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Fome: no Brasil de 2022, apenas quatro famílias em cada dez domicílios conseguem manter acesso pleno à alimentação
Foto: Leonardo de França / Arquivo MST
A escalada da fome no Brasil está expressa em pratos cada vez mais vazios, olhares cada vez mais preocupados, e números em permanente e rápida ascensão.
Nesse primeiro semestre de 2022, um contingente 33,1 milhões de pessoas simplesmente ficou sem ter o que comer.
A pesquisa é realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).
Criada em 2012, a organização congrega pesquisadores, estudantes e profissionais de todo o país em uma rede de pesquisa e intercâmbio independente e autônoma em relação a governos, partidos políticos, organismos nacionais e internacionais e interesses privados.
A execução em campo do levantamento é do Instituto Vox Populi.
A Ação da Cidadania, a ActionAid, a Fundação Friedrich Ebert Brasil, o Ibirapitanga, a Oxfam Brasil e o Sesc São Paulo são organizações apoiadoras e parceiras dessa iniciativa.
A edição recente da pesquisa mostra que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau – leve, moderado ou grave (fome). O país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990. São 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome em pouco mais de um ano.
As estatísticas foram coletadas entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir da realização de entrevistas em 12.745 domicílios, em áreas urbanas e rurais de 577 municípios, distribuídos nos 26 estados e no Distrito Federal.
A Segurança Alimentar e a Insegurança Alimentar foram medidas, mais uma vez, pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que também é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa anterior, de 2020, mostrava que a fome no Brasil tinha voltado para patamares equivalentes aos de 2004. A continuidade do desmonte de políticas públicas, a piora no cenário econômico, o acirramento das desigualdades sociais e o segundo ano da pandemia da Covid-19 tornaram o quadro desta segunda pesquisa ainda mais perverso.
“A pandemia surge neste contexto de aumento da pobreza e da miséria, e traz ainda mais desamparo e sofrimento. Os caminhos escolhidos para a política econômica e a gestão inconsequente da pandemia só poderiam levar ao aumento ainda mais escandaloso da desigualdade social e da fome no nosso país”, aponta Ana Maria Segall, médica epidemiologista e pesquisadora da Rede Penssan.

Medidas do governo para conter a fome são isoladas e insuficientes em um cenário de alta inflação dos alimentos, desemprego e queda da renda, observa Maluf, coordenador da Penssan
Foto: Acervo Pessoal
No Brasil de 2022, apenas quatro famílias em cada dez domicílios conseguem manter acesso pleno à alimentação – ou seja, estão em condição de segurança alimentar.
Os outros seis lares se dividem numa escala que vai dos que permanecem preocupados com a possibilidade de não ter alimentos no futuro até os que já passam fome.
De acordo com o 2º Inquérito, em números absolutos, são 125,2 milhões de brasileiros que passaram por algum grau de insegurança alimentar. É um aumento de 7,2% desde 2020, e de 60% em comparação com 2018.
“Já não fazem mais parte da realidade brasileira aquelas políticas públicas de combate à pobreza e à miséria que, entre 2004 e 2013, reduziram a fome a apenas 4,2% dos lares brasileiros.
As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizados”, avalia Renato Maluf, coordenador da Rede Penssan.
A insegurança alimentar segue como uma questão que atinge as regiões do Brasil de forma desigual.
No Norte e no Nordeste, os números chegam, respectivamente, a 71,6% e 68% – são índices expressivamente maiores do que a média nacional de 58,7%.
A fome fez parte do dia a dia de 25,7% das famílias na região Norte e de 21% no Nordeste.
A média nacional é de aproximadamente 15%, e, do Sul, de 10%.

