Empregos públicos representam 12,1% da força de trabalho no Brasil

Ao contrário do discurso de "máquina inchada", funcionalismo público brasileiro é dos menores do mundo, segundo ranking da OCDE e Banco Mundial
Lançamento da Frente Parlamentar Mista do Serviço Público na Câmara dos Deputados

Lançamento da Frente Parlamentar Mista do Serviço Público na Câmara dos Deputados

Foto: Andes/ Divulgação

Alvo da Reforma Administrativa do governo Bolsonaro (PEC 32/20) o funcionalismo público brasileiro apresentou crescimento nas últimas décadas em especial para o atendimento das demandas sociais emergentes da Constituição de 1988. Mesmo assim, a média de servidores do Brasil é menor que a maioria das nações desenvolvidas, segundo informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Banco Mundial.

Arte: Extra Classe

Apesar disso, uma das bases da lógica da reforma apresentada pelo governo ao Congresso está contida no pensamento do ministro da Economia, Paulo Guedes. Para o guru econômico de Bolsonaro, a máquina pública brasileira foi inchada em 80% nos últimos 25 anos. O argumento, no entanto é questionado pelo professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape/FGV) Luiz Alberto dos Santos.

Para Santos, Doutor em Ciências Sociais que leciona Políticas Públicas no Curso de Mestrado Profissional em Administração Pública, o discurso na realidade é uma meia-verdade. Os números usados, diz, não acompanham proporcionalmente o crescimento da população.

Segundo o professor da FGV, levando em conta o aumento da População Economicamente Ativa do país entre os anos de 1995 e 2017, o crescimento real do funcionalismo público no Brasil variou de 10% para 12%. “Só para se ter uma ideia, no mesmo período, os empregos na iniciativa privada cresceram de 37% para 51%”, exemplifica.

Em 2016, conforme o Atlas do Estado, um estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tinha 11,5 milhões de postos de trabalho ocupados no serviço público, englobando governo federal, estados, municípios e os poderes Legislativo e Judiciário. Hoje, estima-se 11,4 milhões, incluindo tanto servidores concursados, estatutários e regidos pela CLT, quanto em cargos comissionados (que não precisam de concurso).

Investimento em saúde pública no Brasil, incluindo remuneração de servidores, é um dos piores do mundo, pouco mais de 1,3 mil dólares per capita, enquanto os EUA investem mais de 10 mil dólares por habitante

Investimento em saúde pública no Brasil, incluindo remuneração de servidores, é um dos piores do mundo, pouco mais de 1,3 mil dólares per capita, enquanto os EUA investem mais de 10 mil dólares por habitante

Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

No campo das estatísticas

De concreto, enquanto a média da população ocupada de integrantes da OCDE no funcionalismo público está na casa dos 18%, toda a máquina estatal brasileira é de 12,1%.

Mesmo com o topo do ranking puxado por países escandinavos que perfazem em média 35,65% de servidores públicos em sua população ocupada, o Brasil figura na 19a posição, atrás até de países extremamente liberais como Estados Unidos, com 15,2% de servidores, e do Reino Unido, com 16,4%.

Mas é no campo das estatísticas também que a equipe econômica busca sustentação para defender sua reforma administrativa.

Posições invertidas

O mesmo Banco Mundial que aponta o Brasil muito abaixo de outros países em número de servidores, inverte a lógica no campo da remuneração.

Para a organização, o Brasil estaria, em um universo de 142 nações pesquisadas, na 15º posição em média das que mais gastam com o pagamento de seus servidores em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB).

O professor Luiz Alberto dos Santos prefere não usar o argumento fácil de que o PIB brasileiro está estagnado há cinco anos.

“É preciso ver os dados com muita cautela para dar uma opinião. A média é sempre uma conta ruim”, declara. Para Santos, o correto seria “quando muito”, trabalhar com médias por setor.

Segundo Santos, professor da FGV, levando em conta o aumento da população economicamente ativa do país entre os anos de 1995 e 2017, o crescimento real do funcionalismo público no Brasil variou de 10% para 12%

Segundo Santos, professor da FGV, levando em conta o aumento da população economicamente ativa do país entre os anos de 1995 e 2017, o crescimento real do funcionalismo público no Brasil variou de 10% para 12%

Foto: Anffa Sindical/ Divulgação

No entendimento do professor, existem grandes complicações para comparar o funcionalismo público em países tão diversos. “Os dados não são confiáveis. Por exemplo, a resposta para quem é ou não servidor público para cada país é muito diferenciada”, explica.

Para o caso brasileiro, Santos vê dados contaminados porque, além dos servidores públicos da administração direta, o governo inclui em seu orçamento os funcionários de empresas estatais que dependem diretamente do Tesouro Nacional.

De acordo com os últimos dados da OCDE o Brasil gasta o equivalente a cerca de 13,1% do seu PIB com salários do funcionalismo público, incluindo todas as esferas e poderes.

Por outro lado, para o Atlas do Estado brasileiro, a participação dos gastos do funcionalismo em relação ao PIB cresceram de forma continua, mas de forma modesta a partir de 2011. Segundo os dados do Ipea, as despesas com o funcionalismo nacional passaram de 9,6% em 2012 para 10,7% em 2017.

O número é próximo de um estudo realizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2010. Em seu documento, o fundo apontava que países de renda alta costumam usar cerca de 10,4% do PIB com o pagamento de servidores.

Acompanhe a série de reportagens do Extra Classe sobre a reforma administrativa:

Governo generaliza funcionalismo para tocar a reforma

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