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Decolagem de caça no porta-aviões USS Abraham Lincoln durante operações de voo no Mar do Golfo em 15 de fevereiro de 2026
Foto: U.S. Navy/domínio público
Em dois meses, os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, estrangularam o fornecimento de petróleo para Cuba, ameaçaram tomar a Groenlândia da Dinamarca e atacaram o Irã ao lado de Israel. Para quem observa a política externa americana de fora, pode parecer caos.
Para Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), há um fio condutor para atingir a China.
Para Robert Reich, economista e professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley, ex-secretário do Trabalho no governo Bill Clinton e colunista do The Guardian, o que se vê é algo mais perturbador: uma guerra sem plano.
Os dois pontos distintos, chegam a um diagnóstico comum. O embate com o Irã é uma aposta de alto risco e seus desdobramentos são imprevisíveis. Seja pela falta de estratégia e qualquer compreensão clara de onde ele leva ou como termina, conforme Reich, ou pela tentativa de Donald Trump de redesenhar o lugar dos Estados Unidos na geopolítica global, entendida por Maringoni.
Maringoni começa pela precisão dos termos. Para ele, os bombardeio ao Irã não fazem parte de um conflito entre duas partes — são um ataque unilateral. E veio logo depois de uma rodada de negociações. Na quinta-feira, 26, delegações americanas e iranianas se reuniram em Genebra e marcaram um novo encontro para esta semana. Na tarde do mesmo dia, Trump declarou insatisfação com as negociações. Na madrugada de sábado, 28, os mísseis foram lançados.
O pretexto oficial foi o de um ataque preventivo: o Irã representaria uma ameaça iminente a Israel e aos próprios Estados Unidos. “Ele não explica como”, observa o professor. “Mas coloca que o Irã estava colocando em risco a segurança dos Estados Unidos e preventivamente ele atacou.”
Para Maringoni, a verdade passa por Pequim. O país persa é o maior fornecedor de petróleo para a China e um dos principais parceiros da chamada Nova Rota da Seda — o ambicioso projeto de infraestrutura e comércio que Pequim vem construindo há anos com cerca de 150 países. “Atacar o Irã é atacar a China na Nova Rota da Seda e no fornecimento de petróleo, ou seja, na sua segurança energética”, analisa.
A Venezuela entra na mesma lógica. Em 2013, com o petróleo a 30 dólares o barril e o país à beira da falência, Nicolás Maduro foi a Pequim buscar empréstimos. Os chineses aceitaram. A condição, que o pagamento fosse feito em petróleo por 40 anos. “A China comprou antecipadamente, a preço de 2013, petróleo que está no fundo da terra”, explica Maringoni.
Com a Venezuela sob pressão americana, esse fornecimento entra em colapso. Cuba, por sua vez, foi atingida pelo sequestro de um navio venezuelano que transportava combustível para a ilha logo após o sequestro de Maduro para responder processo por narcotráfico internacional ao lado de sua esposa, Cilia Flores, em Nova York. Isso agravou uma crise energética que já compromete o fornecimento de energia elétrica, de água e a vida cotidiana dos cubanos.
O americano Reich chegou a conclusões diferentes ao consultar especialistas em política externa e analistas do Oriente Médio. Parte dos ouvidos acredita que Trump busca uma ação rápida e de alto impacto, semelhante à adotada na Venezuela: operações cirúrgicas ou ações direcionadas contra lideranças. Com o eventual assassinato do aiatolá Ali Khamenei, Trump poderia declarar que atingiu sua meta de “mudança de regime” e proclamar vitória antes que “as baixas americanas aumentem e antes que os preços do petróleo subam nos postos de gasolina”.
A aposta seria forçar o Irã a aceitar exigências amplas: fim da produção de plutônio para armas, desmantelamento do programa nuclear, destruição de mísseis balísticos e desarticulação de aliados regionais, como Hezbollah, Hamas e milícias no Iraque, Iêmen e Síria.
Outro grupo de especialistas sustenta, porém, que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu exerce papel mais decisivo no conflito do que a imprensa americana reconhece. Para eles, o primeiro ministro israelense estaria empenhado em eliminar completamente a capacidade de mísseis balísticos do Irã e isto exigiria uma campanha aérea prolongada. Trump, avalia Reich, “não quer ser ofuscado” por Netanyahu e pode intensificar os bombardeios para não parecer menos determinado.
Há ainda a hipótese de que o presidente americano ambicione algo além de uma ação pontual. Seria a instalação de um “regime submisso” em Teerã, nos moldes do que busca na Venezuela. O problema, alerta Reich, é que uma mudança de regime duradoura dificilmente ocorreria sem tropas terrestres, cenário arriscado diante de um país que dispõe de quase um milhão de homens armados.
A hipótese de orquestrar um golpe interno com apoio limitado de forças americanas é classificada pelo ex-secretário como “delirante”, evocando paralelos históricos como o Vietnã.
