Economia
Marchinha de carnaval denuncia exclusão de domésticas do abono do PIS
Ação se inspira em clássico da década de 1950 e cobra do Congresso e Executivo…

Foto: Igor Sperotto
Passados pouco mais de dois meses do registro do primeiro caso de coronavírus no Brasil, e com o indicativo de que o RS ainda tem dias difíceis a enfrentar, maximizados pela chegada do inverno, há uma certeza em relação aos efeitos da pandemia para além das vidas perdidas e da ameaça de colapso no sistema de saúde: o de que ela já derrubou a economia
Apesar da multiplicação das projeções, e de indicativos muito ruins, ainda não é possível quantificar o tamanho das perdas no setor produtivo, onde é um erro apontá-las como generalizadas. Não se trata da falsa oposição entre saúde e economia. Nem da crença, equivocada, de que reaberturas prematuras poderiam minimizar o conjunto complexo de adversidades cujos reflexos recém começaram. Na vida real, para empresas e empreendedores, elas se mostraram quase que imediatamente no setor de Comércio e nos Serviços, mesmo que com algumas poucas exceções. E constituem tendência implacável entre trabalhadores atingidos pela redução de jornadas e salários ou suspensões de contratos permitidos pela Medida Provisória (MP) 936/2020.
Em pouco mais de 20 dias em vigor (entre 1º e 22 de abril), a MP 936, nacionalmente, já havia atingido 3,5 milhões de trabalhadores, conforme dados do próprio Ministério da Economia, sendo pouco mais de 2 milhões deles com suspensões de contratos e 1,3 milhão com reduções de jornadas e salários entre 25% e 70%. Além deles, 167 mil trabalhadores intermitentes. O Dieese, por sua vez, divulgou, em 30 de abril, estimativa de que 4,4 milhões de trabalhadores já tinham sido afetados pelas negociações.
Na verdade, via de regra, não há negociação e os empregados são comunicados de quais serão as novas condições. O Ministério da Economia prometeu a atualização diária das flexibilizações em um site, o servicos.mte.gov.br/bem. Nele não constam os detalhamentos sobre reduções e suspensões. Mas, no canto superior direito, há um dado atualizado, classificado, na página, como ‘empregos preservados’. No primeiro domingo de maio, o marcador estava em 5.394.047. O Ministério, que projeta que as suspensões ou reduções deverão chegar para 24,5 milhões de trabalhadores formais (nada menos do que 74% do total), cunhou o termo ‘empregos preservados’ para fazer referência ao número de contratos de trabalho atingidos pelas alterações permitidas pela MP.
Economistas, analistas, cientistas, todos concordam que a debacle econômica e o aumento das diferenças entre os que estão na base e no topo da sociedade tendem a ser mais perversos em um país conhecido por seu alto grau de desigualdade e onde as mudanças promovidas nos últimos anos aumentaram o número de trabalhadores na informalidade e no trabalho precário. Estes, sem direitos ou garantias da legislação trabalhista, foram atingidos primeiro pelos reflexos do distanciamento social, engrossando as filas dos que buscam o auxílio de R$ 600,00 pagos como forma de auxílio emergencial pelo governo federal, em um sofrível sistema de distribuição. Mas os especialistas receiam também que o chamado ‘apagão estatístico’ piore em tempos de pandemia, prejudicando ainda mais tanto o diagnóstico quanto as políticas para planejar o futuro.
Primeiro, porque os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de 2020 ainda não apareceram. No final de março, o governo suspendeu por tempo indeterminado a divulgação dos saldos de janeiro e fevereiro, sob a alegação de mudanças no sistema de envio das informações sobre admissões e demissões. Na sequência, também não houve publicidade dos dados de março: a chegada da Covid-19 e as medidas de distanciamento serviram então para justificar a ausência dos números.
Segundo, porque o IBGE deixou de fazer a coleta presencial de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e há dúvidas sobre a divulgação do mês de abril. Os dados da última Pnad Contínua, divulgados em 30 de abril pelo IBGE e referentes ao trimestre janeiro/março, mostram aumento na população desocupada, na subutilizada e naquela fora da força de trabalho (recorde desde o início da série, em 2012). Caíram tanto o número de trabalhadores com carteira assinada como os sem carteira na iniciativa privada, assim como a massa de rendimento real. Tudo ainda sem o impacto do coronavírus. Em seu último boletim, o Dieese aponta que, a ser seguida a linha atual, não haverá dados confiáveis “para estimar o impacto da crise na ocupação e na renda”.
