Movimento
Feminicídio cresce 190% em 11 anos e expõe falência da proteção às mulheres
Entre 2015 e 2025, o Brasil acumulou 13.474 vítimas de feminicídio. O crescimento é contínuo,…

Em sua primeira edição, realizada em 2015, a Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reuniu mulheres de todos os estados e regiões do Brasil
Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Entender a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que acontecerá em Brasília no dia 25 de novembro, o mês da Consciência Negra, é como um fomento à poesia e às lutas. Essa é a sensação ao ouvir a historiadora Janira Sodré, uma das suas coordenadoras.
“Essa marcha é a primavera para o movimento, é sementeira de ideias políticas para um futuro outro. Queremos futuros que abriguem a humanidade em sua diversidade. A marcha se alimenta dessa imaginação política radical criativa, que fabula sobre futuros possíveis”, declara.
A concentração para a Marcha será às 8h30, no Setor Cultural Sul, Lote 2, próximo à Rodoviária do Plano Piloto.

Continuamos com o mesmo número de jovens mortos da década passada. Números de guerra. Para nós, este é um tema fundamental, destaca Janira
Foto: Arquivo Pessoal
Em sua primeira edição, em 2015, a marcha tinha entre 30 a 40 organizações aliadas e reuniu mais de 100 mil mulheres negras. Em 2025, uma década depois, a segunda Marcha já conta com 500 parcerias, e se tornou internacional.
“Os números da violência, porém, continuam os mesmos: 60 mil jovens mortos anuais no país, 70% são homens negros. São números de guerra”, exclama.
Janira Sodré cita os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base em números oficiais de órgãos da Segurança Pública. E observa que o Grupo de Trabalho de Pesquisa da Marcha está consolidando novos números sobre o avanço das organizações negras que serão lançados no próximo dia 25.
“Temos avanços nas organizações, na capacidade técnica e política das mulheres negras, de jovens egressos de políticas afirmativas, com tudo isso continuamos com os mesmos números de jovens assassinados da década passada. Para nós é um tema fundamental”, destaca.
As estatísticas do Anuário de Segurança Pública foram lançadas na véspera do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, que no Brasil coincide com o Dia de Tereza de Benguela, 25 de julho.
Segundo o documento, entre todas as pessoas privadas de liberdade no sistema prisional, a presença da população negra aumentou em 580% entre 2024 e 2025. O percentual passou de 58,4% para 68,7%. Em números absolutos a estatística pulou de 91.843 para 532.683.

Majestoza: o rap como ferramenta de diálogo
Foto: Cristina Ávila
Esses números parecem ser esclarecidos quando se conversa com Majestoza sobre a vida dela. É como uma aula de sociologia. Ela é Kelly Cristina de Souza Arruda e nos próximos dias completará 20 anos de idade.
Passou cinco vezes pela internação provisória da unidade socioeducativa de Santa Maria e dois anos na unidade do Gama, regiões administrativas do Distrito Federal. Hoje trabalha numa padaria e é cantora de rap, com participações importantes em Brasília, como shows da Pitty e Diogo Nogueira.
“O crime é bom e ilude. Uma hora ele te chapa e tu pensa que não quer mais, mas volta. Tive que passar o maior veneno da minha vida. Cresci no ambiente do tráfico de drogas, de roubo”, observa.
Majestoza conta que o contraponto da rua era a mãe, diarista que saia de casa às 5h e voltava às 22h. Em casa tinha o necessário, boa escola e boa alimentação. Mas vendia balinha na esquina (droga sintética) pra comprar um tênis novo.
“Todo mundo na escola tinha trocado três vezes. O meu? A mãe comprou cola pra remendar”.
Majestoza rodou pela primeira vez aos 13 anos. Tinha saído da escola aos 11. A mãe não sabia, pois quando chegava em casa a menina já estava dormindo.
“Eu sofria racismo, por causa da cor e do cabelo. Sempre me zoavam”. A patroa da mãe tinha lhe alugado uma quitinete na área pobre do Guará, região de bom poder aquisitivo, com menor número de alunos negros. “Na rua, a maioria das meninas eram negras. Eram como eu. E gostavam de mim”.
Majestoza foi se descobrir como cantora no socioeducativo. Não foi rápido. A ficha só caiu quando ela teve o filho, aos 16 anos, e começou a pensar que precisava ser exemplo, como teve da mãe dela.
As coisas começaram a mudar quando encontrou o professor Francisco Celso, que dá aulas para adolescentes internos na unidade de Santa Maria. Ela não descobriu só uma vocação, mas um mundo de oportunidades que não sabia que existiam. O professor criou há dez anos o Projeto RAP (do inglês, rhythm and poetry) ou: ressocialização, autonomia e protagonismo, para meninos e meninas que cumprem medidas socioeducativas com restrição de liberdade.
“Utilizamos o rap como ferramenta de diálogo, 90% dos que estão aqui se autodeclaram negros e negras, praticamente 100% de regiões periféricas do DF e entorno. O pontapé é na unidade socioeducativa, mas tem trabalho preventivo nas escolas regulares. E acompanhamos egressos, pra que não voltem a reincidir. Temos tido êxito na arte e cultura, promovendo renda pra eles e elas. A gente tenta tapar um buraco deixado pelo Estado”.
O movimento é constituído por quilombolas, ribeirinhas, do campo, urbanas, periféricas, acadêmicas, artistas, trabalhadoras, meninas, mães, jovens e anciãs. “Nossa força vem da coletividade, do poder das nossas redes e da resistência ancestral. Somos as sociedades anônimas guerreiras brasileiras que não aceitam mais o cancelamento e a negação de direitos”, explica a coordenação no site oficial do evento.
A Marcha das Mulheres por Reparação e Bem Viver está sendo articulada em todos os 27 estados do país por meio de Comitês Impulsores Estaduais, Municipais e Regionais, mobilizados por mulheres negras, sejam elas integrantes de organizações, grupos comunitários ou ativistas independentes.
Esses comitês reúnem mulheres de diferentes contextos, fortalecendo o protagonismo negro em suas comunidades e promovendo o engajamento coletivo na construção desse movimento histórico. O Comitê Impulsor Nacional é formado por articulações, redes e fóruns nacionais e regionais.