Adriane Mottola e o teatro possível dos desejos e potências

Adriane Mottola fala sobre direção teatral: “as máscaras e os jogos forjaram em mim o desejo por uma dramaturgia de presença física intensa”
Adriane Mottola e o teatro possível dos desejos e potências

Crise de identidade e riso no espetáculo ‘A Comédia dos Erros’, de 2008, dirigido por Adriane Mottola

Foto: Vilmar Carvalho/ Divulgação

Natural de Porto Alegre – 70 anos de vida completados em 3 de novembro de 2024 –, a diretora, atriz e produtora Adriane Cecilia Pinto Mottola é uma das artistas mais profícuas da capital gaúcha, tanto pelo trabalho contínuo quanto pelo êxito nesses 35 anos dedicados ao teatro. Mestre em Artes Cênicas pelo Departamento de Arte Dramática (DAD) da Ufrgs, ela integra desde o início a Cia. Stravaganza, que ajudou a fundar, em junho 1988, com Luiz Henrique Palese e Cacá Corrêa, ambos já falecidos. Com esse coletivo, produziu e dirigiu inúmeros sucessos que alcançaram reconhecimento do público e da crítica. Em 2022, Adriane fez parte da equipe responsável pela direção artística da 29ª edição do Porto Alegre em Cena, experiência que reafirma sua capacidade de articulação e de dedicação junto às artes da cena. Em 2023, quando completou 36 anos, o Stravaganza comemorou com uma montagem cuja direção também levou a assinatura dela. “Iniciamos naquele momento um processo de pesquisa que resultou em um novo trabalho: A Mulher que Queria ser Micheliny Verunschki, um solo com a atriz Sandra Possani, projeto selecionado pelo FAC das Artes de Espetáculo”, lembra. Neste ano, o grupo celebra seus 37 anos, contando com mais de 30 espetáculos produzidos. Nesta entrevista, Adriane conta como é fazer teatro em Porto Alegre, fala sobre infância, formação e parcerias nos palcos e discorre sobre o trabalho e os processos criativos da direção teatral.

Adriane Mottola e o teatro possível dos desejos e potências

“Faço teatro a partir de quem somos, de quem é, o que pode e o que deseja o grupo que vou dirigir”

Foto: Vilmar Carvalho/ Divulgação

Extra Classe – Você disse que sua infância foi tranquila, como a da maioria das meninas da tua geração, e já com uma ligação com os palcos por conta do balé. Como foi?
Adriane Mottola Foi uma infância tranquila, na Rua Francisco Ferrer, Bairro Rio Branco, onde jogava bolita e brincava de Forte Apache, mas também “cozinhava” comidas à base de plantas para as minhas bonecas e brincava de circo com meu irmão. Maiorzinha, trocava gibis na frente do cinema Rio Branco e colecionava figurinhas. Desde pequena, frequentei a escolinha de ballet do bairro, ali na rua Mariante. Num fim de ano nos apresentamos no Theatro São Pedro – até hoje guardo meu primeiro figurino de bailarina! Primeiros indícios.

EC – Em que momento percebeu que o teatro seria a tua profissão?
Adriane Demorou um pouco, sabe? Entrei no DAD (Departamento de Arte Dramática da Ufrgs) em 1980 e já estava em cena por volta de 1984. Mas acho que percebi mesmo que não tinha mais volta quando trabalhei como atriz com o Teatro Vivo em Peer Gynt, Imperador de Si Mesmo. Esse trabalho foi fundamental porque foi meu primeiro contato com o teatro de grupo, onde me senti participante de algo maior, em que me exigiam mais do que o trabalho de atriz e me tornei consciente dos diversos momentos da criação e da produção de um espetáculo. Aprendi demais com a Irene Brietzke e com o Teatro Vivo. E nasceu ali a vontade de criar em grupo. Peer Gynt é de 1987, mesmo ano em que eu e o (Luiz Henrique) Palese nos percebemos e começamos a imaginar futuros. Em 1988, estreamos o primeiro espetáculo da Cia. Stravaganza.

EC – Tua formação é em interpretação. Como se deu essa mudança de percurso que te conduziu para a direção?
Adriane – No teatro de grupo há compartilhamento da criação. A cena, o espetáculo, tudo vai se criando coletivamente, mesmo com a figura da diretora ou do diretor, que conduzem o processo. Nesses processos de criação, as vontades afloram e os integrantes da equipe vão se especializando em outras funções, como dramaturgia, figurino, cenografia. Eu caminhei para a direção. Em 1989, estreei o primeiro espetáculo que dirigi e que foi o segundo montado pela Cia. Stravaganza: O Marido era o Culpado, adaptação para o teatro do filme Armadilha Mortal, de Sidney Lumet. No elenco, estiveram Bira Valdez, Cacá Corrêa, Luiz Henrique Palese, Walkiria Grehs e Pilly Calvin. Mas só depois de dez anos esse desejo se tornou mais palpável, contínuo, profissional.

EC – E qual é a marca ou a assinatura Adriane Mottola na direção? Como você a define?
Adriane – Crio a partir dos desejos e potências dos atores e tento ouvir e dar voz a todos os integrantes da equipe. O meu desejo é não ter marca nem assinatura, pois cada processo é único. Mas, obviamente, percebo que o contato com o mascaramento (teatro de máscaras) e com os diversos estilos de jogo criou em mim o desejo por uma dramaturgia com presença física intensa e de grande teatralidade.

