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Movimento reivindica revogação do decreto que privatiza presídios, implantação de uma reforma tributária antirracista e estímulo fiscal a arranjos produtivos das periferias entre outras medidas que contemple a população negra e as periferias
Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil
A democracia não chegou na periferia. Este é um dos principais slogans do Quilombação, coletivo de ativistas antirracistas que completa 10 anos nesta quinta-feira, 14.
O grupo que iniciou em São Paulo e tem hoje ramificações por todo o país, remonta o movimento Quilombagem, definido pelo professor Clóvis Moura (1925-2003), que luta pelo reposicionamento dos negros como personagens fundamentais na transformação da sociedade brasileira.
“Quando a gente pega, por exemplo, nos anos anteriores, que se falava ‘ah, a democracia está em perigo, a democracia está ameaçada, a democracia isso e aquilo’ – de fato, houve risco – mas, para as favelas essa democracia que diziam ameaçada ainda nem chegou”, afirma Marcelo Cavanha.
Um dos coordenadores políticos do Quilombação e coordenador da Central Única das Favelas (Cufa), centro de São Paulo, Cavanha aponta, no seu entendimento, que as “periferias e as favelas ainda vivem no AI-5”, um dos piores momentos da ditadura cívico-militar no Brasil.
Ele vai mais longe, “a questão é que o processo de redemocratização de 1984, com a Constituição de 1988, para as periferias e favelas até hoje não chegou”.

“Periferias e as favelas ainda vivem no AI-5″, aponta Marcelo Cavanha, da Cufa
Foto: Acervo Pessoal
A base para a afirmação de Cavanha é a constatação de que boa parte do que a Constituição Federal de 1988 garante para os cidadãos brasileiros ainda não chegou de fato para as periferias.
“Tivemos avanço? Lógico. Tivemos avanço, mas está muito longe do ideal. E isso passa pela violência policial, isso passa pela questão de moradia, pela questão de saneamento básico, pela questão de saúde, pela questão de educação; passa por tudo isso”, enumera.
Um exemplo da violência policial que costuma ser mais letal nas periferias vem do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP).
Na quarta-feira, 13, o TJSP decidiu que policiais militares não são mais obrigados a usar câmeras corporais em ações de resposta a ataques contra agentes de forças de segurança.
Essa definição sepultou de uma vez a liminar de primeira instância que havia tornado o uso de câmeras obrigatório em meio à chamada Operação Escudo, no litoral paulista, quando 28 pessoas de comunidades foram mortas pela polícia depois do assassinato do PM Patrick Bastos Reis.
A liminar foi derrubada horas depois pelo presidente do TJSP, o desembargador Ricardo Anafer, e confirmada agora pelo Órgão Especial da corte.
Seminário do Quilombação realizado em São Paulo no final de semana passado reafirmou uma carta pública do coletivo que será enviada a diversos órgãos públicos e autoridades do país.
No documento, as lideranças presentes criticam a reforma trabalhista do período em que Michel Temer (MDB) ocupou o governo e a “contrarreforma” previdenciária aprovada no governo de Jair Bolsonaro (PL).
A carta pública afirma ainda que questões importantes para a luta antirracista não estão encerradas no atual governo Lula.
“Há setores do governo que tentam conciliar uma política social com a manutenção dos interesses do grande capital especulativo. A não ruptura com uma política que busca a todo custo o equilíbrio fiscal faz com que o orçamento do Ministério da Igualdade Racial para 2024 seja de ridículos 200 milhões de reais (o menor de todos)”, descreve a carta.
Para o Quilombação, é necessária a revogação imediata do Decreto 11.498/23 que possibilita a privatização de presídio, uma Reforma Tributária antirracista que tribute os mais ricos, o patrimônio e crie mecanismos de estímulo fiscal a arranjos produtivos comunitários da população negra; e direitos trabalhistas e previdenciários para todos os trabalhadores de aplicativos e trabalhadoras domésticas e a revisão do orçamento federal de 2024.
Uma plataforma para subsidiar políticas públicas para as periferias das cidades brasileiras foi lançada na quarta-feira, 13, pelo Ministério das Cidades Periferias.
Chamada de Mapa das Periferias, a iniciativa contempla dados e estatísticas consolidadas sobre as mais diversas vulnerabilidades socioeconômicas dessas localidades.
Em um primeiro momento, a medida abrange periferias de capitais e regiões metropolitanas.
A ideia do ministério é atingir a totalidade do país em 2024 com a identificação de organizações coletivas e suas atuações nas periferias para auxiliar em políticas públicas.