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Luiz Mendes: “O entrave tem nome: Fundação Palmares. Os técnicos precisam tirar o processo da gaveta. É simples assim”, sobre
Foto: Acervo pessoal
Vinte e quatro anos atrás, o educador Luiz Mendes estava na mesa que decidiu resgatar a memória do heróico corpo de Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha, soldados que eram hábeis cavaleiros e que manejavam lanças com exímia maestria, mas que foram trucidados em uma das últimas batalhas da guerra, após serem desarmados por seu comandante, David Canabarro, em 14 de novembro de 1844.
Eles lutavam sob a promessa de liberdade da escravidão, um obstáculo à assinatura do acordo de paz com o Império, que ocorreria meses depois. É o que leva muitos a defenderem que houve traição aos soldados negros, tese reforçada pela existência de um manuscrito atribuído ao então Barão de Caxias (depois Duque), comandante das tropas locais do exército Brasileiro, dando orientações precisas para o ataque, o que só seria possível se houvesse a colaboração do generais farrapos.
“Na época, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul também informou a existência de documentos mostrando que o ataque teria sido combinado previamente, comprovando a traição aos Lanceiros. Todos os estudos da época estão formalmente registrados”, recorda Mendes. Houve também levantamentos arqueológicos, pois é possível que muitos dos mortos na noite do ataque tenham sido sepultados no local.
Dessas conversas e articulações, ocorridas a partir de 2001, nasceram as propostas de construção de um memorial aos Lanceiros Negros, no Cerro de Porongos, local da batalha, e do reconhecimento do espaço como patrimônio nacional, dois projetos de 2004 que permanecem inconcluídos.
“O entrave tem nome: Fundação Palmares. Os técnicos precisam tirar o processo da gaveta. É simples assim”, provoca o histórico militante. Nesta entrevista, ele relembra o momento em que o grupo decidiu investigar o caso, a primeira visita ao Cerro de Porongos — que sequer estava no mapa — e analisa o que falta para tirar o reconhecimento institucional do papel. “Não desistimos de ver o memorial acontecendo. Queremos contar a história dos Lanceiros Negros a partir da perspectiva do povo negro”.
ENTREVISTA | Luiz Mendes
Extra Classe — Tu acompanhas o processo de resgate de Porongos desde o início. Como começa a mobilização pela memória dos Lanceiros Negros?
Luiz Mendes — Tudo começou na Semana da Consciência Negra de 2001, em Guaíba. Convidamos o advogado Luiz Francisco Correa Barbosa, o Barbosinha, ex-prefeito de Sapucaia e militante histórico para uma atividade na Câmara de Vereadores. Ele nos fez algumas provocações, entre elas, o fato de o município de Guaíba ter sido um local importante da Revolução Farroupilha e ter sua primeira Semana da Consciência Negra apenas em 2001. Além disso, questionou “por acaso não existe um herói negro nesta revolução?” Naquele dia, ali no Centro Cultural Cândido Velho, uma equipe se formou para responder a estes questionamentos.
EC — Foi ele quem levantou o tema dos Lanceiros?
Mendes — O Barbosinha nos desafiou a colocar o nome dos Lanceiros Negros no panteão do Rio Grande do Sul. Ele criticou o fato de cruzarmos ruas e avenidas sem referência a nenhum negro lanceiro, mesmo eles tendo sido fundamentais na Revolução Farroupilha. E lembrou: “Lá em Porongos, os negros foram assassinados em 14 de novembro de 1844. Vocês precisam homenageá-los naquele local.”
EC — Como foi ir atrás desse lugar que, na época, sequer era conhecido?
Mendes — A primeira vez que fomos a Pinheiro Machado, em 2001, ninguém sabia onde ficava o Cerro de Porongos. O secretário de Turismo chegou a achar que estávamos falando da localidade de Torrinhas, também no município. Perguntamos, buscamos mapas, até compreender que o local do massacre estava completamente invisibilizado. Na época, o Movimento Zumbi da cidade abraçou a ideia conosco e até falamos sobre a possibilidade de instalação de um totem na entrada do município de Pinheiro Machado com informações sobre Porongos. A prefeitura também aderiu à ideia.
EC — Quando o movimento pelo resgate desta memória ganha corpo?
Mendes — Entre 2003 e 2004. Conversamos com a secretaria de Turismo do Estado, que na época abraçou a ideia. Articulamos com a prefeitura de Pinheiro Machado e o Movimento de Justiça e Direitos Humanos e organizamos uma grande mobilização pelos 160 anos do massacre. Em 2004, fizemos uma encenação histórica na madrugada do dia 14, com cavalos, tochas — foi belíssimo. Depois, subimos o Cerro e inauguramos uma placa do Movimento Negro com o poema “Nossos Mortos Não Morreram”, de Barry Diop. Levamos cerca de quatro mil pessoas ao local.
EC — Quando surge a proposta de construir um memorial?
Mendes — Ainda em 2004, quando a Fundação Palmares assumiu a ideia. A nossa demanda original era por um museu, mas, depois de muitas conversas, definiu-se pela construção de um memorial dos Lanceiros Negros no próprio Cerro. Claro, sem interferir na área onde poderiam existir vestígios arqueológicos.
EC — Houve investigação sobre os vestígios?
Mendes — Eu lembro que equipes do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico do estado (Iphae) montaram uma força-tarefa com arqueólogos e antropólogos. Fizeram escavações, mapearam a área, documentaram tudo. O Arquivo Histórico do Estado, na época, também informou a existência de documentos que comprovaram que o Cerro de Porongos era o local do massacre e que o ataque teria sido combinado previamente, comprovando a traição aos Lanceiros. Todos os estudos da época estão formalmente registrados.
