Cultura
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Um grande clássico gaúcho acaba de ganhar uma edição à altura de sua importância. A Obra Completa de Simões Lopes Neto, edição feita sob os cuidados da Editora Sulina e Já Editores, com apoio da Copesul, dimensiona a inquietação e a multiplicidade de um homem que deu forma e voz autêntica à população do campo, precursor de uma visão que, ao desmitificar a figura do gaúcho, aproxima a força original da literatura aos contornos da realidade. A crueza poética de sua linguagem é trançada pela força telúrica da gente do sul.
Uma edição cuidadosa, com 1.087 páginas, organizada por Paulo Bentancur e ilustrada com aquarelas de Enio Squeff, registra cronologicamente a Obra Completa de Simões Lopes Neto. Começa pelos títulos publicados: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913). Seguem-se os póstumos Casos do Romualdo (1952), Terra Gaúcha (1955), Teatro(1984) e resgata o Extraviados – crônicas, poemas, contos e outros textos publicados ao longo de 1915. “Quando começamos a pensar nessa edição, achei quase impossível que não houvesse essa obra completa. E não tinha mesmo. Apresentamos então o projeto à Copesul, há dois anos. E a empresa, que vem publicando obras com essa temática, resolveu fazer o projeto”, conta Elmar Bones, da Já Editores.
Está, assim, preenchida, uma lacuna histórica. A reunião dessa obra retrata uma literatura que projeta o Rio Grande do Sul aos cânones da literatura brasileira e mundial. “Simões Lopes Neto não é apenas o primeiro regionalista brasileiro, é também o primeiro que consegue atingir o drama universal da forma mais ampla possível, e até hoje insuperado”, afirma Paulo Bentancur. “Existem três clássicos gaúchos: Erico Verissimo, Mario Quintana e o Simões Lopes Neto, que era o único que ainda não tinha a obra completa publicada”.
Pesquisador rigoroso, estilista refinado, conhecedor da alma campeira das fazendas e galpões gaúchos, Simões Lopes Neto retrata o imaginário popular em canções e poemas do Cancioneiro Guasca. Dá forma à linguagem e à vida da gente do campo nos Contos Gauchescos – O negro Bonifácio é o retrato mais bem-acabado sobre a fanfarronice e impetuosidade do gaúcho. Recria, com um estilo bordado de poética xucra, as Lendas do Sul. Dá sentido à linguagem oral dos galpões em Casos do Romulado, aventura-se pela pesquisa histórica em Terra Gaúcha, retrata os costumes povoeiros no teatro, escreve em jornais e revistas sempre com pitadas de imaginação, humor e uma certa insolência. Tudo isso está agora registrado numa única obra.
Uma seleção criteriosa determinou a parte mais reveladora da publicação: Extraviados. “Estive pesquisando na biblioteca pública de Pelotas e junto ao Grupo de Estudos Simonianos. Ele escreveu mais de noventa textos entre crônicas, conferências, coisas de ocasião. Optei por fazer uma antologia básica desses escritos, com mais três contos e algumas crônicas, para mostrar a multiplicidade do escritor”, revela Bentancur.
João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, no dia 9 de março de 1865. Descendente de uma família proprietária de várias estâncias, desde cedo ficou impressionado com as lides do campo e seus personagens. As conversas de galpão e os feitos do próprio pai – Catão Bonifácio Lopes, homem do campo conhecido por sua galhardia e coragem, – foram a fonte que inspiraram os Contos Gauchescos. Apesar de gostar da vida campeira, foi a escrita que mais atraiu Simões Lopes Neto. Começou a escrever no jornal “A Pátria”, em 1888, atuando depois no “Diário Popular” (no qual escreveu Balas de Estalo, comentários satíricos sobre a sociedade pelotense em forma de versos) e no Correio Mercantil. Foi, porém, um homem múltiplo também em seus projetos: fabricou cigarros – é dele o famoso “Marca-diabo”–, atuou na mineração, foi despachante e, na revolução de 1893, alistou-se no 3 Batalhão da Guarda Nacional.
