manca e seu fiel escudeiro Zé Chupança, de Oscar Von Pfuhl). Em 1976 fui para Santa Maria, a convite dos professores Irion Nolasco e Maria Lúcia Raymundo, para dar aulas no Departamento de Artes Cênicas da UFSM. Logo depois, prestei concurso para professora efetiva e fiquei até 1999, quando me aposentei.

Extra Classe – E como se deu teu ingresso para atuar como professora na Ufrgs?
Inês Marocco – Naquele mesmo ano, fiz concurso para a cadeira de Direção Teatral no DAD e comecei a dar aulas a partir do ano 2000. Desde então, eu ministro aulas na graduação na opção de Direção Teatral e na Pós-graduação em Artes Cênicas do Instituto de Artes. Durante o período em que dei aulas na UFSM, tive a possibilidade de fazer meu Mestrado (1985) e Doutorado (1996) na Université de Paris – Saint-Denis, França. Também pude fazer, na mesma época, a formação na Escola Internacional de Teatro Jacques Lecoq (1983-1985).

Extra Classe – Podes compartilhar um pouco sobre as tuas pesquisas e as conclusões a que chegaste a partir delas?
Inês Marocco – Nos dois cursos, apresentei projetos relativos ao trabalho que já desenvolvia em Santa Maria, junto ao Departamento de Artes Cênicas da UFSM. No Mestrado, minha dissertação versava sobre o nosso curso de Licenciatura em Artes Cênicas e no Doutorado, a tese, intitulada “O gesto espetacular na cultura gaúcha do Rio Grande do Sul, Brasil”, teve como base a pesquisa prática realizada no curso de Artes Cênicas da UFSM, a qual gerou o espetáculo Manantiais (1989). Esse espetáculo, que foi uma criação coletiva do grupo de professores do DAC e dos alunos do TEU (Teatro Experimental Universitário), foi uma adaptação para a linguagem cênica dos contos de Simões Lopes Neto e de Barbosa Lessa, além de conter fragmentos do diário de Saint-Hilaire quando de sua viagem ao RS, no final do século XIX. No processo de criação, que durou um ano e meio, descobri que a cultura gaúcha possui muitos elementos teatrais, como as técnicas corporais do gaúcho campeiro, a sua indumentária e o ritual de alimentação, a trova, etc. Além disso, tive o privilégio de estudar uma disciplina, a Etnocenologia, que estava sendo lançada (1995) por um grupo de intelectuais e artistas franceses, entre eles, o meu orientador, Jean Marie Pradier. Essa disciplina foi fundamental, pois me deu um suporte básico para desenvolver a tese. Então, foi muito profícua a parceria que tive com o meu orientador, pois a minha tese foi a primeira a utilizar e colocar em prática os conceitos da disciplina da Etnocenologia, recém-criada.

Espetáculo Trago Sorte, Mentira e Morte (2022) recebeu os prêmios de melhor Direção (Inês Marocco e Kalisy Cabeda, juntamente Simone Rasslan, que assinou a direção musical), Dramaturgia (Celso Zanini), Ator coadjuvante (Anildo Böes) e Trilha Sonora (Grupo Cerco e Banda)

Foto: Adriana Marchiori /Divulgação

Extra Classe – No que consiste a Etnocenologia?
Inês Marocco – Essa disciplina foi criada por um grupo de intelectuais, artistas e professores – Jean Marie Pradier, Françoise Gründ, Chérif Khaznadar –, que sentiram a necessidade de conceituar os estudos e as pesquisas que estavam fazendo sobre as diferentes manifestações tradicionais, populares, e seus aspectos artísticos/teatrais, o que eles não encontravam em nenhuma disciplina ou ciência. A Etnocenologia tem como definição o estudo, em diferentes culturas, das práticas e dos comportamentos humanos espetaculares organizados. O conceito espetacular – que é o cerne da disciplina – pode também ser considerado como performativo, se caracterizando por não se reduzir somente ao visual; por se referir ao conjunto das modalidades perceptivas humanas, além de ressaltar o aspecto global das manifestações emergentes humanas, incluindo aí as dimensões somáticas, físicas, cognitivas, emocionais e espirituais. Eles se inspiraram também na disciplina da Etnomusicologia, que parte do pressuposto de que a música tem uma dimensão fundamental para a humanidade, ao lançar a questão: O quão musical é o homem? (John Blacking). Da mesma forma, para a Etnocenologia, a questão-chave para o entendimento da disciplina é: O quão performático é o homem? A disciplina foi lançada em 1995, na sede da Unesco, seguido de um colóquio internacional no mesmo dia e no dia seguinte na Maison des Cultures du Monde, em Paris. Na realidade, a disciplina da Etnocenologia abriu a perspectiva dos estudos sobre o teatro, ampliando-o, pois passaram a ser considerados os aspectos teatrais das diferentes manifestações culturais, populares. O teatro não é somente aquele convencional, feito dentro de uma caixa italiana.