EC – Você ajudou a criar a Cia Stravaganza em 1988. O que mudou de lá para cá? Qual a principal característica da companhia hoje?
Adriane – Criamos a Stravaganza em 1988 – eu, Luiz Henrique Palese e Cacá Corrêa – e alguns anos depois nos interessamos pelo mundo das máscaras. Criamos espetáculos com as máscaras expressivas, da comédia dell´arte, do clown, e durante um bom tempo a tradição (recriada) fez parte do nosso repertório. Os diversos estilos de jogo que vivenciamos também sedimentaram processos de criação plenos de cumplicidade. Desde 2002, temos trazido à cena a dramaturgia contemporânea, com encenações de Ramón Griffero, Joel Pommerat, Rodrigo Garcia, ao lado de trabalhos totalmente autorais, como Encontros depois da Chuva (2001) e Pequenas Violências Silenciosas e Cotidianas (2013, texto e direção de Fernando Kike Barbosa). Durante a pandemia criamos um vídeo-experimento, 9 SAIAS, um trabalho que cruzou relatos pessoais das atrizes e atores do grupo com textos da escritora Jamaica Kincaid. Hoje nos deixamos navegar à deriva, como é o tempo que nos toca viver.

EC – Quais são os principais desafios de se fazer teatro em Porto Alegre?
Adriane – Fazer teatro em Porto Alegre é luta constante, está tudo sempre por fazer. Tem que criar, escrever projeto, planejar, tecer estratégias, agregar, produzir, conduzir, buscar parcerias, divulgar, distribuir, lutar pra ter plateia, data em teatro, pra sair da cidade, do estado, do país, pra ter o controle da tua vida artística. Luta contínua, desgastante, puro Sísifo.

EC – Você já mencionou que tem mais dificuldades em trabalhar textos contemporâneos. De que ordem são essas dificuldades?
Adriane – Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). Nesse comentário do Ítalo Calvino encontro o mote pra te responder. Quando encenamos um Shakespeare, Ibsen, ou até mesmo um dramaturgo contemporâneo bastante montado como Nelson Rodrigues, temos muito material referencial: outras montagens, ensaios, críticas, uma iconografia poderosa já produzida. É um trabalho de investigação profunda, laboratórios, até chegar a uma apropriação daqueles universos. Mas há um ponto inicial mais preciso.  Quando trabalhamos com um texto dramatúrgico contemporâneo ainda não encenado, sobre o qual nada foi escrito, é um salto no abismo, é viagem sem mapa – estamos no terreno da incerteza, falamos agora de um mundo presente que ainda não compreendemos inteiramente. Um mundo mais aberto para revolver, um processo muito mais desafiador. As referências serão outras, o processo de criação é de outra natureza, tem que ter a intensidade do nosso presente.

Adriane Mottola e o teatro possível dos desejos e potências

‘A Extraordinária Aventura Romântica de Miranda e Leo Lorival’, montagem de 2019: “Fazer teatro é luta contínua, desgastante, puro Sísifo”

Foto: Vilmar Carvalho/ Divulgação

EC – Qual ou quais os espetáculos mais desafiadores que você já dirigiu em termos de técnica e de estética?
Adriane – O espetáculo mais desafiador é sempre aquele que está sendo gerado agora, no presente. É ele que me move, engaja, preocupa, sobressalta. Mas olhando pra trás, Teus Desejos em Fragmentos (2006), do dramaturgo chileno Ramón Griffero, foi extremamente desafiador.

EC – Por quê?
Adriane – Era um enigma, sempre outros sentidos por descobrir. Os temas do texto afloravam, criavam sensações em todos nós, possibilidades de encenação imensas, um texto totalmente aberto a toda e qualquer proposta. Belíssima viagem!

EC – Na tua opinião, quais são as características de um bom ator e de uma boa atriz?
Adriane – Disciplina, entrega, curiosidade, trabalho constante e muitas gramas de loucura.

EC – Nas diferentes montagens da Stravaganza, a gente percebe influências da commedia dell’arte, de Meyerhold, de Ariane Mnouchkine. Em conversa com a Inês Marocco, em 2020, você falou nas questões das teorias e práticas decoloniais e em reinterpretações nos processos criativos. Afinal, quais são tuas referências contemporâneas e de que forma elas repercutem no teu trabalho?
Adriane – Eu faço teatro a partir de quem somos, de quem é, o que pode e o que deseja o grupo que vou dirigir. Então, minha primeira proposta é ampliar o que somos através das mais diversas referências e técnicas. Do encontro entre texto e equipe de criação, imaginando, soando, em busca de movimentos, sons, imagens. E a cada projeto procuro alargar visões, compreensões, encontrar novas parcerias. Em 9 SAIAS, criávamos reinterpretações de textos da Jamaica Kincaid, é disso que falei com a Inês. Inspirados nos textos desta escritora, fomos criando diversos relatos pessoais, reais ou imaginados, para compor nosso vídeo-experimento, realizado durante a pandemia e dirigido pelo Fernando Kike Barbosa. Referências contemporâneas: Um diretor brasileiro que admirava muito: Aderbal Freire Filho. Seu romance-em-cena me afetou muito e em alguns espetáculos experimentamos a nossa forma de trabalhar sobre essa “narraturgia” – termo criado pelo dramaturgo espanhol José Sanchez Sinisterra.

EC – Quais são teus planos para o futuro? Há algo novo sendo preparado para o público?
Adriane – Em 2023 criamos A Mulher que queria ser Micheliny Verunschk. Em 2024 estreamos Kassandra (interpretada pela atriz e bailarina trans Estrela Dinn), de Sergio Blanco, além da nova encenação de Mritak – A Comédia da Vida, como uma experiência cênico-gastronômica sob o comando do ator, produtor e chef Duda Cardoso – formado em gastronomia no Brasil e em confeitaria em Buenos Aires. Em 2025, pretendemos reunir todo o grupo novamente em um espectáculo, e já estamos na fase da escolha da dramaturgia, que dará início a um novo processo de criação.

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