Cultura
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Monólogo tem atuação de Mariana Vellinho e direção de Julio Zaicoski
Foto: Alex Ramirez/Divulgação
Refletindo sobre as dificuldades femininas, estreia na próxima sexta-feira, 20, às 20h, no Teatro de Arena, em Porto Alegre, o espetáculo Fôlego, com atuação de Mariana Vellinho, direção de Julio Zaicoski, iluminação de Fernando Ochôa, cenário de Rodrigo Shalako e figurinos de Alexandre Magalhães e Silva. Ingressos: R$ 40,00 inteira e R$ 20,00 meia (estudante, classe artística e idosos).
A dramaturgia do monólogo é autoral – assinada pelo diretor e pela atriz –, livremente inspirada na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues.
Fôlego lança um olhar sensível para uma mulher que cansou de ser vista apenas como esposa, como objeto ou apenas apta a desempenhar os papéis ditos convencionais que a sociedade lhe impõe e dela espera.
A encenação convida o público a um mergulho na vida da personagem Zizinha, uma mulher imersa em sucessivas infelicidades.
Com a saúde debilitada e um casamento em ruínas, a protagonista busca maneiras de mudar de vida, nem que seja em seu último suspiro, encontrando na morte um momento de transformação ou de transmutação da sua sofrida realidade.
O Extra Classe acompanhou uma manhã de ensaios, oportunidade em que conversou com o diretor e com a atriz.
EC – Como foi o processo de criação do texto do espetáculo e dos ensaios?
Julio Zaicoski – Começamos o processo on-line, porque eu estava morando em Florianópolis. Então, o ponto inicial foi a leitura do texto A Falecida, do Nelson Rodrigues. Buscamos algumas análises feitas sobre a obra e fomos investigando o que nos interessava contar, quais as questões que podiam direcionar o nosso processo. Fizemos alguns experimentos de escrita criativa e começamos a trabalhar o corpo e as imagens que surgiam a partir de diversos estímulos. Aos poucos, fomos organizando esse material dramaturgicamente.
Mariana Vellinho – O processo de criação foi muito intenso. Um ano preparando este trabalho. Primeiro, nos encontrávamos semanalmente em reuniões on-line, todas as sextas feiras. Depois começamos a aumentar os ensaios e as reuniões na plataforma digital. No início deste ano, o Julio retornou para Porto Alegre e o ritmo da criação se intensificou. Criamos o texto a quatro mãos. Julio me dava alguns estímulos e eu escrevia. Músicas, imagens, poemas. Acredito que o fato de sermos amigos há 32 anos foi fundamental nesse processo, pois nos respeitamos e nos queremos bem, e o Julio sabe o quanto é importante pra mim voltar à cena. E sei que foi um ato de amor a vinda dele pra cá. Sou muito feliz pelos amigos que o teatro me deu! Fôlego é um monólogo, mas não um trabalho solo, porque tem uma rede enorme de pessoas que estão fazendo esse sonho sair da gaveta.
EC – O que a direção procurou priorizar?
Julio Zaicoski – A direção do espetáculo é totalmente focada no trabalho da intérprete, seu jogo em cena com as palavras, com a plateia e com os elementos utilizados. Tudo está exposto de maneira que o espectador seja convidado a mergulhar na experiência da personagem.
EC – O que o público pode esperar do espetáculo?
Julio Zaicoski – Um trabalho muito afetuoso, porém sem deixar de expor as feridas e mexer nelas quando necessário. É duro, mas é poético também. Vai ter mola propulsora no fundo do poço. Além de flertamos com a obra do Nelson, abrimos outras janelas. Buscamos um diálogo com a sociedade de agora. Nossa intenção é entregar um espetáculo poético.
EC – Julio, qual a tua expectativa de estrear um novo trabalho em Porto Alegre depois de anos atuando fora do estado?
Julio Zaicoski – A minha expectativa é a melhor de todas. Eu venho pesquisando e experimentando o universo rodrigueano há alguns anos, em outros lugares, e trazer essa experiência pra cá me deixa empolgado e curioso com o público gaúcho. É uma maneira de matar a saudade do meu estado natal.
EC – Mariana, você ficou 10 anos longe dos palcos, dedicando-se ao ensino de teatro na rede pública escolar e à pesquisa teatral no ambiente acadêmico. Qual a expectativa pra esse retorno aos palcos?
Mariana Vellinho – Quando decidi ser atriz eu tinha 13 anos. Fazia teatro em Rio Grande, junto com o Julio, que hoje é meu diretor neste trabalho. A escolha pelo teatro como profissão foi porque eu sempre soube que o palco era e é o lugar onde me sinto completa. Onde consigo me conectar comigo e também com aquilo que acredito. Estar em cena é ter a possibilidade de me relacionar com os outros, de me comunicar com as pessoas. Isso me fascina! Então, estar em cena é reafirmar a minha própria existência como artista. E não foram nada fáceis os anos longe do palco, mas entendo que amadureci. Até mesmo pra estar fazendo este trabalho.
EC – Por que a escolha pelo tema das dificuldades enfrentadas por uma mulher?
Mariana Vellinho – A escolha foi natural, algo que estava pungente, tanto em mim, quanto no meu diretor. Julio é um estudioso da obra de Nelson Rodrigues, e eu, uma atriz que também escreve poesias e crônicas sobre o amor e sobre a solidão. Apaixonada por Mário Quintana, Manoel de Barros e Chico Buarque. Ele me apresentou o Texto A Falecida, e a partir deste nos inspiramos e começamos a criar a nossa dramaturgia, com pinceladas poéticas. Eu sentia a necessidade de falar sobre essas questões do feminino, porque é de onde eu parto. Tenho uma filha que crio sozinha, vivi os últimos relacionamentos amorosos com muito tumulto e sem diálogo, e então, o teatro surge, ou ressurge, para abraçar, também, as dores da vida.
EC – E qual o fio condutor do texto criado por vocês dois?
Mariana Vellinho – O fio condutor do texto é o cotidiano de Zizinha, uma mulher imersa em inúmeras infelicidades: um casamento fracassado, uma vida social sem qualquer brilho, desempregada e desmotivada, que vê na própria morte uma saída para as agruras da sua vida.
O diretor gaúcho Julio Zaicoski retorna à capital gaúcha depois de alguns anos dirigindo e ministrando cursos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também tem atuado como professor de teatro em instituições privadas de ensino básico.
Mariana Vellinho é doutoranda em Artes Cênicas no PPGAC/UFRGS, traz em seu currículo participação no elenco do espetáculo Bailei na Curva, peças do Depósito de Teatro, do Circo Teatro Girassol e da Companhia das Índias, além de ter conquistado dois prêmios Tibicuera de Teatro Infantil.
Ficha técnica
Texto: Julio Zaicoski e Mariana Vellinho
Atuação: Mariana Vellinho
Direção: Julio Zaicoski
Iluminação e operação luz: Fernando Ochôa
Cenário: Rodrigo Shalako
Figurino: Alexandre Magalhães e Silva
Sonoplastia e operação de som: Julio Zaicoski
Fotos e imagens: Alex Ramirez
Serviço – Temporada de estreia
Onde: Teatro de Arena de Porto Alegre (Av. Borges de Medeiros, 835 – Centro Histórico)
Quando: 20. 21 e 22 de outubro – 20 e 21, às 20h; 22, às 19h
Ingressos: R$ 40,00 inteira e R$ 20,00 meia (estudante, classe artística e idosos)
Informações: Instagram @espetaculofolego