Cultura
Formação gratuita para educadores sobre música erudita de forma lúdica
Atividade conduzida pelo diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Lisboa apresenta estratégias pedagógicas para aproximar…

A produção marca a estreia do ator Heinz Limaverde como diretor teatral. No primeiro, homenagens a Dandara Rangel, Rebecca MacDonald e Nega Lu, pioneiras dos palcos gaúchos que já faleceram
Foto: Adriana Marchiori/ Divulgação
A montagem da Cia. Rústica, Croquette com Suco — um cabaré delícia que estreou em outubro terá uma nova e curtíssima temporada em Porto Alegre. O espetáculo musical é um tributo aos artistas da noite LGBT e fica em cartaz por quatro dias: de quinta-feira, 3, a domingo, 6, com sessões às 20h (quinta a sábado) e às 19h no domingo, na Zona Cultural (Alberto Bins, 900, Floresta), em Porto Alegre.
Em “clima de cabaré”, a montagem tem música ao vivo, dublagem, plumas e purpurinas, humor e poesia. A produção marca a estreia do ator Heinz Limaverde como diretor teatral.
Já no primeiro ato, as homenagens são para Dandara Rangel, Rebecca MacDonald e Nega Lu, pioneiras dos palcos gaúchos que já faleceram.
“É necessário contar histórias que tantas vezes são invisibilizadas, celebrar vidas que tantas vezes são excluídas. Um grito contra o preconceito, a violência e a exclusão. São corpos em festa, defendendo a alegria como uma trincheira”, ressalta o diretor.

Eulália no palco, em uma celebração das múltiplas contribuições de artistas travestis e gays na cultura brasileira, assim como aquelas estrelas que influenciaram gerações
Foto: Diogo Vazzz/ Divulgação
Limaverde, que está comemorando 50 anos de idade e 30 como artista profissional, relata que dividiu os palcos com algumas dessas artistas.
“A Dandara, a Rebecca e a Nega Lu foram artistas que tive o prazer de conhecer e com quem trabalhei. Essas três figuras são as que encontro mais próximas de mim para homenagear, de forma muito carinhosa, artistas do mundo todo. É lembrar a importância das que chegaram antes, das que abriram caminhos”, sublinha.
Em outro ato da peça há uma celebração das múltiplas contribuições de artistas travestis e gays na cultura brasileira, assim como aquelas estrelas que influenciaram gerações, como Vanusa, Clara Nunes, Alcione e Carmen Miranda. Referências que se misturam ao legado do grupo Dzi Croquettes – inspirador do título da peça, Croquette com Suco.
O roteiro inclui histórias da noite “transviada” de Porto Alegre, como sublinha o diretor. No elenco, Gisela Haybeche, Phill, Estrela Dinn, Eulália e Tiago Jorej. O projeto é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (Edital Sedac-RS) e integra as comemorações dos 20 anos da Cia. Rústica e sua proposta de pesquisa desenvolvida em torno de poéticas festivas, cabarés e diálogos entre arte e política.
ENTREVISTA | HEINZ LIMAVERDE

“A figura do palhaço me encantou desde o início, na minha infância era um dos personagens que eu mais gostava de fazer, a minha avó me ajudava com a produção dos figurinos”
Foto: Fernanda Chemale/ Divulgação
A figura do palhaço e a atmosfera dos lugares de festa e irreverência são recorrentes no trabalho do ator cearense Heinz Limaverde, da Cia. Rústica. Depois de viver o palhaço Azia, que encantou plateias por todo o país com o espetáculo O fantástico circo-teatro de um homem só, ele volta aos palcos como diretor de teatro, em Croquette com Suco – um cabaré delícia. Nesta entrevista, Limaverde conta causos da infância vivida no Crato, Ceará, marcada pela contrastante atmosfera de efervescência da arte popular e de austeridade religiosa do lugar, e faz um balanço dos seus 30 anos de carreira artística.
Extra Classe – Esse espetáculo marca a tua estreia na direção depois de 30 anos de carreira. O que representa?
