O retorno econômico do cinema nacional e o caso de O Agente Secreto

Desempenho do filme indica que investimento público no audiovisual gera retorno financeiro e fortalece uma indústria estratégica
O retorno econômico do cinema nacional e o caso de O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho (diretor) e Wagner Moura (ator e produtor) nos bastidores das filmagens de O Agente Secreto

Foto: Divulgação/Victor Jucá

O desempenho financeiro inicial do filme O Agente Secreto reforça evidências de que políticas públicas de incentivo ao audiovisual brasileiro podem produzir retorno econômico concreto e ajudar a estruturar uma indústria estratégica. Em cerca de dois meses de exibição, o longa já possibilitou a recuperação estimada de 20% do valor investido pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), índice considerado acima da média para o cinema nacional em estágio tão inicial de exploração comercial.

Com investimento de aproximadamente R$ 7,5 milhões do FSA — cerca de 30% do orçamento total —, o projeto começa a devolver recursos ao fundo público. Isso contraria narrativas recorrentes da extrema direita que tratam o incentivo cultural como “gasto” improdutivo. Na prática, como apontam especialistas do setor, a maioria dos filmes brasileiros não se paga ou leva anos para iniciar a recuperação de capital, distribuindo receitas ao longo de diversas janelas, como cinema, streaming, televisão e mercado internacional. Alcançar esse percentual logo após a estreia reduz riscos e sinaliza viabilidade econômica.

Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), O Agente Secreto arrecadou cerca de R$ 27 milhões no mercado brasileiro. Considerando parâmetros usuais do setor, a receita líquida do produtor gira em torno de 20% da bilheteria, algo próximo de R$ 5 milhões.

O desempenho internacional amplia ainda mais a perspectiva de retorno ao FSA, permitindo que os recursos públicos investidos retornem ao próprio fundo e sejam reinvestidos em novas produções, fortalecendo o ciclo do audiovisual brasileiro.

Retorno acelerado

O Agente Secreto já soma quase US$ 5 milhões em bilheteria fora do Brasil, com destaque para os Estados Unidos, a Europa e, especialmente, a França. A arrecadação total — nacional e internacional — já supera os R$ 50 milhões, posicionando o longa entre os maiores sucessos recentes do cinema brasileiro também do ponto de vista econômico.

A expectativa do setor é que esse retorno se acelere de forma significativa após o reconhecimento internacional recente. O filme conquistou dois Globos de Ouro — Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator, para Wagner Moura — e passou a integrar a principal corrida global do cinema, com campanha ativa para o Oscar. Premiações desse porte tendem a ampliar a permanência em cartaz, abrir novos territórios de exibição e elevar o valor de negociações futuras, especialmente no mercado internacional.

Para o ex-presidente da Fundacine e coordenador do Fórum Audiovisual Minas–Espírito Santo, Beto Rodrigues, o filme ainda está longe de atingir seu pico de retorno. Ele destaca que a bilheteria representa apenas uma das etapas da exploração comercial.

“O cinema é só o começo. Ainda vêm as plataformas internacionais, a TV paga, a TV aberta e as vendas para diferentes territórios. É o que chamamos de efeito de cauda longa, quando o filme continua gerando receita ao longo de muitos anos”, afirma Rodrigues.

Ele lembra que esse modelo é padrão nas grandes indústrias audiovisuais do mundo. Países frequentemente citados como contraponto ao Brasil, como os Estados Unidos, mantêm mecanismos robustos de incentivo indireto, como créditos fiscais federais, devolução de impostos pagos no exterior e programas estaduais que restituem entre 20% e 30% dos gastos realizados localmente por produções audiovisuais. “Não existe cinema forte sem política pública”, diz.

Fomento é regra mundial

A experiência internacional mostra que o fomento estatal é regra, não exceção. Casos como os da Coreia do Sul e da Turquia, citados por Rodrigues, demonstram como políticas consistentes de incentivo ao audiovisual geram emprego, renda, projeção internacional e retorno econômico. Em, 1º de dezembro,, o Extra Classe registrou que setores como a indústria automobilística, têxtil e farmacêutica ficam atrás do audiovisual, que representa 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Há, de fato, um universo pouco visível sobre o papel da indústria audiovisual na economia — contexto que ganha ainda mais força diante dos números concretos de O Agente Secreto.

Ao evidenciar retorno financeiro em curto prazo e perspectivas reais de crescimento nas próximas janelas de exploração, o filme desmonta discursos ideológicos que atacam o investimento público em cultura sem base em dados. Mais do que um sucesso artístico, O Agente Secreto se consolida como exemplo de política de desenvolvimento e sinaliza que o audiovisual brasileiro reúne condições objetivas de viver sua melhor fase histórica, desde que as políticas de incentivo sejam preservadas e fortalecidas.

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