O Caribe, em janeiro de 2026

A falta de avanços na guerra comercial e tecnológica com a China leva os EUA a recorrer a gestos midiáticos, como deter um líder latino-americano com reputação internacional deteriorada

O Caribe, janeiro de 2026

Imagem: Tom Patterson/Wikimedia Commons/Arquivo

O ano de 2026 começou com um inédito ataque direto dos EUA a um país soberano sul-americano. O sequestro de Nicolás Maduro, ordenado por Donald Trump e executado em 3 de janeiro, condensou tensões acumuladas entre Washington e Caracas.

Os EUA ocuparam militarmente o Caribe utilizando instalações em Porto Rico, Trinidad e Tobago, República Dominicana, além de dois de seus principais porta-aviões. A espetacular e cirúrgica operação foi instrumentalizada politicamente nos planos interno e externo, atraindo atenções para seu palco, protagonista, alvo e gatilho.

Para entender a excepcionalidade do episódio, é preciso reconstruir os movimentos estratégicos de EUA e Venezuela, algumas ações de outros atores e nas últimas duas décadas.

A instabilidade regional reflete a desordem sistêmica da ordem global. O Caribe tem sido palco de disputas que o extrapolam; suas dinâmicas são condicionadas por fatores exógenos, conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, tensões econômicas globais e pela oscilação da política externa dos EUA entre intervenção direta e influência indireta.

O Mar do Caribe tem alta relevância para os EUA, que o considera como área imediata de segurança nacional, materializada em bases navais e aéreas, como Guantánamo e Roosevelt Roads, e uma rede de cooperação militar com países insulares.

Logisticamente, o Caribe responde por 6% do comércio marítimo global. Seu principal nó articulador é o canal do Panamá, onde hoje predomina o tráfego intercontinental. Desde sua construção até recentemente, porém, prevaleceu o movimento intercosteiro entre os litorais atlântico e pacífico dos EUA.

A transição elevou a centralidade do canal para além do hemisfério, coincidindo com a menor a presença dos EUA no Caribe, em contraste com o avanço econômico e político da China. Pequim ampliou comércio e firmou relações diplomáticas com países antes vinculados a Taipé sob a égide de Washington: Panamá (2017), R. Dominicana e El Salvador (2018).

Com o fim da Guerra Fria e a consequente omissão dos EUA em relação à América Latina e Caribe, abriu-se espaço a iniciativas inéditas de cooperação: Celac, Alba e Petrocaribe. Heterogêneas em objetivos e alcance, expressaram tentativa de autonomia política e econômica frente às assimetrias.

No governo Obama (2008-2016), prevaleceu o pragmatismo: aceitar estabilidade política e econômica mesmo sob governos não alinhados. O foco era conter fluxos migratórios e reduzir o crime organizado.

A primeira metade do período coincidiu com o auge do Petrocaribe de Hugo Chávez, mecanismo inédito de cooperação Sul-Sul em matéria energética.

Em meio aos efeitos da crise do subprime de 2008, a Venezuela ofertou petróleo em condições vantajosas, com financiamento a 18 países, entre eles aliados dos EUA, como a Jamaica.

Em troca, Caracas ampliou influência política e ideológica, consolidando-se como ator central na política caribenha. Embora desconfortável para Washington, tal arranjo funcionou pragmaticamente: favoreceu a estabilidade regional e reduziu a pressão migratória, preocupação central do primeiro mandato Obama.

A queda do petróleo iniciada em 2013, ano da morte de Chávez e da ascensão de Nicolás Maduro, prolongou-se até 2016 e limitou a capacidade venezuelana de sustentar a cooperação energética e sua influência. O financiamento à energia perdia importância para muitos países, enquanto o governo Maduro sofria desgaste interno e externo.

Em 2014, foram aprovadas as primeiras sanções dos EUA contra a Venezuela. Mas antes de serem executadas, a prioridade hemisférica de Obama se deslocou para a abertura com Cuba.

Os vínculos profundos entre Cuba e a Venezuela se estreitaram como resposta à tentativa de golpe de 2002, antecedendo à Petrocaribe, com agenda muito mais abrangente e peso nas áreas de saúde e inteligência. Essa interdependência tornava, para Washington, incompatível sancionar Caracas e construir confiança com Havana concomitantemente. A queda do petróleo e o início da crise venezuelana não alteraram substancialmente o vínculo bilateral cubano-venezuelano.

