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Por respostas efetivas à violência de gênero
É no nível local que se pode articular medidas protetivas em rede, como visitas policiais,…

O imigrante Kabamgabe, que migrou para o Brasil para fugir da violência do Congo, foi alvo de ex-policiais militares que fazem bico como “segurança” no Rio
Foto: Reprodução Facebook
“Cardapear” é um dos vários serviços requisitados nas praias do Rio de Janeiro. É preciso perspicácia para atrair clientes e agilidade para se movimentar de um lado para o outro. Como tantas outras ocupações, esse trabalho é remunerado por comissão. O contrato de trabalho se limita a um acordo verbal e a extensão dos direitos quem determina é a parte contratante.
O congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, refugiado africano e fugitivo da guerra e da fome, “cardapeava” para o quiosque Tropicália. Até as pedras sabem que esses pontos comerciais são dominados pelo estado paralelo, são também concessões públicas e fiscalizadas pela prefeitura.
Portanto, Moïse conhecia a índole de seus empregadores e da turma dos quiosques. O que não passou pela sua cabeça é que a cobrança de dois dias de trabalho, conforme divulgado pela imprensa, precipitaria uma reação tão hedionda.
Certamente, boa parte de quem está lendo este artigo não convive tão diretamente com a barbárie. No entanto, para maioria do nosso povo, o Brasil que canta e é feliz só existe excepcionalmente. O mais trágico é que o monopólio da violência e da dominação é tão sofisticado e perverso que a maioria das vítimas são indiferentes a sua própria condição.
O corpo de Moïse ficou estendido no chão por algumas horas, enquanto os quiosques funcionavam normalmente. Mãos que haviam sacrificado permaneceram servindo bebidas e abastecendo os freezes.
Os frequentadores continuaram passeando de forma desassossegada. A polícia rondou o local com a sua indiferença costumeira quando se trata de pobre, preto e refugiado. “Em vez de reza, uma praga de alguém e um silêncio servindo de amém”. Isso aqui é menos samba de Ari Barroso e mais “de frente para o crime” de Aldir Blanc e João Bosco.
Matanças, torturas à luz do dia, espancamentos, interrogatórios, prisões, humilhações, brutalidades etc, compõem, historicamente, o diário dos pobres. Para os malditos, o estado de exceção analisado por Giogio Agamben sempre existiu. Os poderosos, com ou sem mandato, determinam em que condições a ralé deve sobreviver e morrer. O conceito de necropolítica nos termos de Achille Mbembe se encaixa perfeitamente.
Sim, somos violentos e autoritários. Antes de continuar a leitura, peço que olhe para o seu entorno: a família, a sala de aula, o local de trabalho, a organização que participa e a religião que frequenta, se são realmente espaços democráticos, de respeito aos direitos e à dignidade humana?
A imagem do presidente em um campo de tiro manuseando uma pistola, justo em uma semana honrosa, explica tudo. As armas estão apontadas e o risco de uma onda de violência é real.
Antes de estabelecer um paralelo entre a morte de Moïse e as relações de trabalho, principal questão deste artigo, destacarei dois aspectos que colocam a violência em um patamar desconhecido por nós: mídias sociais e religião.
A violência é alimentada pelo que designo de “a nova economia das imagens”. As mídias são as grandes semeadoras da cultura da violência, forjando mentes predispostas ao ódio e à intolerância. Diariamente recebemos a nossa ração de violência. As redes sociais se estruturam na lógica do salve-se o mais forte e vida longa ao mais adaptado. A defesa mal-intencionada da liberdade de opinião, que ganhou destaque propositalmente em uma semana de assassinatos racistas, visa instalar o vale tudo.
Os cruzados da atualidade, muitos com carreira militar ou convertidos do crime, avançam sobre os “infiéis e os filhos do diabo” com o evangelho na mão e a chibata na outra. É o evangelho armado. Para quem acha que exagero, preste atenção na linguagem e nas simbologias utilizadas nas pregações. Pesquise sobre os atentados contra as casas de religião de matriz africana. Leia sobre a sintonia entre a bala e a bíblia no Congresso Nacional.
É sintomático que o assassinato de Moïse foi motivado por um conflito de dívida de trabalho. Revela que a violência instalada nos espaços vitais da sociedade inunda as relações de trabalho.
O mundo do trabalho no Brasil sempre foi marcado pelo autoritarismo, violência e incessantes tentativas de negação de direitos. A reforma trabalhista ampliou o espaço das informalidades. O desemprego colocou uma espada afiada e pontiaguda nas costas dos trabalhadores para inibir reações.
Os casos de sujeição de trabalhadores nestes dois anos de pandemia na área da saúde, por exemplo, além de horrorosos, flertam com o crime.
Um sindicalismo, que possui o “ouvido colado nos locais de trabalho”, sabe que o pessoal do staff gerencial recebeu sua dose de autoritarismo e estão autorizados a humilhar, punir, subjugar etc. Mesmo enfraquecidos pelos ataques institucionais e ideológicos, o grande desafio dos sindicatos é empoderar os trabalhadores para romper com as correntes da servidão.
Para isso, precisamos lutar por um processo de reconstrução do Brasil que coloque a geração de emprego como algo central. Com índices tão altos de desemprego, as relações de trabalho, que por natureza são assimétricas, retiram a vitalidade da luta por direitos e dignidade.
O grito da mãe e de tantas mães, que perderam seus filhos e são humilhadas nas delegacias, é comovente. Mesmo sabendo que a justiça é surda para os pobres, o reforço às instituições e a democracia são os caminhos que a classe trabalhadora trilhou ao longo de sua história.
João Marcelo Pereira dos Santos é historiador, professor e assessor da Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS)