Cultura
Formação gratuita para educadores sobre música erudita de forma lúdica
Atividade conduzida pelo diretor artístico da Orquestra Sinfónica de Lisboa apresenta estratégias pedagógicas para aproximar…

Atrizes do Núcleo de Estudos do Teatro do Oprimido
Foto: Igor Sperotto
A progressão da obra de um dos mais luminosos símbolos da cultura gaúcha reflete como os últimos quatro governos no Palácio Piratini pensaram ou pensam o cultivo da história do Rio Grande do Sul desde 2001.
A materialização das estruturas do Complexo Cultural Theatro São Pedro & Multipalco não apenas demorou mais do que o planejado, como pode ser creditada a um milagre.
Isto porque o orçamento da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) tem sumido na proporção inversa em que crescem as projeções de receita do Estado.
A política da penúria estruturou um modelo de concentração de recursos em eventos de grande porte. O resultado é a falta de oxigenação nas artes gaúchas e a debandada de artistas.
A previsão de arrecadação de receita global cresceu 3,47 vezes no período, enquanto a estimativa de investimento em cultura aumentou 1,71 vezes. Pior ainda: no ano que vem, para garantir patamares históricos de há 11 anos, o orçamento teria que prever aporte de R$ 233,5 milhões em recursos.
Com verba planejada em R$ 85,4 milhões, estrutura-se um déficit histórico de R$ 149,1 milhões. Daria para construir, pelo menos, três Multipalcos com o que se deixou de repassar.
Coordenador-geral do projeto Multipalco desde que ele nasceu em 1999, José Roberto Diniz de Moraes costuma juntar numa linha do tempo de dificuldades o tempo que a estrutura de 18,8 mil metros quadrados levou até o estágio em que está. O projeto surgiu orçado em R$ 19 milhões, pulou para R$ 24 milhões no ano seguinte.
Em 2003, quando a obra começou, os valores aumentaram, com a atualização do projeto. Ecotelhado, sistema de refrigeração, isolamentos acústicos, calhas que aproveitam a água da chuva, células fotoelétricas e uma subestação estão em obra ou ainda nem iniciaram.
Mesmo assim, o Multipalco deve ser entregue em março do ano que vem. Mas isso ainda depende de algum talento de seduzir patrocinadores financeiros, criatividade, de disposição incansável de alterar estratégias e de pechinchar.
Conta o coordenador da obra que, no ano 2000, junto com a diretoria do Theatro São Pedro decidiram não mais esperarr qualquer ajuda financeira pública.
Partiram então para o que melhor poderiam fazer: apelar para a imagem positiva do teatro, inaugurado em 1858 e reconstruído em 1984, à sensibilidade de empresas privadas e públicas.
“Conseguimos reduzir preços, trocando material de construção por propaganda no complexo. Não contratamos se não temos dinheiro para pagar. Se nós ficássemos esperando o Estado, o Município, a União, a obra não sairia”, diz Moraes.
Decisão sábia. Permitiu ampliar a utilização da estrutura da Associação dos Amigos do Theatro São Pedro e agilizar a captação de recursos.
Com 100% da estrutura pronta e 90% dos acabamentos terminados, o Multipalco lembra uma casca oca, financiado por cerca de 30 empresas privadas e públicas e pelas leis de Incentivo à Cultura (LIC) e Rouanet: a superfície já conta com estrutura de restaurante, sala de administração, concha acústica, mas ainda falta bastante no subsolo.
A sala da Orquestra de Câmara, por exemplo, precisa de quase tudo para ficar pronta, desde o isolamento acústico ao sistema de ar refrigerado. Só não faltam músicos.
Caso o orçamento do Estado se mantivesse em patamares 2001, a obra estaria pronta, pelo menos, há cinco anos. Não foi assim.
As propostas orçamentárias dos últimos três governos gaúchos passaram a tesoura no orçamento da Cultura na velocidade inversa ao andamento da obra.
Se, em 2001, o planejamento da Secretaria da Sedac previa aporte de 0,46% da arrecadação total estimada, este índice caiu para 0,21 do orçamento previsto em 2012. É menos da metade.
Se a queda dos investimentos afeta os grandes, entre os microartistas o efeito impacta na sobrevivência. Ante a penúria, os pequenos são os que mais sofrem.
No Núcleo de Estudos do Teatro do Oprimido, Celso Veluza, o coordenador, mede o sofrimento nas parcerias públicas. Os cursos que o grupo costuma ministrar em 8 horas de aula, desde janeiro, ocorrem na CCMQ. Pela sala, cedida via edital, o grupo destina 30% da receita obtida com alunos para o governo. A cada 11, três não pagam. Sobram R$ 960 ao custo de R$ 120 por aluno.
“É o de sempre. O que acontece com a cultura aqui é medieval. Os pagamentos na prefeitura chegavam a atrasar 90 dias. Não se pode programar as contas, muito menos pensar em investir em ações culturais. Nos últimos 30 anos não mudou”, diz Veluza.
De fato, a maior parte dos recursos tem ido para as áreas de Saúde, Segurança e Educação. Por outro lado, a dívida corrói, todo ano, cerca de 15% do orçamento. Em 2012, não será diferente.
Dos R$ 40,2 bilhões previstos como arrecadação, R$ 6 bilhões pagarão dívidas. Dinheiro que escorre pelo ralo como se fosse um rio e que chega em gotas para a cultura. Se o orçamento fosse um litro de água, 41 gotas seriam pingadas na Sedac. Já foi melhor. Em 2001, eram 116 gotas.