Extra Classe – No que a formação em teatro na universidade francesa se difere e no que se aproxima ou dialoga com a formação no ensino superior brasileiro?
Inês Marocco – Aprendi muito na França. O e a estudante têm que ter bastante autonomia, porque não têm o mesmo tipo de acompanhamento que fazemos aqui. O aluno e a aluna ficam muito sozinhos no período de sua pesquisa. Meu orientador, Pradier, tinha aproximadamente uns 20 orientandos e orientandas. Era muito complicado conseguir uma orientação. Uma vez, durante uma greve em Paris, meu marido foi de bicicleta até a sua casa – ele morava em Saint-Denis, que é um bairro afastado de Paris, numa distância equivalente entre Porto Alegre e São Leopoldo, por exemplo – entregar um capítulo da tese para que ele lesse, pois eu não conseguia encontrá-lo.

Extra Classe – Falemos então sobre outras experiências estéticas vivenciadas na França. Para além do ambiente acadêmico, que outras experiências ajudaram na consolidação da tua formação e da tua metodologia de trabalho? Conte-nos a respeito delas.
Inês Marocco – Estes dois períodos de estudo na França foram muito importantes para mim, não só no sentido de desenvolver uma autonomia na formação acadêmica, mas também na aprendizagem de vida, de mundo e cultural, porque tive o privilégio de viver momentos culturais importantes e assistir a grandes espetáculos e exposições, pois Paris era na época e será sempre o centro da cultura mundial. Tive o privilégio de nos anos 1980 viver em Paris durante o governo de François Mitterrand, cujo ministro da Cultura era Jack Lang. Naquele período, a cultura na França nunca foi tão subvencionada como antes. Pude assistir a trabalhos de dança de coreógrafos franceses que estavam despontando, como Maguy Marin, Philippe Decouflé, e de outras nacionalidades, como Angelin Preljocaj, Pina Bausch, Jan Fabre, Anne Teresa de Keersmaeker, entre outros. Assisti a espetáculos de diretores como Giorgio Strehler, Ariane Mnouchkine, Tadeusz Kantor, e do grupo Berliner Ensemble, entre outros. Foi uma época de muita efervescência na França e na Europa em geral.

Espetáculo Arena Selvagem, de 2019, recebeu o Prêmio Braskem no Festival Internacional de Teatro Porto Alegre em Cena de melhor espetáculo pelo júri oficial e popular; Prêmio Açorianos de melhor direção; Prêmio Cenym de melhor espetáculo, direção, grupo, elenco e adereços

Foto: Adriana Marchiori/Divulgação

Extra Classe – Atuas como professora na graduação em Teatro e na pós-graduação em Artes Cênicas. Também és diretora do Grupo Cerco, com o qual vens colecionando prêmios. Em que medida as duas atividades se retroalimentam e como isso acontece?
Inês Marocco – O Grupo Cerco surgiu a partir do meu grupo de pesquisa, que existe desde 2001, intitulado As técnicas corporais do(a) gaúcho(a) campeiro(a) e a sua relação com a performance do(a) ator(atriz) dançarino(a). Esta pesquisa teve como objetivo dar continuidade à  investigação iniciada no trabalho de tese, enfatizando o aspecto das técnicas corporais do gaúcho campeiro e as suas possibilidades de utilização na pedagogia do(a) ator(atriz) dançarino(a). No período de 2001/03, criamos, eu e o primeiro grupo da pesquisa, um sistema de treinamento baseado nas técnicas corporais da lide campeira do gaúcho, sistema esse que tem como objetivo desenvolver a presença física do ator e da atriz. Algumas das técnicas da pedagogia desenvolvida na Escola Jacques Lecoq foram utilizadas para realizar a transposição dessas técnicas corporais na construção do sistema de treinamento e desenvolver a presença física do ator/dançarino conforme os princípios recorrentes da Antropologia Teatral de Eugenio Barba. Uma vez criado o sistema em 2003, este tem sido transmitido a cada grupo de estudantes que permanece um período de três anos, finalizando a pesquisa com a criação de uma dramaturgia ou de um espetáculo. Em 2022, a pesquisa foi encerrada com o último grupo, completando 21 anos de existência. Em 2008, recebemos convite do professor Alfredo Nicolaiewsky, na época diretor do IA, que queria comemorar os 50 anos do Instituto de Artes, para realizar uma montagem a partir de um texto de um autor gaúcho. Então, com o grupo de pesquisa que tinha entrado em 2006, resolvemos finalizar a pesquisa com a criação do espetáculo O Sobrado. A ideia de montar um espetáculo a partir de uma adaptação da literatura vinha da minha vontade de continuar o trabalho iniciado com os alunos na UFSM, onde havíamos feito várias montagens a partir de adaptações literárias. Eu queria também realizar um espetáculo que se passasse fora da caixa italiana convencional de teatro. Eu tinha assistido a um espetáculo em Buenos Aires que se passava dentro de uma casa, com o grupo Sportivo Teatral, e tinha achado genial a ideia deles de usar uma casa como cenário. Então, o nosso objetivo foi o de realizar um espetáculo cuja história se passasse dentro de uma casa. O ator Philipe Philippsen sugeriu o texto dos sete capítulos intitulados O Sobrado, que estão nos dois volumes do Continente, da obra O Tempo e o Vento, de Erico Veríssimo. Para criar o espetáculo tivemos que abrir o grupo para outros alunos e alunas porque necessitávamos de mais atores e atrizes para os diferentes papéis. Apareceram 21, mas acabaram ficando 14, que formaram o Grupo Cerco. Com o grupo de pesquisa seguinte, em 2012, fizemos Incidente em Antares, baseado no livro homônimo de Erico Veríssimo. Esses dois trabalhos foram realizados dentro da Universidade, partindo de grupos da pesquisa. Em 2013, com outro grupo da pesquisa, trabalhei sobre a obra de Qorpo Santo, que gerou o espetáculo Santo Qorpo ou o Louco da Província, adaptação da obra Cães da província, de Luiz Antonio de Assis Brasil, e de outros fragmentos de algumas das peças de Qorpo Santo e da sua Esciqlopèdia. O grupo que realizou esse trabalho se chama Santo Qoletivo. Para os alunos e as alunas que fazem parte dos grupos de pesquisa, ela tem se constituído numa complementação à sua formação acadêmica. Na realidade, é na pesquisa que eles e elas podem experienciar uma formação, porque trabalham juntos durante três anos, podendo acompanhar tanto a sua própria evolução como a do outro; realizam na prática o que estudam e são orientados por pessoas que passaram pela mesma formação, além da minha coordenação. Outro aspecto importante que é desenvolvido na pesquisa é a questão da autonomia.