EC — Em que pé está o projeto do memorial hoje?
Mendes — Parado na Fundação Palmares. Para movimentar as discussões sobre o tema, o ano de 2004 foi de muitas articulações. Na época também traçamos uma série de atividades que marcaram os 160 anos da Traição de Porongos. Em 2005 foi realizado pela Fundação Palmares e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS) um concurso de arquitetura para a construção do Memorial dos Lanceiros Negros, mas o projeto não saiu do papel por falta de recursos.
EC — Ainda é possível sua execução?
Mendes — Há um projeto arquitetônico vencedor, mas o coordenador da equipe faleceu em 2010 sem nenhum avanço em relação a essa construção. A ideia agora é que a Fundação Palmares recupere esse projeto ou contate os demais integrantes da equipe. Se não for possível, que usem o segundo ou o terceiro colocado do concurso. Mas isso só anda quando a Fundação Palmares retomar, de fato, o processo administrativo.
EC — E o tombamento do sítio de Porongos como patrimônio nacional?
Mendes — O município de Pinheiro Machado se antecipou ao tombamento oficial e comprou a área do Cerro de Porongos. Em nível federal, o Iphan iniciou o processo em 2006, mas tudo ficou paralisado quando a Fundação Palmares engavetou o memorial. O Iphae segue uma linha diferente, de Reconhecimento de Patrimônio Histórico Imaterial, mas nenhum dos processos avança enquanto a Fundação Palmares não se movimentar.
EC — A prefeitura tem defendido o memorial como parte de um projeto turístico. Na tua avaliação, qual é o principal entrave hoje?
Mendes — O entrave tem nome: Fundação Palmares. Os técnicos precisam tirar o processo da gaveta, analisar, enviar para a Procuradoria e seguir os trâmites. É simples assim. O senador Paim já disse publicamente que dinheiro não é problema — que, se o projeto executivo andar, ele articula os recursos no Senado. A prefeitura também afirma que tem interesse. O Estado idem. O gargalo é administrativo.
EC — O movimeto negro está dialogando com a Fundação Palmares nesse sentido?
Mendes — Sim. Inclusive resgatamos o número do processo, que estava parado havia mais de uma década. Todas as instituições — Iphan, Iphae, município, movimento negro — estão pressionando. A última reunião que tivemos foi há dois meses. Mas quem realmente precisa agir é a Fundação Palmares em Brasília.
EC — O acesso ao Cerro ainda é muito difícil. Isso interfere no projeto do memorial?
Mendes — Interfere totalmente. São 19 km de estrada de chão. Quando chove, só trator consegue passar por lá. Nossa proposta é fazer um calçamento usando resíduos da usina de cimento de Candiota. Isso seria bom para a comunidade, inclusive para uma escola que tem ali perto, além de ser essencial para viabilizar turismo, visitas guiadas, ações educativas. Mas nada disso avança sem a formalização do memorial.
EC— Depois de mais de duas décadas envolvido nesse processo, como você avalia o movimento dos Lanceiros Negros ganhando força e relevância nacional?
Mendes — É emocionante. Quando começamos, ninguém sabia sequer onde ficava Porongos. Hoje, os Lanceiros são lembrados como heróis do povo brasileiro. Mas também dói. Nem sempre reconhecem o protagonismo de quem começou essa caminhada. Nós seguimos firmes, sem desistir. Ainda não desistimos da ideia de ver o memorial acontecendo. Queremos contar a história dos Lanceiros Negros a partir da perspectiva do povo negro. E ser um centro vivo, turístico, educativo, cultural. Como é o Cais do Valongo no Rio, por exemplo. Não queremos um monumento morto. Queremos um espaço que fale sobre memória, resistência e futuro.

Comissão Especial do Memorial Lanceiros Negros 2025
Foto: IPHAE-RS/Divulgação
O Rio Grande do Sul tem a maior população quilombola do Sul do país, segundo dados do censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, menos de 15% destes territórios estão reconhecidos oficialmente, uma invisibilização que ecoa o descaso com que é tratada a história dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha.
É na capital gaúcha que está o primeiro quilombo urbano reconhecido do Brasil, o da Família Silva, situado no bairro Três Figueiras.
Em uma década, entre 2010 e 2020, o número de gaúchos que se autodeclararam pretos ou pardos para a pesquisa do IBGE deu um salto de 31%.
O crescimento do número de negros autodeclarados no estado, coincide com o reconhecimento dos Lanceiros Negros no imaginário gaúcho, homenageados pela cultura popular em músicas, filmes e obras de arte.
Uma mesma lógica perversa, porém, se repete em ambos os casos: ao mesmo tempo em que há maior identificação da população com a herança negra e valorização dessa memória, institucionalmente o estado falha.
No caso dos Lanceiros Negros, projetos de um memorial aos Lanceiros e do tombamento do Cerro de Porongos como patrimônio nacional, gestados há 20 anos, permanecem sem conclusão. No caso dos territórios, apenas 14,9% dos 17.552 quilombolas vivem em terras oficialmente delimitadas e tituladas.
A falta de titulação impede o acesso a políticas públicas específicas, a segurança alimentar e a preservação cultural, mantendo essas comunidades em um estado de vulnerabilidade permanente.
Como resume Luiz Mendes, que acompanha a luta desde 2001, nada avança enquanto a institucionalidade, seja federal, estadual ou municipal seguir em silêncio, com a “gaveta trancada”. Para ele, a história dos Lanceiros Negros e a situação dos quilombos gaúchos revelam duas expressões de um mesmo impasse estrutural: a dificuldade do Estado em reconhecer, assumir e reparar a dívida histórica com sua população negra.