Heinz Limaverde – Eu sou um artista autodidata, nasci numa cidade do interior do Ceará, fronteira com Pernambuco, a cidade do Crato, na região do Cariri cearense, que sempre foi um território muito cultural. A gente tem as bandas cabaçais, os reizados, o teatro amador, música, algumas das primeiras escolas de música com artistas campesinos, pessoal do campo que aprende música e se transforma numa orquestra no final dos anos 70, que existe até hoje e que viajou o Brasil e o mundo. Tive a oportunidade de estudar gratuitamente por ser de uma família humilde, filho de professores, nesse lugar, teatro música e um pouco de dança numa academia de uma amiga que morava perto da casa da minha mãe. Cheguei em Porto Alegre e continuei fazendo oficinas com o Zé Adão Barbosa, com o Renato Del Campão, Paulo Guerra, daí fui para o Depósito de Teatro. A partir de 1994 – aí eu inicio minha trajetória como ator profissional – eu já vinha do teatro amador lá do Ceará, estreei com Romeu e Julieta, montagem do Zé Adão, de 1994. E agora, completando 30 anos de trabalho profissional no teatro, onde já experimentei várias linguagens, não só no espaço teatro, mas já fiz teatro na rua, em boates, casas noturnas, em tudo que foi espaço que você possa imaginar. Pra mim, essa questão da direção aparece muito, não era uma meta pra mim, mas a gente tem que produzir, fomentar trabalho pra manter o espaço vivo, grande. Apareceu essa oportunidade numa conversa com a Patrícia Fagundes, que me dirige há muito tempo, de experimentar, de ir à Lei Paulo Gustavo com essa ideia de um cabaré que fizesse uma homenagem a essas figuras LGBT da noite, das mais antigas, quem veio antes, não só do Rio Grande do Sul, mas do Brasil todo e do mundo. Essa transição pra mim é importante mais como experiência, como experimento. Acredito muito que toda a minha parte artística eu construí experimentando, já brinquei de fazer figurino e fiz figurino, fui premiado, mas porque eu sempre gostei de experimentar, já fui pra maquiagem, já fui pro cenário, então, eu gosto, dentro do teatro, das artes, de experimentar, mesmo que nem sempre o resultado seja cem por cento, pesquisar fazendo.
EC – O que mudou na tua carreira desde o clown de O fantástico circo-teatro de um homem só?
Limaverde – O principal foi o amadurecimento como profissional. Teve um bom reconhecimento do público. Por onde eu passei tive a sorte de ser um espetáculo que atingiu vários públicos, tive a oportunidade de percorrer o Brasil em festivais e o Palco Giratório Nacional também me abriu muitas portas. Antes, uma curadoria de festivais que estava em Porto Alegre, assistiu ao espetáculo e o levou a lugares muito diferentes, onde eu jamais imaginei apresentar, locais, públicos variados. Isso pra mim é uma das coisas mais importantes na minha trajetória artística que o Fantástico Circo me possibilitou, experimentar essas plateias num país como esse, gigantesco como esse, de culturas tão diferentes em cada região, em que o espetáculo sempre foi muito bem recebido.

“Uma toalha de mesa colorida vira calça de palhaço, tampa de desodorante vira nariz de palhaço, tudo são possibilidades”
Foto: Frederico León/ Divulgação
EC – Naquele espetáculo, teu personagem conta que pertence a uma geração de palhaços. O que há de autobiográfico em relação aos clowns que tanto aparecem nos teus espetáculos?
Limaverde –É o palhaço Azia que fala que é filho, neto e família de palhaço. A figura do palhaço me encantou desde o início, na minha infância era um dos personagens que eu queria, eu fazia, a minha avó que é essa que eu falo no espetáculo, eu queria muito que ela me ajudasse com produções de figurinos. Sem grana mesmo, a gente produzia. Tem uma história que eu conto no Clube do Fracasso, espetáculo da Rústica de 2010, que eu transformava o que tinha em possibilidade de me transformar em palhaço. Mas é mais por isso, a figura que me encantou e que eu adoro, gosto muito do visual dos palhaços de vários tipos, tanto os bem brasileiros do interior como os internacionais, a figura e a maquiagem, tudo me encanta muito, mas é essa a ligação que eu tenho com o palhaço. E na primeira vez que eu realmente vesti roupa de palhaço, eu tinha dez anos, a minha professora trabalhava no mesmo colégio que o meu pai, ela via a minha vontade do teatro, ela decidiu me montar, pagar uma montaria, um figurino e me levar como palhaço para o aniversário da sobrinha dela. Foi o pontapé inicial pra incentivar ainda mais essa paixão por pesquisar o palhaço, por brincar o palhaço, os vários palhaços que eu gosto de fazer.
EC – Como surgiu Croquette e qual a proposta do musical?
Limaverde –Quando assisti ao documentário Dzi Croquettes (2010) aquilo me bateu muito, tanto as imagens quanto a história. Tinha ouvido falar, mas não tinha visto nem tive contato com as figuras. Reverberava muito na minha cabeça a história do coletivo e do momento que o Brasil passava e aí eu sempre tive vontade de usar como inspiração para algum trabalho. Junto com isso, sempre tive vontade de contar, pois adoro ouvir histórias sobre personagens, sobre pessoas. Isso pra mim como ator, como artista, é um material muito rico para a construção das figuras que eu coloco nas cenas ou que proponho nos trabalhos.