No RS, conforme o professor Maurício Weiss, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o mais seguro é observar o impacto a partir dos dados de arrecadação da Secretaria da Fazenda estadual. “Por meio da arrecadação, fica evidente a diminuição no volume do comércio. Nele, o mais afetado é o segmento do vestuário. Os dados via nota fiscal eletrônica, por exemplo, nos permitem ter uma noção do impacto na economia de forma mais rápida. A queda na arrecadação do ICMS em abril, conforme já projetado pelo governo, será na ordem de R$ 850 milhões”, elenca. O número representa uma retração de 18,8% na arrecadação. Em maio, conforme as projeções da Fazenda, as perdas com o ICMS podem alcançar os R$ 900 milhões. Entre 16 de março e 24 de abril, a Receita Estadual apurou que deixaram de ser movimentados, em operações registradas por notas eletrônicas, R$ 270 milhões ao dia, na comparação com o mesmo período de 2019.
Mas também no fim de abril, a Receita gaúcha apontou estabilidade crisenos níveis de perdas decorrentes da pandemia. Em relação aos setores de atividades, o varejo seguiu sendo o mais afetado, com redução de 19% nas vendas desde o início da crise. A indústria teve queda de 16%. E o atacado caiu 2% no acumulado do período. Por setores, as áreas da alimentação (arroz, aves e ovos, bovinos, leite, suínos e trigo) tiveram variações positivas. E os resultados negativos mais expressivos seguiram nas indústrias de veículos e coureiro-calçadista. Entre setores com perdas relativas, como os de insumos, de bens de capital e os de bens de consumo duráveis e semiduráveis, a média das reduções se estabilizou.
“Os clientes mudaram, estão mudando e ainda vão mudar. Em termos de consumo, a tendência é de que haja uma quebra no comportamento que vinha ocorrendo até então. É muito importante que as empresas foquem no propósito, no que oferecem”, adverte a professora Daniela Brauner, da Escola de Administração da Ufrgs, e coordenadora do SOS-PME/Rede de Assessoria Empresarial, um projeto criado na Universidade para auxiliar micro, pequenos e médios empresários a desenvolverem estratégias de enfrentamento à pandemia e o consequente bloqueio parcial ou total das atividades em seus negócios. Há quase cem empresas cadastradas.
Entre entidades empresariais, apesar das referências constantes às perdas, de modo geral faltam dados consolidados, principalmente naquelas representativas do comércio. Quem tem levantamentos melhor estruturados é a Federação das Indústrias do RS (Fiergs). Na Sondagem Industrial Especial, realizada entre os dias 1º e 14 de abril, a Federação constatou que dois terços das empresas consultadas relataram aumento na dificuldade de acesso à capital de giro. E que seis de cada dez encontram dificuldades financeiras para realizar pagamentos rotineiros. Os principais impactos causados pela pandemia foram a redução do faturamento (72,3%), o cancelamento de pedidos e encomendas (56,6%) e a inadimplência de clientes (55,4%).
“Vai ser um ano muito ruim em termos de resultado. Isto já está contratado. No RS é um ano muito atípico porque, além do coronavírus, tem a questão da estiagem. É uma situação que se coloca como difícil de fazer projeções, e que necessitará ser monitorada semana a semana”, considera o economista chefe da Fiergs, André Nunes de Nunes. “A única coisa da qual temos certeza é de que haverá uma retração grande e que a agricultura vai salvar um pouco os números” completa o engenheiro agrônomo Adrik Richter, do Departamento de Política Agrícola da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag), que representa cerca de 720 mil agricultores familiares no estado. Até o final de abril, a agricultura familiar estava mais impactada pela estiagem do que pelo coronavírus no RS.
Neste mês de maio, o esforço ainda é em tentar encontrar um caminho. “Não precisaríamos estar enfrentando os conflitos entre as necessárias medidas de distanciamento e as questões econômicas. A pressão pelo afrouxamento na verdade aumenta porque o governo federal não canaliza os recursos necessários nem para as pessoas e nem para as empresas, parece estar em conflito constante: é como se entendesse o que deve ser feito e, ao mesmo tempo, travasse os processos”, explica o professor Weiss. Segundo ele, sem aumentar o endividamento, o país não sairá do lugar. Mas os sinais emitidos são preocupantes. “Ao mesmo tempo em que há propostas importantes, como a que dá maior possibilidade de atuação do Banco Central para comprar dívida pública, há outras totalmente descabidas. A de usar reservas internacionais para abater a dívida depois, por exemplo. O país se desfazer de dólares para pagar dívida em reais seria surreal”, assinala. “O fato é que em breve teremos uma divergência muito grande: a discussão sobre quem vai financiar o crescimento da dívida pública. Vamos ter a coragem de mudar o sistema tributário? E o ônus? Será ou não colocado sobre os mais afetados pela crise?”, questiona o supervisor técnico do Dieese no RS, Ricardo Franzoi.