No dia 14 de junho de 1916, quando morreu, João Simões Lopes Neto era um homem pobre, com apenas três livros publicados. A própria viúva, Francisca de Paula Meireles Simões Lopes, ficou com a imagem do marido como a de um homem fracassado. A obra, porém, mostrava o contrário. Os escritos vieram a se tornar mais amplamente divulgados depois de sua morte, em especial pelo trabalho feito pelo jornalista Carlos Reverbel, também autor da biografia Um Capitão da Guarda Nacional (Martins Livreiro – 1981), hoje totalmente esgotado.
A ousadia estética e a originalidade, porém, parecem ter colocado Simões Lopes Neto, literariamente, como um homem fora do seu tempo. “Ele faz do dialeto gauchesco uma linguagem literária. É a invenção da palavra, a mesma atividade realizada por James Joyce”, opina Donaldo Schüller, primoroso tradutor de Finnengans Wake, de Joyce, e ganhador do prêmio Fato Literário 2003. Schüller, um erudito que transita pela literatura mundial, afirma que se trata de uma obra clássica universal. “Simões Lopes Neto recria a língua portuguesa, e assim se insere na tradição dos melhores autores que a realizaram, como Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa”.
Um outro patamar amplamente difundido pela crítica é o comparativo com João Guimarães Rosa, o escritor mineiro que dá voz à gente do sertão. No entanto, Simões Lopes Neto é o precursor. Antes dele, apenas José de Alencar tinha se aventurado ao regionalismo, sem no entanto impregnar-se da cultura autêntica de cada lugar. Tanto que escreveu O Gaúcho, um romance com todas as hipérboles do romantismo, sem sequer ter conhecido o Rio Grande do Sul.
A edição da Obra Completa de Simões Lopes Neto, retrato “das essencialidades da cultura do Sul do Brasil”- como escreve Luis Fernando Cirne Lima na abertura do volume – também está prescindindo de glossário. A linguagem regional não estanca a leitura, ao contrário, deixa verter musicalidade, impressões, frêmitos que sinalizam ventos, tropéis, silêncios, falas pausadas ou rebuliços. É como um espelho que reflete a imagem sem explicar contornos. A obra de Simões Lopes Neto mostra um jeito de ser gaúcho. Sem julgamentos, sem explicações, sem exageros. É um elo que liga o sul à sua gênese e, ao fazer essa alquimia, insere-se no que há de melhor na literatura universal.
Revelações dos “Extraviados”
Os textos reunidos sob o título de Extraviados, que encerram a Obra Completa de Simões Lopes Neto, revelam faces pouco conhecidas do escritor: crônicas, poemas, reflexões sobre a sociedade pelotense, provocações, poemas e ensaios integram essa coletânea. Abaixo seguem dois trechos de escritos pouco conhecidos pelo do grande público.
“Correm-se as varas da porteira; serena o tropel; os animais companheiros procuram-se, todos estavam molhados até os encontros; uns sacodem-se com violência ou cheiram o chão, refolhando, e rebolcam-se na terra revolvida e fresca; cruzam-se os reclinchos, coices, dentadas. Quase todas as cabeças, espantadas e curiosas, estão voltadas para a porteira; e na respiração ofegante e forte as ventas expelem rolos de vapor, do bafo; parece que os animais pitaram e estão atirando a fumaça dos cigarros!”.
A Recolhida – crônica publicada na Revista da Academia de Letras do Rio Grande do Sul, nº 7, junho a agosto de 1911.
“A sua voz – nesse ponto – não sei o que é que tinha, mas era de uma modulação áspera e ao mesmo tempo untuosa. Os seus olhos mostraram um turvado – que eu não conhecia, e no entanto parece que também falavam, completando o sentido das palavras pronunciadas. Depois é que eu percebi que as palavras seriam de cobiça e que os olhos seriam de avareza – e se completavam”.
Sinhá Jana (conto)