EC – Quem foram essas artistas?
Limaverde –O espetáculo presta uma homenagem direta à Nega Lu, uma figura icônica da noite de Porto Alegre, ativista, mas que foi solista da Orquestra do Coral da Ospa, foi professora de dança de balé, cantava fantasticamente. Rebecca MacDonald, uma mulher trans que trabalhava também como cabeleireira, profissional da beleza, uma atriz fantástica, fez cinema, teatro. Em cena era um furacão. Dandara Rangel era um afeto bem próximo, me deu muitas oportunidades de trabalho, fizemos várias parcerias. Na noite de Porto Alegre, ela dublava a Alcione e outras cantoras. Era um absurdo. Um ator, o Jair, nome artístico Dandara Rangel, era uma figura fantástica, e o Dzi Croquette que tem uma história para o Brasil e que inspirou tantos artistas. As Frenéticas nasceram filhotas do Dzi Croquettes, são artistas que eu acho importante homenagear e que não podem cair no esquecimento. Rogéria, Heroína, são muitas. Laura de Vison, isso eu falo as do Rio, São Paulo, mas as daqui também. Acho importante homenagear, contar um pouco da história dessas figuras que foram fundamentais para o que a gente consegue realizar hoje em cena. Não pense que antes do Ru Paul isso aqui era tudo mato. Não é bem assim, né? Tem uma galera que antes já vinha há muito tempo, desde o Teatro de Revista a gente já tem atores transformistas e pessoas trans trabalhando em cena e lutando por esse espaço.
EC – Um tributo repleto de irreverência, malícia e deboche, tudo a ver com as homenageadas, entre as quais aparece Elis Regina, e com a atmosfera do Teatro de Revista.
Limaverde –Quanto ao nome do espetáculo, é porque o nosso croquete é bem recheado. O suco é uma brincadeira com os drinques, com a bebida, a gente vai falar um pouco sobre isso lá. E que nós somos croquetes, feitos de carne e estamos aí para o jogo. Com bastante suco, sempre. É tudo do deboche. Eu gosto muito dos números do teatro de revista e dessa identidade do show da boate gay, da linguagem, do dúbio, do glamour, do brilho falso, do falso brilhante que a gente pode surrupiar da Elis, a quem a gente faz homenagem no espetáculo, assim como todas essas mulheres que inspiraram esses artistas gays. Esse nome, Cabaré delícia, porque vem da questão do croquete com suco né? Que pode ser uma delícia, um bom croquete com um suco delicioso pode… eu gosto de brincar muito com os nomes até chegar num título legal para o espetáculo. E o Croquette já teve várias versões até chegar nessa brincadeira. Espero que o público se delicie com os nossos croquetes em cena.
EC – Quando criança, você era fascinado pela ideia do “cabaré”, enquanto lugar de festa; e pela música Tango Pra Tereza, da Angela Maria, o que rendeu até um pequeno escândalo na sacristia. Como foi isso?
Limaverde –É uma história que a minha avó contava e que eu sempre repito. Tive a oportunidade de encontrar a Ângela Maria lá em São Paulo e contei pra ela sobre esse acontecimento. A minha família é católica, muito fervorosa. Eu e a minha avó, a gente morava do lado da igreja matriz da cidade, e sempre tinha uma ligação com a igreja. Ela me levava pra tudo, pras procissões, as festas, tudo que acontecia na igreja. Com uns três ou quatro anos de idade eu adorava, tinha uma coisa com palavrão, contam que a gente ganhava bombom pra falar palavrão e tinha uma coisa da palavra cabaré, olha que absurdo, enfim acabo num cabaré… Não existia essa possibilidade lá no interior do Ceará de cabaré ser um lugar artístico. Era lugar de prostituição, bebedeira, briga, sinônimo de confusão. Eu tinha um vizinho que escutava muito a música Tango Pra Tereza, composição de Evaldo Gouveia e Jair Pedrina de Carvalho Amorim, imortalizada na voz da Angela Maria, uma música pela qual eu sou apaixonado até hoje. Um dia lá, de alguma missa, a minha vó sempre tinha a questão de comungar, de água benta, uma fila, e estava comigo no braço, eu estava do lado, três quatro anos de idade. Chegamos pra falar e o bispo, o palácio do bispo e a igreja, era tudo perto da casa da minha avó, que era uma figura conhecida e aí ela foi falar com o bispo, pedir as bênçãos. Eu apontei pra luz do sacrário que estava acesa, tinha uma luzinha vermelha lá dentro, e falei: “vó, olha a luz do cabaré”. Uma história inocente, mas que já dava uma pista de quem vinha pela frente.