Cultura
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Em seus 856 anos de existência, a catedral de Notre-Dame sobreviveu a conflitos religiosos, saques, duas grandes guerras mundiais e a anticlerical Revolução Francesa, mas sucumbiu ao descaso de parte da sociedade que agora chora as perdas e corre contra o prejuízo. Os mais de 600 milhões de euros arrecadados em menos de 24 horas na corrente de solidariedade mundo afora contrasta com o fato de superar em seis vezes uma campanha inaugurada pela Arquidiocese de Paris, no ano de 2017, quando o governo francês anunciou cortes nos investimentos de restauro. Essa decisão provocou reações que agora soam como trágica ironia. “A França tem milhares de monumentos. Notre-Dame não vai cair” teria afirmado à época um alto funcionário do Ministério da Cultura do país à revista americana Time. Atingida por um incêndio na última segunda-feira, Notre-Dame caiu.
Foto: Friends of Notre Dame/Divulgação

Catedral estava em reformas e foi destruída por um incêndio supostamente acidental na última segunda-feira
Foto: Friends of Notre Dame/Divulgação
O que torna ainda mais expressivo o montante arrecadado em tempo recorde é que o objetivo da associação criada pela Arquidiocese para passar o chapéu e restaurar a catedral, a Friends of Notre Dame (Amigos de Notre-Dame), era alcançar os 100 milhões de euros em dez anos e andava a passos lentos na própria França. O nome em inglês, outro contraste diante de um país cujo Senado chegou a aprovar, em 1994, um projeto de lei para proteger a língua nacional dos “estrangeirismos” – especificamente, das palavras inglesas – e foi pensado especificamente porque seus idealizadores acreditavam que sob as rígidas leis seculares da França boa parte dos recursos poderiam ser arrecadados nos Estados Unidos.

Entre as gárgulas do terraço, a melhor vista da capital francesa
Foto: Friends of Notre Dame/ Divulgação
De fato, Notre-Dame pertence ao governo da França, com usufruto da Igreja, que durante anos acreditava que o governo deveria arcar totalmente com os custos de sua restauração, pois só o templo, em um dia comum de verão atrai cerca de 50 mil turistas na cidade de Paris. Com algo em torno de 2 milhões de euros anuais acordados e mesmo assim sob ameaça de que a Igreja não deveria contar permanentemente com o dinheiro, manifestada pelo funcionário do Ministério da Cultura da França não identificado pela Time, técnicos vinculados à catedral passaram a registrar que a verba cobriria apenas os reparos mais básicos.

Interior da catedral construída há mais de oito séculos e meio
Foto: Friends of Notre Dame/ Divulgação
O exercício de futurologia de alguns técnicos preocupados com a manutenção de Notre-Dame, que afirmaram à Time há dois anos que a catedral poderia não estar assegurada para “os visitantes no futuro”, foi mais certeiro do que o funcionário do ministério que, na mesma época, disse que “Notre-Dame não vai cair”. Ninguém contava que, ironicamente, aconteceria a tragédia do incêndio para que o dinheiro passasse a jorrar.
Até esta quarta-feira, mais de 796 milhões de euros já estão prometidos para reerguer Notre-Dame. A França, cujos cidadãos não eram o público-alvo da Friend of Notre-Dame devido ao temor do espírito laico do país, até o momento é a líder nas contribuições. Uma grande rede de produtos de luxo, o fundador de uma empresa de cosméticos e uma petroleira, entre outros, já anunciaram publicamente suas doações.
Nos Estados Unidos, uma das gigantes de tecnologia da informação e universidades também anunciaram suas contribuições. No mundo, mais de 1,5 mil pessoas oriundas de 50 países são as responsáveis por 80 mil dólares arrecadados até o momento em um site aprovado por autoridades francesas. O presidente da França, Emmanuel Macron, se comprometeu a reconstruir a catedral em cinco anos.