Ártico: a nova fronteira do poder global

Aquecimento global e degelo reposicionam o território como eixo de disputa entre grandes potências no século XXI

Ártico: a nova fronteira do poder global

Foto: Thibaut Tattevin/Pexels

Ártico tem deixado de ser visto como uma periferia congelada do sistema interestatal para se converter naquela que pode ser uma das principais fronteiras de expansão do poder global na segunda metade do século XXI.

Paradoxalmente, a mudança climática, o aquecimento global e o degelo estão abrindo, no Ártico, oportunidades de acessos a recursos energéticos e minerários, estão redesenhando rotas marítimas e comerciais e estão reposicionando o Espaço Ártico na relação entre grandes potências. O expansionismo territorial tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia pode se tocar justamente nessa região polar.

São oito os Estados Árticos: EUA (pelo Alasca), Rússia (pela Sibéria), Canadá, Dinamarca (pela Groenlândia), Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia.

Vale destacar: a Finlândia tem manifestado com cada vez mais frequência o medo de ser invadida pela Rússia, culminando com a entrada do país na OTAN em 2023; a Dinamarca, por sua vez, está sendo obrigada a se posicionar com cada vez mais contundência contra as manifestações de interesse dos EUA sobre a Groenlândia, culminando na última declaração de Trump de que “os EUA vão adquirir, se não do jeito fácil, pelo jeito difícil”. O que mobiliza o interesse desses países?

Do ponto de vista energético, o Ártico concentra uma das últimas grandes fronteiras de hidrocarbonetos ainda pouco explorada. Estimativas indicam que a região abriga cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural ainda não descobertos do planeta, e que podem ser fundamentais para as estratégias de segurança energética e transição energética dos países árticos.

O Ártico possui também um potencial significativo de riquezas minerárias, embora a maioria ainda não esteja plenamente inventariada e quantificada. Estudos geológicos indicam a presença de depósitos de metais e minérios estratégicos — incluindo cobre, níquel, zinco, chumbo, ouro e prata. Além de terras raras e outros minerais críticos que interessam às indústrias de tecnologia e energia.

Mais ainda, o Ártico não é apenas um espaço de extração, mas um laboratório estratégico para tecnologias de ponta: exploração offshore em condições extremas, logística automatizada, vigilância por satélites, cabos submarinos, data centers em clima frio e sistemas avançados de comunicação. A corrida pela inteligência artificial, pelos semicondutores, pela transição energética e pelas tecnologias militares de nova geração exige controle sobre dados, energia abundante e infraestrutura resiliente — todos esses elementos podem ser encontrados de alguma forma no Espaço Ártico.

É, contudo, na dimensão marítima que o Ártico revela seu papel mais disruptivo. O degelo progressivo está abrindo novas rotas de navegação.

Fonte: https://arcticportal.org/shipping-portlet/shipping- routes/central-arctic-shipping-route

A Passagem Noroeste (em verde no mapa) é um conjunto de estreitos entre o arquipélago ártico canadense e o continente, historicamente cobiçado como rota entre Atlântico e Pacífico. Hoje, seu valor cresce com o recuo do gelo e a possibilidade de encurtar distâncias marítimas, especialmente entre a costa leste dos Estados Unidos e o Alasca. No entanto, a rota permanece limitada por condições naturais, infraestrutura precária e disputas legais: o Canadá a considera águas internas, enquanto os EUA defendem seu status internacional. Com o avanço das mudanças climáticas, a passagem ganha relevância estratégica global, associada ao acesso a recursos naturais, logística, investimentos e novas dinâmicas da navegação transártica.

Além disso, a Rota Marítima do Norte (em vermelho no mapa), por sua vez, liga o Mar do Norte ao Pacífico pelo Ártico russo e ganha importância estratégica com o aquecimento global. Historicamente vital para a Rússia, a rota pode reduzir em até três vezes a distância entre Europa e Ásia, diminuindo custos e tempo do transporte marítimo. O recuo do gelo — hoje mais de 50% abaixo da média em alguns trechos — ampliou a janela de navegação, como demonstrado por travessias recentes mais rápidas. Ainda assim, condições ambientais extremas, limites sazonais, disputas jurídicas e o controle da rota impõem desafios ao seu uso regular.

Vale destacar a possível abertura de uma rota de navegação pelo Ártico Central como consequência das mudanças climáticas na região (em azul no mapa). Pesquisas indicam que o gelo plurianual tem afinado drasticamente nos últimos cinquenta anos, permitindo que navios com capacidade de quebra-gelo passem a operar em escala já na próxima década. Projeções apontam aumento de até 3,4°C na temperatura média do Ártico até 2050, o que deve ampliar as janelas de navegação. A nova rota pode reduzir distâncias entre Ásia e América do Norte.

Em suma, para compreender a importância do Ártico para a expansão do poder global é preciso cumprir alguns pré-requisitos: não ser terraplanista, pois é só no globo esférico que EUA e Rússia se encontram geograficamente no Ártico; não ser apocalíptico, pois antes do fim do mundo climático e da extinção da humanidade é bastante provável que a história siga seu velho roteiro: a disputa por territórios antes inóspitos, agora subitamente tornados aprazíveis, como o Ártico.

William Vella Nozaki possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (FFLCH/USP); mestrado em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP); é doutorando em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval da Marinha do Brasil (EGN/PPGEM). Artigo publicado originalmente no Observatório Internacional do Século XXI, Janeiro de 2026.

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