As mulheres do campo travam lutas diárias pela sobrevivência da família e da soberania alimentar
Foto: Dowglas Silva/ Arquivo MST
O mesmo agravamento é percebido quando se compara o campo e a cidade.
Nas áreas rurais, a insegurança alimentar (em todos os níveis) esteve presente em mais de 60% dos domicílios.
Destes, 18,6% das famílias convivem com a insegurança alimentar grave (fome), valor maior do que a média nacional.
E até quem produz alimento está pagando um preço alto: a fome atingiu 21,8% dos lares de agricultores familiares e pequenos produtores.
A pobreza das populações rurais associada ao desmonte das políticas de apoio às populações do campo, da floresta e das águas, seguem impondo escassez.
Neste segundo inquérito, fica evidente, mais uma vez, que a fome tem cor.
Enquanto a segurança alimentar está presente em 53,2% dos domicílios onde a pessoa de referência se autodeclara branca, nos lares com responsáveis de raça/cor preta ou parda ela cai para 35%.
Em outras palavras, 65% dos lares comandados por pessoas pretas ou pardas convivem com restrição de alimentos em qualquer nível.
Comparando com o 1º Inquérito, de 2020, em 2021/2022 a fome saltou de 10,4% para 18,1% entre os lares comandados por pretos e pardos.
As diferenças são expressivas na comparação entre os lares chefiados por homens e os lares chefiados por mulheres no período dos dois Inquéritos da Rede Penssan.
Nas casas em que a mulher é a pessoa de referência, a fome passou de 11,2% para 19,3%.
Nos lares que têm homens como responsáveis, a fome passou de 7,0% para 11,9%.
Isso ocorre, entre outros fatores, pela desigualdade salarial entre os gêneros.
Em pouco mais de um ano, a fome dobrou nas famílias com crianças menores de 10 anos – de 9,4% em 2020 para 18,1% em 2022.
Na presença de três ou mais pessoas com até 18 anos de idade no grupo familiar, a fome atingiu 25,7% dos lares.
Já nos domicílios apenas com moradores adultos a segurança alimentar chegou a 47,4%, número maior do que a média nacional.

Durante a pandemia, milhares de famílias tiveram acesso a uma refeição por meio de ações solidárias dos movimentos sociais como o MST
Foto: Jade Azevedo/ Arquivo MST
A fome quase desaparece nos lares com renda superior a um salário mínimo por pessoa.
Em 67% dos domicílios com renda maior que um salário mínimo por pessoa, o acesso a alimentos (segurança alimentar) é pleno e garantido.
Porém, se em 2020 não havia domicílios com renda maior que um salário mínimo por pessoa em situação de fome, no início de 2022 essa deixou de ser uma garantia contra a privação do consumo de alimentos – consequência da crise econômica e dos reajustes do salário mínimo abaixo da inflação.
Agora, 3% dos lares nesta faixa de renda tem seus moradores em situação de fome, e 6% convivem com algum grau de restrição quantitativa de alimentos (insegurança alimentar moderada) e 24% não conseguem manter a qualidade adequada de sua alimentação (insegurança alimentar leve).
A fome é maior nos domicílios em que a pessoa responsável está desempregada (36,1%), trabalha na agricultura familiar (22,4%) ou tem emprego informal (21,1%).
Já a segurança alimentar é maior nos lares onde o chefe da família trabalha com carteira assinada, chegando a 53,8% dos domicílios.
Há fome em 22,3% dos domicílios com responsáveis com baixa escolaridade – quatro anos ou menos de estudo.
Em 2020 esse percentual era de 14,9%. O maior percentual de segurança alimentar é em domicílios cujos responsáveis têm mais de oito anos de estudo: 50,6%.
A falta de acesso regular e permanente à água – também conhecida como insegurança hídrica – é uma realidade para 12% da população geral brasileira.
A insegurança alimentar moderada esteve presente em 22,8% desses lares, e a fome, em 42,0%.
Onde falta água, também falta alimento.
A insegurança alimentar se manifesta em 48,3% dos lares com restrição de acesso à água na região Norte, em 43,0% no Sudeste, em 41,8% do Centro-Oeste e em 41,2% no Nordeste.

Natal sem fome, campanha da Ação da Cidadania, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
De todas as famílias entrevistadas pela pesquisa, 8,2% relataram sensação de vergonha, tristeza ou constrangimento pelo uso de meios que ferem a dignidade para conseguir colocar comida na mesa.
Isso corresponde a 15,9 milhões de pessoas no Brasil, que foram obrigadas a usar de meios social e humanamente inaceitáveis, para obtenção de alimentos.
Nessa faixa, 24,3% convivem com as manifestações mais severas de insegurança alimentar (moderada ou grave).
Dos entrevistados que informaram endividamento, 49,1% passaram por insegurança alimentar moderada e grave.
Já dos que relataram venda de bens ou equipamentos de trabalho, 48,7% também estavam nessa mesma situação.
E entre os que contaram que precisaram parar de estudar para contribuir com a renda familiar, são 55,2% nesses recortes mais graves de insegurança alimentar.
Cerca de metade das famílias que deixaram de comprar, nos últimos três meses, arroz, feijão, vegetais e frutas convivem com a insegurança alimentar moderada ou grave.
Entre as famílias que deixaram de comprar carnes nos três meses anteriores à pesquisa, 70,4% passavam fome.
Dados semelhantes foram encontrados nos lares onde os moradores não haviam comprado frutas (64%) e vegetais (63,6%).