Economia
Marchinha de carnaval denuncia exclusão de domésticas do abono do PIS
Ação se inspira em clássico da década de 1950 e cobra do Congresso e Executivo…

Mais de 300 mil pessoas no Brasil passaram a trabalhar por meio de aplicativos de 2022 a 2024, um crescimento de 25,4%. Entre esses profissionais, quase 72% são informais, enquanto na população brasileira ocupada, a taxa de informalidade é de 44%. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O transporte de passageiros por aplicativos deixou de ser uma alternativa flexível e autônoma para se tornar sinônimo de exaustão e instabilidade para a maioria dos motoristas e entregadores no país. Pesquisa realizada pela plataforma GigU mostra que 67,9% desses profissionais atuam por necessidade – e não por escolha própria.
Entre as principais motivações estão o complemento de renda (39,5%), o desemprego (35,8%) e a flexibilidade de horário (31,2%). Mas a realidade, segundo o levantamento da startup criada em 2017, é marcada por longas jornadas, custos elevados e lucros cada vez mais apertados.
“A gente trabalha muito para ganhar pouco. As empresas vendem uma falsa sensação de liberdade, mas somos subordinados a um algoritmo que dita quando e onde devemos estar disponíveis”, relata ao Extra Classe um motorista do Rio de Janeiro que participa de um grupo de whatsapp de trabalhadores em aplicativos. “Se tivéssemos outra oportunidade, sairíamos desse tipo de trabalho sem pensar duas vezes”, registra ele que está há quatro anos nas plataformas de mobilidade.
A pesquisa ouviu mais de mil profissionais em todo o país. Quase 40% ganham até R$ 5 mil por mês, mas três em cada quatro gastam até R$ 3,5 mil com despesas essenciais – combustível, manutenção, alimentação, seguro e aluguel de veículos. Como resultado, 44,2% afirmam ter dificuldades para pagar contas, e 43,2% já atrasaram despesas básicas.
A precariedade é agravada pela falta de segurança: 59,1% dos trabalhadores relataram já ter sofrido violência ou assédio durante o serviço, e apenas 3,4% dizem se sentir totalmente seguros. A desconfiança nas empresas é generalizada – 77,3% acreditam que as plataformas não se preocupam com o bem-estar dos motoristas.

Em outubro, quando o STF iniciou o julgamento sobre a validade do vínculo de emprego a advogada da Uber ameaçou: “Se nos for imposto um modelo estranho ao modelo de negócio, reduziríamos 52% desses postos de trabalho. Aumentaríamos 34% no preço médio das viagens, e reduziríamos 30,7% na massa de renda desses motoristas”
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
“Aqui em São Paulo, a gente enfrenta riscos todos os dias – assaltos, agressões, multas injustas. E ainda temos que lidar com parcelas caras de financiamento do carro. O que era para ser uma alternativa temporária virou sobrevivência”, afirma à reportagem outro motorista que atua com aplicativos. Ele trabalha na capital paulista desde 2019.
Para os consultados pelo Extra Classe, o trabalho da GigU revela o tamanho da dependência criada pelo modelo. “As plataformas estudaram bem a situação do país e perceberam que a falta de emprego era o terreno perfeito para explorar quase dois milhões de motoristas”, observa um condutor do Ceará.
Na Bahia, a percepção é semelhante: “Nossa realidade é a mesma em todo o Brasil. Trabalhamos muito, sem direitos, sem garantias e com medo. Precisamos de respeito e de condições dignas, não de promessas vazias”, lamenta.
Quando perguntados sobre o que tornaria o trabalho mais digno, 96,4% dos entrevistados citaram aumento nos ganhos por corrida ou entrega, e 75,1% pediram redução das taxas cobradas pelas plataformas. Também foram apontadas como prioridades a segurança no trabalho (58,8%), melhor suporte técnico (54%) e transparência nas relações (57,2%).
A pesquisa da GigU reforça a necessidade de regulamentar o trabalho por aplicativo no país, tema que avança lentamente no Congresso Nacional. Enquanto isso, motoristas seguem na rotina de incertezas.
“As empresas falam em parceria, mas o que existe é subordinação e insegurança. O discurso da liberdade virou só marketing”, resume o motorista carioca.
A GigU se propõe a ser uma plataforma onde os trabalhadores em aplicativos possam comparar em tempo real quanto pagam diferentes plataformas por uma mesma corrida. Assim, há a escolha da mais vantajosa.
O serviço, porém, despertou a reação da Uber. A big tech entrou com um processo contra a startup e o caso chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que está avaliando um possível abuso de poder econômico. A GigU acusa a Uber de tentar sabotar sua operação.
“O que fizemos foi criar uma ferramenta que melhora a vida do motorista, mostrando o valor real das corridas. Não queremos tirar espaço da Uber, mas garantir que o trabalhador tenha condições mais justas de escolha”, afirma Luiz Gustavo Neves, presidente da GigU.
O executivo diz ter revertido na Justiça uma suspensão inicial imposta pela Uber e relata que, após o episódio, a empresa enviou mensagens à base de motoristas alertando sobre possíveis banimentos para quem usasse o aplicativo da sua empresa.
Com atuação também entre entregadores, a GigU pretende ampliar o alcance de sua ferramenta. A empresa soma meio milhão de downloads e já cobra uma mensalidade que considera simbólica, R$ 12,90. Segundo Neves, o valor é usado para financiar a expansão internacional da sua plataforma, que já opera nos EUA, Portugal e México.