Reindustrialização como política de Estado e não apenas de governos

Programas federal e estadual apostam em pessoas e processos para criar uma nova cultura de desenvolvimento, com geração de empregos e reorganização urbana
Reindustrialização como política de Estado e não apenas de governos

O novo ciclo de desenvolvimento produtivo transforma a reindustrialização em política em cujo investimento foca mais na qualificação, na competitividade, na produtividade do que em máquinas e novas plantas

Foto: Senai/ Divulgação

O Brasil tenta consolidar um novo ciclo de desenvolvimento produtivo transformando a reindustrialização em política em que o investimento foque mais em qualificação técnica, competitividade e produtividade do que em máquinas e novas plantas.

Nos últimos dois anos, dois programas passaram a ancorar essa mudança de rota no Rio Grande do Sul: o Nova Indústria Brasil (NIB), política federal lançada em 2024, e o InvestRS, programa estadual voltado à atração de investimentos e ao fortalecimento de cadeias produtivas locais, já começaram a mudar o cenário, dentro e fora das empresas.

NESTA REPORTAGEM
Mais do que captar recursos ou inaugurar fábricas, o foco comum é reconstruir a base industrial a partir da capacitação de pessoas, da inovação e de novos processos, formando uma cultura de desenvolvimento contínuo – capaz de resistir a ciclos de governo e de mercado.

O NIB não quantifica, em suas projeções, o número de empregos que podem ser gerados com o conjunto de ações, mas inseriu em uma de suas missões um objetivo que mira a qualidade de vida dos trabalhadores.

Entre metas de melhorias em infraestrutura, saneamento e moradia, uma delas é reduzir o tempo médio de deslocamento ao trabalho. A iniciativa deve contar com investimentos no transporte público e na reorganização urbana, o que também contribuiria para elevar a produtividade.

A ideia é que, ao oferecer condições de deslocamento menos desgastantes, os trabalhadores seriam mais eficientes. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, o tempo de deslocamento das pessoas de casa para o trabalho é, em média, de 4,8 horas semanais – o que o projeto propõe reduzir em 20%.

Já a InvestRS não estima especificamente o número de vagas a serem criadas, mas calcula que os projetos apresentados a investidores, que somam R$ 20 bilhões em negócios, têm potencial para ampliar o número de postos de trabalho em cerca de 10 mil vagas.

Tarifaço acelerou medidas para reindustrialização

Reindustrialização como política de Estado e não apenas de governos

Nos últimos dois anos, dois programas passaram a ancorar essa mudança de rota no Rio Grande do Sul: um deles é o NIB, política federal lançada em 2024

Foto: Marcelo / Camargo Agência Brasil

O tarifaço imposto pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros neste ano levou o governo federal a acelerar medidas de proteção à indústria nacional que já estavam previstas, intensificando negociações diplomáticas e diversificando mercados.

Coordenado pela pasta de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Nova Indústria Brasil foi concebido como uma política de longo prazo – com seis missões estratégicas, que vão da agroindústria sustentável à descarbonização da energia.

Além do NIB, que tem apoio do BNDES, Finep e Embrapii, foi implantado após o tarifaço o Plano Brasil Soberano, o qual oferece crédito de R$ 40 bilhões a juros abaixo do mercado e restituição antecipada de tributos. Um dos principais instrumentos da NIB é o Plano Mais Produção, um conjunto de linhas de crédito para a indústria.

“No NIB, começamos com R$ 300 bilhões e hoje temos um valor total de R$ 643 bilhões previstos. Desses, já foram contratados R$ 516 bilhões para 258 mil projetos vinculados às seis missões em todo o país”, ressalta o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira.

O programa tem conseguido atrair a atenção de pequenas e médias empresas, não apenas das grandes corporações. A proposta do NIB é criar uma estrutura de política industrial que possa se manter independente de governos, como política de Estado, não de governo.