Daria para construir três Multipalcos com o que se deixou de repassar à Cultura em 11 anos
Foto: Igor Sperotto
Reverter este quadro exige uma política que mude uma mentalidade que se reproduz nos últimos 15 anos. A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) terá em torno de R$ 31 milhões para investir em 2012. Isso, sem contar as verbas para as fundações – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), Fundação Piratini (TVE), o Instituto Riograndense de Tradição e Folclore (IRTF), o Theatro São Pedro – e a folha de pagamento.
Tirando também os encargos com salários do pessoal, o índice em relação à previsão de receita cai para 0,07%. Em 2009, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), sozinha, investiu R$ 5,52 milhões em ações culturais, segundo as Demonstrações Financeiras da estatal. O valor representa 17% de toda a verba disponível para investimento da Sedac.
O secretário adjunto da Sedac, Jéferson Assumção, sabe o tamanho do trabalho que terá para elevar, em quatro anos, o percentual relativo do orçamento da Cultura para 0,5%.
Terá de reverter o quadro de concentração de investimentos em eventos sazonais como feiras e festas regionalizadas e nos eventos de grande porte. Não se trata de abandonar a tradição de investir na Feira do Livro, noFestival de Cinema de Gramado, nas bienais do Mercosul e em outros grandes eventos. O projeto é outro.
Segundo Assumção, a mudança deverá ocorrer em três etapas: recuperar o orçamento; alterar o conceito de cultura hegemônico no Estado, diversificando as fontes de financiamento, apurando o diálogo com o governo federal, com as empresas estatais e privadas e com agências internacionais de fomento.
Por fim, criar um comitê de patrocínio que junte as pastas da Cultura, do Turismo, Esporte e Lazer e todas as 17 empresas estatais. Outra tarefa será instituir uma lógica de “gestão cultural do Estado”.
Esta última, projeta modificar o “bloco conceitual” a respeito de cultura, tratando-a não mais como apenas produção de obra de arte, mas como direito de cidadania e acesso, economia e valor simbólico. “Cidadania cultural é a garantia de que as populações jovens, os excluídos, possam ter participação”, diz.
Na prática, Assumção revela que, ainda este ano, está prevista a chegada de verba federal de R$ 20 milhões para a obra do novo Teatro da Ospa. Ainda, planeja-se, no Plano Estadual da Cultura, um conjunto de objetivos para medir o efeito que os investimentos capilarizados exercem sobre a população.
Este programa, por exemplo, acompanhará investimentos em bibliotecas públicas, como a instalação de internet, e se há melhoria nos índices de leitura. “A gente não olha para trás. Temos que pensar em soluções. Precisamos passar a um estado criativo.
Procuramos parceiros internacionais, nacionais. Se tu tens uma ideia de que cultura é só evento, tu atrais somente isso”, diz Assumção.

Casa de Cultura Mário Quintana atende microartistas a partir de editais e contrapartidas
Foto: Igor Sperotto
Os projetos de mudanças na “cultura” da Cultura gaúcha encontram o presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos (Sated), Vinícius Gentil Cáurio, cético.
Por enquanto, ele toma as iniciativas da atual gestão da Sedac e do atual governo do Estado como “promessas”. Escaldado pelos muitos anos em que a cultura foi relegada a um plano para lá de secundário, Cáurio expõe que os efeitos da política cultural nos últimos 15 anos fizeram cerca de 8 mil artistas gaúchos debandarem.
Essa diáspora é estimada segundo um cálculo baseado na observação desse agente orgânico das artes gaúchas e no número de associados da instituição que ele comanda. O presidente conta que o Sated tem hoje cerca de 3,6 mil associados.
Desses, 2 mil são atores, outros 900, técnicos e operadores, e o restante, produtores e agentes culturais. Segundo seus cálculos, o Rio Grande do Sul exportou dois terços de seus 12 mil artistas em uma década e meia. Passou a ser o terceiro maior exportador de talentos das artes do país.
“O salário médio do artista aqui é R$ 1,2 mil. Em São Paulo, no Rio (de Janeiro), chega a R$ 7 mil, R$ 8 mil. Tem artista gaúcho que migrou para Roraima. Eu mesmo trabalhei em São Paulo, em televisão. Voltei em 2004”, diz.
Outra dificuldade está em conseguir dinheiro para produções. A regra é ser organizado e bem relacionado nas empresas públicas e privadas.
Neste ponto, Cáurio diz que amizade é fundamental. Segundo ele, a dificuldade é tamanha que, nos últimos 15 anos, apenas três grandes companhias de teatro gaúchas conseguiram financiamento para espetáculos pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC).
“O que acontece no nível estadual e até no nível nacional é a concentração de projetos. A verba fica na mão de grandes produtores”.


Fonte: Propostas Orçamentárias (2001-2012)/Seplag
*Inclui despesas com as fundações (Ospa), Theatro São Pedro, IGTF e Fundação Piratini (TVE).