Em janeiro de 2017, início do 1º mandato de Donald Trump (2017–2020), houve guinada na política caribenha dos EUA. O Império rompeu negociações com Cuba, ampliou o embargo e iniciou a tentativa de asfixia econômica e política contra a Venezuela, com aplicação de sanções severas e articulação com o Grupo de Lima, buscando promover mudança de regime no país andino-caribenho- amazônico.

Em 2019, o diagnóstico de Washington era que aprofundar a crise provocaria fissuras na base de Maduro, sobretudo entre militares, viabilizando transição interna.

Os EUA reconheceram Juan Guaidó como presidente interino, com amplo respaldo no Ocidente e em muitos países latino-americanos. Os resultados da ingerência, porém, foram opostos: maior presença de potências extrarregionais como China e Rússia e de atores médios como Turquia e Irã; agravamento das crises econômica, social, política e migratória; e paradoxal coesão interna do chavismo.

Em paralelo, pela primeira vez na história, um secretário de Estado dos EUA visitou as capitais da Guiana e Suriname e Boa Vista-RR. Antony Blinken e Marco Rubio repetiram a visita de Mike Pompeo a Georgetown.

No governo Joe Biden (2021–2024), a política para o Caribe teve hesitações e estreita margem doméstica, limitando mudanças. Não retomou as diretrizes de Obama nem alterou posições centrais do primeiro Trump. Prevaleceu a continuidade: sanções à Venezuela e distanciamento de Cuba, sem avanços hemisféricos.

Na campanha de seu retorno, Trump reafirmou a doutrina America First: resolver rapidamente a guerra na Ucrânia e outros conflitos considerados distantes; impor tarifas à China para fortalecer a economia doméstica; garantir independência energética via preços baixos e pouca preocupação ambiental; e focar a segurança interna no combate à migração irregular e ao tráfico de drogas.

Ao fim do 1º ano do 2º mandato, os resultados estão aquém do esperado. O diálogo com Vladimir Putin não encerrou a guerra em 24 horas como prometido. As tarifas ampliaram incertezas globais e não geraram benefícios às famílias eleitoras; ao contrário, preços de bens tarifados, suco de laranja, carne e café, subiram acima da inflação, elevando o custo de vida e piorando a percepção pública da política econômica.

A retórica sobre migração e narcotráfico ganhou ênfase para justificar ações no externas, embora objetivos subjacentes incluam o controle de recursos naturais estratégicos. Essa ambivalência reflete divisões internas: de um lado, a postura introspectiva do vice JD Vance, focada em segurança interna e contenção migratória; de outro, o neoconservadorismo intervencionista de Marco Rubio e Mauricio Claver-Carone, que advogam mudanças de regime em Cuba e Venezuela por força militar e coerção econômica, pouco sintonizadas com o direito internacional e o concerto das nações.

Trump busca restaurar uma ordem típica de meados do século XX, desconectada da realidade atual. Ao oscilar entre isolacionismo e intervenção, os EUA tendem a intensificar práticas agressivas na América Latina e Caribe, reforçando vocação imperial e ampliando tensões e divisões em sua periferia.

As ações de 3 de janeiro de 2026 podem ser lidas como resposta rápida e midiática à escassez de êxitos na política externa, no contexto pré-midterms. A permanência, ao menos por enquanto, de Delcy Rodríguez e do regime chavista indica falta de alinhamento direto com a estratégia intervencionista de Rubio. É plausível que os EUA a combinem com elementos da abordagem America First, que evita ocupação territorial e gastos externos, vetando incursão terrestre prolongada para manter mudança de regime. A síntese das ações em curso converge com a orientação do assessor Richard Gremell, enviado especial a Caracas recentemente: priorizar acesso ao petróleo e reduzir riscos de fluxos migratórios.

Tal pragmatismo sugere que, mais que uma estratégia de transformação política, busca-se atender objetivos imediatos de segurança energética e gestão de pressões internas, em detrimento de compromissos com a estabilidade democrática ou direitos humanos. O processo por narcotráfico contra Maduro funciona mais como justificativa política para legitimar o sequestro travestido de captura do que como esforço de responsabilização judicial.

A síntese das ações em curso também projeta força diante da China. A ausência de avanços na guerra comercial e na disputa tecnológica com Pequim parece ser compensada por gestos simbólicos de alto impacto midiático, como a imagem de um líder sinófilo latino-americano de reputação internacional deteriorada sendo conduzido sob custódia em território norte-americano.

Pedro Silva Barros é mestre em economia política (PUC-SP), bacharel em ciências econômicas (USP) e bacharel em direito (USP). Editor da Revista Tempo do Mundo e técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) desde 2009. Artigo publicado originalmente no Observatório Internacional do Século XXI, Janeiro de 2026.

Comentários