O diferencial do programa está na integração entre estratégia industrial, crédito e inovação, e não somente no volume financeiro.

No Rio Grande do Sul, essa execução vem sendo estruturada pela Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), que atua como hub técnico do NIB – ajudando empresas a identificar gargalos e acessar linhas de financiamento voltadas à produtividade e à transformação tecnológica.

Victor Gomes, gerente-executivo de Tecnologia e Inovação do Sistema Fiergs, destaca que o Programa Brasil Mais Produtivo aplicado no Rio Grande do Sul, em parceria do Senai com o Sebrae, já teve um aumento de produtividade de 45%, o que supera a média nacional, que é de 27,75%.

“Dos 196 atendimentos na parte de manufatura enxuta, mais de cem focaram na parte de eficiência energética, com ganhos do Rio Grande do Sul também muito acima da média nacional. O consumo energético foi reduzido em 32% aqui no estado, ante 24,13% da média do país”, comemora Gomes.

As empresas, que passaram pelo Lean Manufacturing, fizeram a sua análise organizacional para ambientes mais produtivos e, agora, podem dar os próximos passos para a transformação digital. Por exemplo, com a inclusão de um sistema de sensoriamento em algumas partes do sistema de produção, mesmo em pequenas empresas e médias empresas

“Com isso, houve aumento da competitividade, não só por meio da produtividade maior, mas também por meio do aumento da qualidade de seus produtos. É isso que a transformação digital leva para as empresas”, explica o executivo da Fiergs.

Reindustrialização como política de Estado e não apenas de governos

Entre metas de melhorias em infraestrutura, uma delas é reduzir o tempo médio de deslocamento ao trabalho com investimentos em transporte público de qualidade

Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Agência gaúcha de atração de investimentos roda o mundo

Do lado estadual, a InvestRS é o elo que conecta o Rio Grande do Sul com o ambiente global de investimentos. Criado para ser mais do que uma vitrine de oportunidades, o programa funciona como uma agência técnica de desenvolvimento – articulando governo, iniciativa privada e investidores internacionais.

A InvestRS iniciou sua operação em dezembro de 2024, após ser lançada oficialmente em outubro daquele ano. A agência gaúcha de prospecção de investimentos foi criada com uma carteira de aproximadamente R$ 20 bilhões em projetos acompanhados, dos quais R$ 6 bilhões diretamente atraídos pela atuação da InvestRS.

Desde então, os representantes da InvestRS e do governo gaúcho participaram de agendas de promoção comercial e atração em 17 países.

Um dos marcos deste período inicial foi a inauguração do escritório em São Paulo, o principal centro econômico e financeiro do país, onde foi instalado um hub de promoção e conexão do Rio Grande do Sul.

Setorialmente, a atuação se guia pelos 12 setores prioritários definidos no Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável.

Esses setores estratégicos se entrelaçam com a base produtiva gaúcha, seja a tradicional ou nova economia, como o agronegócio (pela produção de alimentos e potencial de expansão sustentável), a inovação (onde já há um ecossistema sólido), a transição energética (eólica, solar e hidrogênio verde) e a abertura de novas perspectivas para o setor de semicondutores.

A lógica do InvestRS não é só trazer capital, é também criar um ambiente mais produtivo, o que inclui qualificação de mão de obra, estabilidade e suporte técnico. A ideia é mostrar aos investidores que há no estado uma rede sólida de apoio a empresas.

Ainda que de forma não oficial, o alinhamento entre NIB e InvestRS gera um ambiente e uma rede de qualificação industrial ainda mais consistentes. Assim, nesse processo, também chamado de neoindustrialização, começa a emergir no Rio Grande do Sul uma nova cultura de desenvolvimento industrial.

O foco é ter um caminho para um crescimento duradouro, não depender de incentivos temporários, mas de estruturas permanentes de qualificação e planejamento. A diferença fundamental é que o foco está menos no imediatismo e mais na construção do futuro.

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