Cultura
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Jornada de Literatura de Passo Fundo ultrapassou seus próprios limites e promete passar dos 5 mil participantes na próxima edição.
Agosto foi o mês da 8ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Este ano, o evento superou o público diário de 2.500 pessoas/dia registrada em 1997. Mais de 3.500 pessoas freqüentaram diariamente o Circo da Cultura – estrutura de lona que abrigou os debates – entre 17 e 20 de agosto para ficarem frente a frente com escritores, críticos de literatura, dramaturgos, atores, autores, compositores e até mesmo artistas de circo.

De acordo com os organizadores do evento – UPF e Prefeitura de Passo Fundo – as inscrições pela primeira vez tiveram de ser encerradas 20 dias antes do início da Jornada. Mesmo assim, isso não impediu que vários candidatos a ‘inscrito’ viessem de diversos estados para tentar a sorte na última hora. Um desses casos foi o de Luiz Renato de Souza Pinto, estudante e aspirante a escritor, proveniente de Cuiabá (MS). Ele viajou 2 mil quilômetros sem saber que já não havia vagas. Mas teve sorte: os organizadores acabaram aceitando as pessoas de fora do estado, pois não havia circulado nenhuma notificação sobre o final das inscrições.
O tema Censura e Exclusão na Literatura e em Outras Linguagens se desdobrou em vários temas durante as quatro tardes e noites de debates. Fizeram parte das mesas nomes como Luis Fernando Verissimo, Roberto Drummond, Zuenyr Ventura, Domingos Meirelles, Gilberto Dimenstein, Alcione Araújo, Mário Pirata, Elisa Lucinda, Hélder Macedo, Hanriete Zaughebi. A discussão serviu para que se estabelecesse o que era a censura no passado e como ela se manifesta nos dias de hoje.

Nas mesas debatedoras, ninguém discordou do posicionamento defendido pelo secretário estadual da Cultura, Luis Pilla Vares. Ele afirmou que a censura nos dias de hoje se dá muito mais por imposições do mercado e da globalização do que na forma clássica. Mas não faltaram experiências internacionais à moda antiga, como a relatada pela escritora brasileira Betty Millan, erradicada na França e membro do Parlamento Internacional de Escritores. Millan veio para apresentar a obra da escritora Taslimaah Nasreen, do Bangkladesh, que se encontra refugiada na Suécia após suas obras terem sido censuradas. Ela está condenada à morte pelos líderes fundamentalistas em seu país. “O não dito à censura ecoou pelo mundo. Ela reivindicou a liberdade da mulher em sua obra. Por isso querem matá-la e ela paga com o exílio”, desabafou Betty para a platéia.
A exclusão e a saída do Brasil do fundo do poço também foi tema de debate. Na mesa os jornalistas Domingos Meirelles, Zuenyr Ventura, Gilberto Dimenstein, Carlos Marchi e o escritor Alcyone Araújo expuseram seus posicionamentos. Desta vez o consenso ficou por conta da necessidade de maior acesso à informação de qualidade por parte da população. Eles criticaram a mídia como propagadora de patologias estilo Leão e Ratinho. “Nosso problema é não termos antídotos culturais”, diz Zuenir Ventura, sugerindo resistência cultural por intermédio da leitura. Ao seu lado, Gilberto Dimenstein disse que a saída está em iniciativas como a do Circo da Cultura e da própria Jornada.

Fora do circo, ocorreram mais de 20 cursos sobre temas ligados à comunicação, literatura e educação; seis exposições de ilustradores, artistas plásticos e fotógrafos; conferências; apresentações com Elisa Lucinda, Mário Pirata, Augusto Boal, Vítor Ramil e Rosa Maria Murtinho; espetáculos com o Ballet de Câmara de Passo Fundo e Grupo de Teatro da UPF; mostra de curta-metragens e vários lançamentos de livros e sessões de autógrafos.
No encerramento o prefeito de Passo Fundo, Júlio César Teixeira, garantiu a manutenção do Prêmio Passo Fundo de Literatura para a próxima Jornada, em 2001. Em sua primeira edição, a parceria entre a prefeitura e Zaffari/Bourbon entregou ao escritor gaúcho Sinval Medina um cheque de R$ 100 mil pelo romance Tratado à Altura das Estrelas. Ele foi escolhido o melhor trabalho em ficção de 1999.