O quadro descrito pelo colunista do The Guardian é de desorganização. O Pentágono e o Departamento de Estado estariam em desordem, com decisões sendo tomadas de forma contraditória. Só o alto comando militar teria informações em tempo real, mas, sem autoridade, nem vontade, para definir o que seria “sucesso” ou quando encerrar a operação. O diagnóstico de muitos dos analistas ouvidos por Reich é direto: “esta é uma guerra sem plano, sem estratégia e sem qualquer compreensão clara de onde ela leva ou como termina”, relata.
A desorganização descrita por Reich não contradiz necessariamente a análise de Maringoni. Pode, ao contrário, ser uma de suas consequências. Para o professor da UFABC, Trump age pela lógica do choque: “Eu toco o terror, você cede e você vem negociar comigo.”
A Europa, lembra o brasileiro, foi o primeiro alvo, antes mesmo das bombas. Em fevereiro de 2025, o vice-presidente JD Vance foi à Conferência de Segurança de Munique declarar que os americanos não custeariam mais a segurança europeia. Em seguida vieram as tarifas: até 145% sobre produtos chineses e entre 20% e 25% sobre produtos europeus.
A União Europeia capitulou. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi pessoalmente negociar com Trump e voltou com um acordo de 18% de tarifa, desde que o bloco importasse 750 bilhões de dólares em produtos americanos em três anos e investisse 500 bilhões adicionais em cinco anos. “A União Europeia está no bolso do Trump”, resume Maringoni.
O ataque ao Irã ocorre, ainda, num momento delicado no front doméstico. Cerca de uma semana antes, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou ilegais as tarifas que eram o carro-chefe da política econômica de Trump. Foi um golpe significativo. Para Maringoni, não é coincidência.
“A extrema direita funciona indo para o ofensivo em qualquer situação e nunca recuando. Se recua, não passa o recibo.” Abrir múltiplas frentes simultâneas cria a sensação de onipotência. “Dá a sensação de que ele tudo pode. E tudo pode por causa das armas”, fala.
O risco estratégico de longo prazo identificado pelos dois analistas é convergente, ainda que expresso em linguagens distintas. Maringoni aponta que é um dos resultados da perda da dita autoridade moral americana. “Até a Guerra Fria, Washington construiu sua hegemonia sobre um discurso de defesa da democracia e dos “povos livres”. Hoje, ninguém mais sustenta essa narrativa, entende.
Nem o próprio Trump se preocupa em fazê-lo. Na operação contra a Venezuela, o argumento não foi restaurar a democracia, mas capturar um suposto traficante de drogas. “Ninguém acha que ele está defendendo princípios elevados”, diz Maringoni. “Ele (Estados Unidos) perdeu a capacidade de convencimento, de ser o mocinho do mundo. Diante da perda da capacidade de convencimento, para não perder a hegemonia global, ele (Trump) aumenta a violência.”
Reich chega em conclusão semelhante pelo ângulo dos riscos operacionais. Sem objetivos claros e estratégia de saída, o conflito pode se prolongar, consumir recursos e ampliar a instabilidade regional. Isso deixa os Estados Unidos presos a mais uma guerra de desfecho imprevisível.
A ofensiva de Trump não passa despercebida pela extrema direita brasileira. Maringoni lembra que, em manifestações recentes na Avenida Paulista, bandeiras americanas foram hasteadas ao lado de pedidos de interferência eleitoral.
A articulação recente de figuras como Eduardo Bolsonaro com o governo Trump levanta a questão: o que Washington fará nas eleições brasileiras de novembro?
“O governo Trump pode, numa situação conflitiva nas eleições, decidir algum tipo de interferência, não se sabe qual”, pondera o professor. “Seja financiando, seja interferindo diretamente. E é isso que a extrema-direita brasileira quer”, conclui.
A atual escalada de violência entre Estados Unidos, Israel e Irã começou no sábado, 28. Forças dos americanas e israelenses lançaram uma ofensiva aérea de grande magnitude contra alvos militares e civis iranianos. O argumento: esforço para neutralizar ameaças nucleares e de mísseis.
Nos primeiros quatro dias de conflito, o Crescente Vermelho iraniano relatou pelo menos 787 mortes em solo iraniano. Entre elas, um número significativo de civis, incluindo dezenas de estudantes vitimados em uma escola feminina em Minab no primeiro dia da ofensiva.
Além disso, o embate já fez vítimas também no lado dos Estados Unidos, de Israel e de aliados regionais. Autoridades norte-americanas confirmaram morte de seis militares dos seus militares, vítimas de um ataque de drone contra uma base no Kuwait.
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi confirmado morto no primeiro dia dos bombardeios. Foi um dos primeiros e mais simbólicos ataques das forças combinadas entre Trump e Netanyahu. Isso gerou choque político dentro do Irã e protestos em vários países muçulmanos. Outros nomes proeminentes do comando militar iraniano também foram relatados como mortos ou feridos nos ataques, incluindo altos oficiais das Forças Armadas de Teerã.
O confronto, que já afetou civis e forças militares em vários países da região, continua a se expandir, com lançamentos de mísseis e drones iranianos contra bases americanas e cidades israelenses, e reações de grupos aliados, como o Hezbollah no Líbano. As chamas de um conflito que, até agora, acumulou centenas de mortos e um número ainda maior de feridos e deslocados se amplia.