Extra Classe – Na criação, há muita diferença entre os processos da pesquisa (mais relacionados aos estudos da teoria) e as questões das práticas corporais?
Inês Marocco – Eu não vejo muita diferença entre o que é feito na pesquisa e o que é feito em aula, pois em ambas estamos sempre em processo de criação e de descobertas, num trabalho onde o coletivo é o sistema de trabalho que sustenta e estrutura o grupo. E esta prática se mostrou funcional, pois dos grupos da pesquisa duas trupes se formaram: o Cerco e o Santo Qoletivo, e tantos outros e outras migraram ou fundaram outros coletivos. Entre as minhas aulas de Direção e o trabalho com o grupo Cerco existem muitos pontos em comum. Por exemplo, o trabalho de direção de atores; o trabalho com o sistema coletivo e colaborativo onde todos, além de atuar, desenvolvem alguma atividade para a realização ou concretização do espetáculo; a ênfase na importância de se trabalhar com adaptações de diferentes narrativas, além da literatura dramática, para a linguagem cênica; a importância do método da Análise Ativa – segundo Konstantin Stanislávski – do texto ou narrativa a ser trabalhada. E eu me baseio à partir da obra de Nair D’Agostini sobre o trabalho com a Análise Ativa do Stanislavski.

Extra Classe – A direção teatral desde sempre foi uma primeira opção? Profissionalmente, o que te atrai na direção de atores?
Inês Marocco – Sempre foi a minha primeira opção, seguida pela Licenciatura. Nunca me senti bem atuando nos moldes realistas. O único lugar onde me senti bem atuando foi na escola Lecoq, porque a base era o jogo corporal, trabalho com máscaras e estilos. Em relação à direção, me considero muito mais pedagoga do que diretora. Ou diretora pedagoga. Preocupo-me em formar atores e atrizes, antes de qualquer coisa. Num primeiro momento do processo de criação, realizo um trabalho de instrumentalização do grupo. A ideia é equiparar todos na mesma técnica ou estilo, antes mesmo de começar o processo de criação propriamente dito. Técnicas ou estilos estes que servirão como material para a criação de situações e composição de personagens de cada um e cada uma deles e delas na criação. Meu trabalho se realiza de forma coletiva com o grupo, nunca venho com a concepção pronta, ela vai se realizando na medida em que o trabalho com os atores e com as atrizes vai se construindo. A base do trabalho é a técnica da improvisação. Na criação, estabeleço uma horizontalidade no trabalho com o ator e com a atriz, pois considero que todos somos criadores e criadoras. Da mesma forma que cada componente da equipe técnica também é criadora. Todos são criadores de dramaturgias.

Extra Classe – Há entre os diretores da tua geração aqueles ou aquelas com quem te identificas? Por quê? E quem são as tuas referências profissionais contemporâneas?
Inês Marocco – Eu me identifico totalmente com o sistema de trabalho da diretora francesa Ariane Mnouchkine e com a maneira como ela encara a função do teatro. Desde a primeira vez que fui para a França, me apaixonei pelo trabalho que ela faz e me espelho muito nos seus espetáculos e escolhas.

Extra Classe – Há algum projeto deixado para trás e que por algum motivo ainda não tenha sido possível realizá-lo? O que te falta em termos de realização profissional?
Inês Marocco – Publicar minha tese; escrever artigos sobre cada processo artístico desenvolvido; plantar mais árvores. Tenho plantado árvores, estamos necessitando urgente de mais verde.

Extra Classe – Alguma montagem prevista para este ou próximo ano?
Inês Marocco – Não tenho nada em mente, por enquanto. Alguns esboços de ideias, vontades, nada concreto.

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