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Foto: Lauro Alves/ALRS
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) foi homenageado nesta quarta-feira, 17, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS). O ato, realizado no gabinete do presidente da Casa, deputado Pepe Vargas (PT), marcou os 70 anos de fundação da instituição, criada em 1955 e reconhecida como a principal referência de assessoramento técnico do movimento sindical brasileiro.
Fundado por 18 sindicatos, o Dieese surgiu da necessidade de produzir indicadores próprios sobre custo de vida, inflação e salários, em um contexto em que os dados oficiais não eram confiáveis e não refletiam a realidade dos trabalhadores. Desde então, consolidou-se como instrumento estratégico para subsidiar negociações coletivas, formular políticas públicas e disputar a narrativa econômica a partir do ponto de vista da classe trabalhadora.

Victor Gnecco Pagnan, Diretor Adjunto de Relações Sindicais (da Direção Nacional do Dieese); deputado Pepe Vargas, presidente da ALRS; e Ricardo Franzoi, supervisor técnico do Dieese no RS
Foto: Lauro Alves/ALRS
A homenagem reconhece uma trajetória marcada pela produção de conhecimento, compromisso público e resistência democrática, atravessando períodos de governos autoritários, ditadura militar, redemocratização e profundas transformações no mundo do trabalho.

Amarildo Cenci, presidente da CUT-RS
Foto: Lauro Alves/ALRS
Para o presidente da CUT/RS, Amarildo Pedro Cenci, o Dieese é uma ferramenta criada pelos próprios trabalhadores para enfrentar desigualdades históricas e desmontar versões oficiais que ocultaram a realidade social do país.
“O Dieese é uma das mais importantes ferramentas que o movimento social e sindical criou nesse país. A sua contribuição é inestimável. Se não fosse o Dieese, nós não teríamos desmentido tantas mentiras que a ditadura, a direita e esse sistema capitalista atrasado quiseram impor à população brasileira”, afirmou.
Na avaliação da secretária-geral da CUT/RS e coordenadora sindical do Dieese no Estado, Silvana Piroli, o reconhecimento institucional tem forte simbolismo político.
“Não é todo dia que uma instituição que representa os trabalhadores e assessora o conjunto dos sindicatos completa 70 anos num país tão diverso e marcado por tantos altos e baixos. O Dieese sobreviveu a muitos impactos e segue sendo fundamental nas conquistas da classe trabalhadora”, destacou.
Ela também ressaltou o gesto da Assembleia Legislativa: “É um reconhecimento, na pessoa do deputado Pepe Vargas, a uma instituição que historicamente sustenta a luta sindical com dados, estudos e credibilidade”.

Ricardo Franzoi, supervisor técnico do Dieese no Rio Grande do Sul, Ricardo Franzoi
Foto: Lauro Alves/ALRS
Segundo o supervisor técnico do Dieese no Rio Grande do Sul, Ricardo Franzoi, a história da instituição está profundamente ligada à capacidade de manter a unidade do movimento sindical como eixo central de sua atuação. Ele lembra que o Dieese nasceu antes mesmo das centrais sindicais e que uma de suas principais missões sempre foi garantir um espaço comum de formulação entre diferentes correntes do sindicalismo.
“A principal missão do Dieese sempre foi enfrentar a discussão da distribuição de renda em um país estruturalmente desigual, buscando informações que permitam melhorar a renda dos trabalhadores representados pelas direções sindicais”, explica Franzoi, que ingressou na entidade em 1985, poucos anos após a criação do escritório gaúcho, em 1977.
Ele cita como exemplos concretos dessa atuação o piso regional e a política de valorização do salário mínimo, ambas construídas com protagonismo das centrais sindicais e forte assessoramento técnico do Dieese. “Nos últimos 20 anos, especialmente após os governos Lula, o salário mínimo praticamente dobrou em termos reais. Esse é o maior acordo salarial da história do país”, afirma.
O impacto dessa política, observa Franzoi, ultrapassou o universo dos trabalhadores formalmente sindicalizados. Pesquisa nacional recente apoiada pelo Dieese mostrou que 80% dos trabalhadores autônomos por conta própria têm no salário mínimo a base de sua remuneração. “Na prática, essa proteção sindical se estendeu a trabalhadores que historicamente não tinham nenhuma proteção”, avalia.

Em 1977, o Dieese descobriu que o índice oficial da inflação de 1973 havia sido manipulado pela Ditadura. Isso resultou em um rebaixamento dos salários. Na foto, Walter Barelli e Joaquinzão, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes
Foto: Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo
A trajetória do Dieese foi amplamente destacada também nas atividades nacionais que abriram as comemorações dos 70 anos da entidade. Na última sexta-feira, 12, em São Paulo, a CUT e demais centrais sindicais realizaram um grande ato político durante o encerramento do Seminário Internacional “Disputar a Renda, Reduzir Desigualdades”, reunindo dirigentes sindicais e representantes do governo federal.
Na ocasião, a vice-presidente da CUT Nacional, Juvandia Moreira, destacou avanços recentes no mercado de trabalho, mas alertou para o problema estrutural dos baixos salários.
“Tivemos redução do desemprego e aumento da renda, mas cerca de 70% dos trabalhadores ganham menos que o salário médio. Isso mostra que a valorização da renda ainda é um desafio central”, afirmou. Para ela, sem o Dieese, sindicatos ficariam reféns apenas dos números apresentados pelo patronato. “O Dieese nos dá segurança técnica para reivindicar mais. Sem isso, seríamos enganados pelos números do empregador.”
Durante as celebrações, dirigentes do Dieese ressaltaram ainda o caráter coletivo da construção da instituição. A diretora técnica Adriana Marcolino lembrou que disputar a renda sempre significou disputar a verdade sobre o custo de vida, enquanto a vice-presidente Maria Aparecida Faria destacou o papel das equipes técnicas e administrativas que sustentam diariamente o trabalho do Departamento.
O presidente do Dieese, José Gonzaga da Cruz, reforçou o sentimento de pertencimento e responsabilidade histórica. “Presidir o Dieese é ajudar a seguir uma instituição sólida, comprometida com o movimento sindical”, afirmou.
Ricardo Franzoi acrescenta que essa trajetória também se expressa na área da formação sindical, outra missão presente desde a origem do Departamento. “Hoje isso se concretiza com a Escola Dieese de Ciências do Trabalho, que recentemente recebeu nota 5 do MEC, a pontuação máxima”, destacou.
As homenagens também lembraram figuras centrais da história da entidade, como Walter Barelli, cuja trajetória simboliza o compromisso ético, técnico e político que marca os 70 anos do Dieese. Reconhecido hoje como patrimônio coletivo do movimento sindical brasileiro, o Departamento segue sendo referência na produção de conhecimento, na defesa da democracia e na luta por renda, direitos e dignidade para a classe trabalhadora.